Surdez e Alteridade: expressões religiosas das crianças surdas

Surdez e Alteridade: expressões religiosas das crianças surdas
5 de setembro de 2018 Jacqueline Crepaldi Souza

Inclusão

Surdez e Alteridade: expressões religiosas das crianças surdas

Jacqueline Crepaldi Souza

Informações sobre a obra

Esta obra apresenta a relação entre surdez e alteridade tendo como foco as expressões religiosas de crianças surdas. Analisa as expressões dos sentimentos religiosos de crianças surdas com idade entre 7 e 13 anos.  Apresenta os sentimentos religiosos dessas crianças como consequência de serem acolhidas ou temerem preconceitos. Descreve como a criança surda compreende Deus e destaca o sentido da vida para essa criança: abertura ao outro e ao grande Outro.

O texto está amparado na ética da alteridade e procura reconhecer os direitos da pessoa surda para que os mesmos sejam garantidos. A cultura surda revela-se numa espécie de “multiplicidade dessemelhante”, a partir da qual se reconhece o outro. A meta a ser atingida é a abertura de caminhos para o acolhimento da criança surda, após a divulgação de sua especificidade, riqueza e visão de mundo.  Recorre-se à fenomenologia da religião como método de pesquisa, utilizando-se a técnica de Grupos Focais. Elaborados com clareza e profundidade, esses grupos apontam dados riquíssimos, além de abrir possibilidade de colaborar na construção de pesquisas empíricas.

Neste trabalho, o ponto de apoio para falar de alteridade é Lévinas, para quem a palavra Deus tem significado a partir do rosto, nas relações, no encontro, na responsabilidade pela humanidade. O desvelamento do sagrado na cultura surda também será assunto tratado nesta obra. No escutar a criança surda, escuta-se Deus, vestígio do infinito em nós.

Minicurrículo da Autora

Doutoranda com pesquisa financiada pela CAPES e PUC Minas, Mestra em Ciências da Religião (PUC Minas), Psicopedagoga (PUC Minas), Pedagoga (Newton Paiva), Teóloga (PUC Minas) e Técnica em Comunicação Assistiva (PUC Minas). Tem experiência na área de Ensino Religioso para crianças. Habilidade e competência para mediação comunicativa com pessoas cegas e surdas. Atua em trabalhos comprometidos com a inclusão social. Atualmente é professora de Ensino Religioso no Colégio Santo Agostinho-BH.

Apresentação do Livro

Pensar a alteridade sempre foi um desafio na nossa história. E hoje esse desafio assume proporções planetárias, quando assistimos a uma onda de refúgio no conservadorismo pré-moderno, o outro, o diferente em si mesmo, está cada vez mais agredido em seu direito à vida e à diferença. Mas há que dizer também do extremismo de vanguarda, seja na ciência seja nos comportamentos éticos.

Uma pergunta sempre incomoda: por que aceitar o outro é tão difícil? Primeiramente, é preciso entender o que significa, eticamente, aceitar o outro. Aceitar tem originariamente o sentido de acolher. Acolher exprime proximidade, comunhão, simplicidade de coração. Mas aí vem o desconforto: aceitar significa também justificar as escolhas do outro? Significa concordar com o diferente? Não necessariamente. A proximidade nem se coloca esse problema de justificar, de julgar se está certo ou errado, se é moral ou não. A lógica da proximidade sai da superfície em direção à profundidade do sentido, este acontece eticamente. Somente quem mergulha na vida espiritual sabe acolher e aceitar o outro, sabe se fazer próximo. Ademais, suas escolhas são suas. Sua diferença é sua. Sua raça é sua. Ele ou ela é eleidade. Quem não sai da superfície, sabe apenas julgar: ele é surdo, ela é negra, o outro é homossexual, fulano é deficiente. E como esse <é> das afirmações pode machucar, excluir e matar! Como a ontologia pode ser violenta. A exclusão abre talhos incicatrizáveis na alma humana. Na superfície existencial de uma cultura, não se enxerga a dignidade do outro, nem seus direitos. Pelo contrário, o eu que não aceita o diferente sente-se ameaçado pela própria diferença. Mas é justamente aí, na irredutível diferença que reside a maior riqueza da vida. Foi no acolhimento que Zaqueu (Lucas 19:1-10) descobriu uma nova vida. Foi no diálogo e na proximidade que a Samaritana (João 4: 1-42) entreviu o sentido da vida. É no acolhimento que as pessoas descobrem uma energia superior para continuar na existência (João 8).

Somente na lógica da proximidade é possível acolher o outro sem se sentir ameaçado pela diferença. O outro não destrói minha identidade, mas, pelo contrário, enriquece-a, pois em meio à diferença é possível encontrar um vínculo substancial do humano que nos irmana.

O livro que apresento com muita alegria – Surdez e alteridade – é de uma atualidade enorme. Veio contribuir com o debate sobre a inclusão, sobre os direitos fundamentais da pessoa surda e sobre a alteridade em geral. No Enem 2017, o tema da redação foi Desafios para a formação educacional de surdos no Brasil. E gerou polêmica (do grego Pólemos = guerra)! Às vezes, a polêmica deixa de ser um debate saudável para se tornar guerra nas redes sociais e no dia-a-dia. Na rapidez e na velocidade das comunicações hoje corremos o risco de ficar sem profundidade e perder as raízes do humano. Surdez e alteridade veio em boa hora para enriquecer o debate com reflexões éticas, abrindo caminhos para a comunidade surda. Aliás, como a autora escreve, existe uma verdadeira cultura surda, diferente da nossa. Há uma língua – LIBRAS – diferente do Português oficial do País. Mas há uma dignidade e uma igualdade fundamental entre os diferentes.

A autora exprime em cada página sua sensibilidade feminina, seu encantamento pelo tema da alteridade, seu amor pela educação. Jacqueline Crepaldi, Parabéns pelo livro. Auguro-lhe muitas realizações pela vida afora na luta e defesa da alteridade. Boa leitura.