Como se articula o golpe?

Como se articula o golpe?
4 de setembro de 2018 Nelson Lellis

Como se articula o golpe?

Reflexões a partir do panfleto “Da UNE ao Povo Brasileiro”

Por Nelson Lellis

Chegou a mim o panfleto acima através do Dr. Vitor Peixoto, professor do programa de pós-graduação em Sociologia Política da UENF, onde faço parte do quadro discente. Logo corri para ver a fonte. Faz parte do Arquivo João Goulart, CPDOC/FGV, mas também o encontrei na página 195 do livro “Jango, as múltiplas faces”, de Ângela Maria de Castro Gomes e Jorge Ferreira, publicado pela FGV em 2007. Chamou a atenção por dois motivos: o primeiro é a história que mantém sua insistência em reproduzir os mesmos acentos políticos dissonantes no país. O segundo, que, independentemente das informações tão amplas, parte da população brasileira inclina-se diante do desserviço midiático e das elites quando se trata de interesses coletivos, sobretudo dos mais necessitados. Este último motivo revela um outro grupo além da mídia e das elites: o religioso.

Uma das questões do panfleto é a seguinte: “Como se articula o golpe?”. O primeiro item como resposta é um registro para a história: “pela exploração dos sentimentos religiosos para fins políticos”. O prof. Dr. Wanderley Pereira da Rosa, diretor da Faculdade Unida de Vitória, em palestra sobre “Evangélicos e Ditadura Militar”, destacou três denominações evangélicas desta época. À priori, contextualizou os evangélicos no período pré-golpe. Dois grupos são identificados: um progressista e o outro conservador. Os fiéis progressistas, desde 1910, buscavam discutir sobre como poderiam contribuir na sociedade brasileira. O movimento ecumênico começou a ser ventilado e seu marco histórico na América Latina se deu no Congresso do Panamá, em 1916. Os evangélicos que representaram a igreja brasileira no Congresso foram os presbiterianos Eduardo Carlos Pereira, Álvaro Reis e Erasmo Braga.

Panfleto da UNE

Em 1962, na cidade de Recife, houve a “Conferência do Nordeste: Cristo e o processo revolucionário brasileiro” (a Faculdade Unida de Vitória promoveu um evento 50 anos depois para rememorar o congresso; foi produzido um livro com o mesmo título e um documentário que pode ser acessado na internet pelo nome de “Documentário – O sonho ecumênico). No Congresso de 62, havia um interesse muito grande em colocar a teologia em diálogo com as ciências sociais. Convidou-se, portanto, intelectuais e sociólogos para palestrarem. Estiveram presentes nomes importantes como Gilberto Freyre e Celso Furtado. A ideia era trabalhar numa direção de uma teologia pública e cidadã, com iniciativas políticas inclusivas, preocupadas com as minorias e, consequentemente, antenada com as condições sócio-políticas da época.

Mas dentro das denominações de protestantes históricos de missão também se discutia sobre a contribuição social que se poderia concretizar. Neste aspecto, metodistas, presbiterianos e batistas estavam preocupados. Na síntese feita pelo prof. Wanderley em documentos oficiais destas denominações, é possível notar os posicionamentos: 1) tentativa de superação do individualismo característico do protestantismo de missão rumo a uma teologia social; 2) preocupação com a pobreza da maioria da população brasileira e reivindicam ações governamentais que diminuam esse estado de alienação dos bens mais básicos para uma vida digna; 3) posicionam-se contra preconceitos de toda sorte; 4) defendem liberdade de consciência e de expressão e os princípios democráticos; 5) advogam a inserção de membros dessas denominações, e do protestantismo em geral, na vida pública: sindicatos, partidos políticos, fábricas, cátedras e nas instâncias de poder nas esferas executivas, legislativas e judiciárias; 6) reivindicam a proteção à infância e à juventude contra os males que ameaçam essa faixa etária da população brasileira; 7) clamam por melhor distribuição das riquezas nacionais e por reforma agrária; 8) pedem melhoria do sistema de saúde e ações de combate aos vícios; 9) defendem a crítica aos governos e o enfrentamento quando estes não agem em favor do povo; 10) reivindicam condições de moradia nas áreas urbanas e rurais; 11) regulamentam o trabalho das mulheres; 12) exigem reforma previdenciária visando à aposentadoria digna; 13) advogam o direito à greve.

Contudo, toda essa tentativa de erguer um trabalho evangélico participativo no país encontrou barreiras nas próprias denominações. O segundo grupo, dos conservadores de classe média, iniciou reações contra as posições ecumênicas (que buscavam diálogo, justiça social, mas que eram vistos, por isso, como comunistas).

