Viadagens teológicas: religião e política fora do armário

Viadagens teológicas: religião e política fora do armário
15 de outubro de 2018 André S. Musskopf

Viadagens teológicas: religião e política fora do armário

Por André S. Musskopf

© upslon

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É comum referir-se ao ato de “sair do armário” ou “assumir-se”, especificamente no caso de pessoas LGBT+ (lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transexuais, transgênero e outras), como um ato político. No âmbito da cidadania pública significa sair das fronteiras de invisibilidade e colocar-se como um sujeito político que demanda reconhecimento, valorização e respeito (ainda que as instituições públicas não o reconheçam). No âmbito teológico, esse “sair do armário” também tem sido trabalhado como uma forma de assumir-se como pessoa digna e capaz de viver e expressar o sagrado (ainda que muitas instituições religiosas não o reconheçam), reivindicando a cidadania religiosa e afirmando outras espiritualidades.

A expressão “viadagens teológicas” geralmente chama a atenção de quem a lê ou ouve. Quando lido em público e em voz alta pode gerar risos, constrangimento e até gagueira ou engasgue por parte de quem as pronuncia. Até onde pude averiguar, não aparece em dicionários e o próprio corretor automático do Word© não a reconhece. Tudo isso aponta precisamente para os motivos de sua utilização: a afirmação despudorada de saberes e práticas políticas construídas no campo do conhecimento teológico e social fora dos padrões do que é aceito como normal e natural desde uma perspectiva que assume uma determinada compreensão da heterossexualidade como normativa.

A primeira vez que utilizei essa expressão (com a grafia “veadagens”) foi num artigo para o livro [Re]leituras de Frida Kahlo, organizado por Edla Eggert, que estabelece uma reflexão a partir da teologia sobre a pintura “O veado ferido” (La Venadita) em diálogo com a utilização da figura e do termo “veado/viado” para referir-se a homens gays no contexto brasileiro. Esse artigo foi incorporado à minha Tese de Doutorado, posteriormente publicada como livro pela Fonte Editorial, aparecendo como título geral da obra ainda com uma outra grafia: via(da)gens teológicas.

Nesse contexto, a justaposição de duas palavras – viagens e viadagens – foi usada para expressar o processo de produção de conhecimento realizado (o caminho percorrido) para a construção de “itinerários para uma teologia queer no Brasil” (subtítulo da Tese e do Livro) desde uma perspectiva particular: a experiência no âmbito da diversidade sexual e de gênero expressa por meio da discussão sobre a construção da sexualidade e da religiosidade no Brasil, a visibilização da produção teológica desenvolvida pelas teologias homossexual-gay-queer e a proposição de um jeito de fazer teologia a partir de histórias de vida de pessoas trans em diálogo com múltiplas vozes e saberes. “Ambiguidade” foi um conceito importante para articular todas essas questões.

Estas poucas linhas talvez não sirvam para mais nada além de despertar o interesse pela leitura dos textos mencionados (ou não). No entanto, elas também revelam o intenso trabalho e a perspectiva política – no âmbito religioso e no âmbito social – que essa produção assume, particularmente no contexto atual. Por um lado, desestabiliza o campo religioso muitas vezes tido como homogêneo e definitivo sobre questões relacionadas a gênero e sexualidade. Afirma a cidadania religiosa e o direito à reflexão teológica por aquelas pessoas e grupos sociais excluídos dos espaços de poder e decisão sobre essas questões no âmbito religioso. Por outro lado, desestabiliza também o campo político, tanto ao apresentar vozes alternativas às forças conservadoras que querem instrumentalizar esse campo utilizando-se da religião como elemento articulador, quanto ao afirmar a cidadania dessas pessoas e grupos também diante de sistemas de poder que impedem a sua participação pública e cidadã – inclusive pela falta ou completa ausência de políticas públicas voltadas para essa população e a garantia de seus direitos.