Seguindo a sistematização do prof. Wanderley, vejamos como essas igrejas reagiram:

Igreja Presbiteriana do Brasil: No livro de João Dias de Araújo, “Inquisição sem fogueiras”, registra-se que a IPB estava sob influência do movimento fundamentalista americano desde a metade do séc. XX. João Dias fala sobre vários alunos e professores que foram expulsos de seminários, de fechamento de seminários (como o Seminário Centenário), de pastores exonerados ou despojados, sobre o discurso político e social que fora banido das igrejas sendo permitido tão somente a preocupação pela conversão das almas. Há um documento que ilustra um pouco do posicionamento da IPB:

“Todos os verdadeiros cristãos se regozijam e estão regozijando com os resultados da gloriosa revolução de março-abril: o expurgo dos comunistas e seus simpatizantes, da administração do nosso querido Brasil. A Providência de Deus se fez sentir na hora certa, quanto muitos fiéis, já ansiosos e temerosos, pensavam que a nação teria de ser flagelada pela horda dos anarquistas e materialistas – Deus agiu na hora certa, repetimos usando a coragem e o patriotismo das Forças Armadas e de civis… se quiserem ser comunistas, que o sejam, mas renunciem à jurisdição da Igreja e não contaminem o rebanho […] É preciso o expurgo”. (Rev. Oscar Chaves – Jornal Brasil Presbiteriano – maio de 1964)

Batista: Como o espaço é curto, transcreveremos parte do editorial do Jornal Batista, que fornece um discurso que entende ser Deus o responsável direto pela intervenção militar:

“Os acontecimentos políticos militares de 31 de março e 1º de abril que culminaram com o afastamento do presidente da República vieram, inegavelmente, desafogar a nação. Porque estávamos vivendo num clima pesado de provocações, de ameaças, de agitações que nos roubavam o mínimo de tranquilidade necessária para poder trabalhar e progredir. Necessária inclusive para a pregação do Evangelho. Agora as coisas mudaram. Era tempo […] Esse clima artificial, […] estava sendo mantido por uma desabusada minoria […] Referimo-nos à minoria comunista. […] O presidente que estava fazendo um jogo extremamente perigoso foi afastado. A democracia já não está mais ameaçada. […] É lamentável assinalar que até mesmo em algumas igrejas houve infiltração. Moços cheios de ideal e com a impaciência natural da mocidade julgaram que apoiando os totalitários vermelhos conseguiriam reformas salutares para o Brasil. […] Estamos certos, por exemplo, de que Deus atendeu às orações incessantes de seu povo pela pátria. […] Um milagre de Deus, atendendo as orações de seu povo. […] Os crentes têm que viver à altura dos acontecimentos atuais. […] Não será agora que se vai estabelecer censura e limitação da liberdade no Brasil. Mas que tal hora nunca chegue”. ( José Pereira dos Reis – O Jornal Batista – editorial de 12 de abril de 1964)

Metodista: Em relação à igreja metodista, cabe vasculhar documentos outros que aclaram negativamente suas agendas político-religiosas:

“[…] Então eu e o Rev. Sucasas fomos até o quartel do DOPS. Lá estivemos das 3:30 às 4:30 da tarde. Conseguimos o que queríamos, de maneira que recebemos o documento que nos habilita aos serviços secretos desta organização nacional da alta polícia do Brasil”. (Diário do Bispo Sucasas, em 25 de março de 1969).

Após este trecho do diário, lemos um pequeno relato do metodista Anivaldo Padilha, que foi preso, torturado, e precisou sair do país deixando para trás sua esposa grávida (só veio conhecer Alexandre Padilha quando este tinha 8 anos de idade). Seu irmão desapareceu neste período de torturas. Veja o relato de Anivaldo:

“Em 1970 fui preso pelo DOI/CODI em São Paulo juntamente com dois jovens da Igreja Metodista Central e uma companheira católica. O DOI/CODI era o principal centro de torturas montado pela ditadura no país. Durante uma das sessões de torturas a que fui submetido, os torturadores queriam me forçar a confessar que eu pertencia a uma organização comunista clandestina. Diante da minha negativa, um torturador me disse: ‘você quer que eu acredite em você ou no pastor que diz que você é comunista?’ Somente há cerca de oito anos, quando tive acesso aos documentos a meu respeito constantes nos arquivos do DEOPS em São Paulo e na ABIN (antigo SNI), é que descobri que o tal pastor não era um, mas dois. Eram o bispo Isaias Sucasas e seu irmão Rev. José Sucasas Jr., ambos metodistas. Isto está documentado nos Arquivos do antigo DOPS e do SNI”.

No evento promovido pela Faculdade Unida em 2012, como citado no início desta reflexão, Anivaldo Padilha esteve testemunhando detalhes dessas torturas. Sob lágrimas, relatou a importância da Comissão da Verdade e sobre seus constantes pesadelos com seus torturadores. Disse ainda que passou a dormir melhor só quando resolveu “perdoá-los”. Isso não significava, em suas palavras, abrir mão da justiça em relação aos atos de violência.

E o que pensar para os dias de hoje?

“Como se articulou e como se articulam novos golpes” através das igrejas brasileiras? Não se trata de uma visão progressista rasa, todavia, a conclusão desta matéria (que merecia mais caracteres trazendo vários documentos e discursos produzidos por pastores e gentes do judiciário que são evangélicas) responde inspirada nos dados históricos: igrejas que não pensam a sociedade de forma respeitosa, plural, mas conjunta, tendem a sacrificar a tudo e a todos em nome de Deus… em nome de si mesmas. De gente assim, a história sempre esteve cheia… e há quem diga: “o inferno também”.