Um mundo sensível: a arte e a notícia sobre a arte

Um mundo sensível: a arte e a notícia sobre a arte
3 de setembro de 2018 Ricardo Nachmanowicz

Um mundo sensível: a arte e a notícia sobre a arte

por Ricardo Miranda Nachmanowicz

© Kevin Laminto

© Kevin Laminto

Para a arte há a palavra do crítico, do filósofo da arte, do artista, da sociedade civil organizada, dos veículos de mídia, e hoje, mais do que nunca, das redes sociais. Dentro de papéis que vêm se sedimentando muito rapidamente em nossa sociedade essas figuras e meios já soam como clássicas [repetitivas]. A palavra do crítico, do filósofo, do artista, da sociedade civil, da mídia e das redes sociais é tão difundida que pode ser emulada por nós, inclusive com o pano de fundo do timbre de voz de conhecidas celebridades.    

Esse foi o contexto com que a cidade de Belo Horizonte sediou a exposição “Faça você mesmo a sua Capela Sistina” do artista Pedro Moraleida (1977-1999) no Palácio das Artes. Assim como outras ocorrências episódicas no ano de 2017 os canais de comunicação foram inundados pelas narrativas mais do que frequentes de desgastadas discussões sobre o proibitivo de ordem política, religiosa ou cultural.

Novas celebridades despontam e os velhos canais de mídia, juntos, alimentam polêmicas vazias em uma roleta de temas com teor de calúnia, censura e autoritarismo. Essa forma de exposição pouco democrática apenas acentua a interposição existente entre a arte e o saber sobre a arte, entre a notícia e as coisas mesmas.    

Ao nos tornamos insensíveis aos preceitos democráticos e artísticos ficamos ‘sensíveis’ tão somente às notícias, presos a uma vida de signos e abstrações e afastados de experiências concretas. Minha preocupação é com a baixa capacidade de nos sensibilizarmos com o real num contexto de expectativas de cliques, visualizações e irritações em frente ao computador. Afinal até mesmo a sensibilidade é moeda em uma economia de mercado da informação. Explico. No mesmo episódio envolvendo a exposição de Moraleida temos a divulgação da cena de um vereador da cidade saindo do Palácio das Artes ao lado de uma mulher em falso pranto. Embora seja um simulacro, está ai a indicação de uma reprovação moral à exposição. Ao mesmo tempo, o prefeito da cidade, ainda na porta da exposição, declara: “Não acredito que nenhum homem do século XXI se choque de verdade com o que viu. Nem se fosse mais chocante do que é”1.

No conjunto de todos os agentes, obras e narrativas, retóricas, ficção, ansiedade, incitação e fantasia, está em disputa a nossa capacidade sensível para obras, objetos, gestos e vidas humanas. Esse é um debate anterior à arte, à ética e à religião. Diz de um componente da vida humana que nos habilita a experiências em geral. Contudo, todas as dificuldades e ambiguidades aparecem no uso do termo sensível em seu ato de fala no contexto de nossa intrincada sociabilidade.    

Ao dizer sensível busco categorizar alguém [o sensível], compreendido como detentor de uma aptidão especial [a sensibilidade], uma capacidade de contemplação dos fatos comuns da vida, dos detalhes morais do presente, raramente voltado aos fatos monumentais da história. Com esse mesmo ato de fala designo também um eufemismo, que vela — ou quase revela — uma intenção de censurar e reprovar a postura daqueles que optaram por não introjetar em sua personalidade certa rudeza de caráter. De volta à exposição de Moraleida: ser sensível implica chocar-me com o exposto ou contempla-lo? A ambiguidade da sensibilidade encontra-se nas relações entre o admirável e censurável.     

Quem já destacou a sensibilidade alheia sabe que há nesse gesto também um sinal de afastamento ou expulsão. Da mesma maneira, a censura à sensibilidade admite previamente, em alguma instância, estar diante de algo esplêndido, mas desautorizado por uma norma de maior importância. Pouco é dito do indivíduo sensível e muito é julgado de sua forma como recolhe experiências. No simples gesto de designar alguém como sensível temos nas duas pontas personalidades muito distintas, uma com uma potência subjetiva original de leitura do mundo, e outra, com intenções de julgamento normativo de indivíduos. A ambiguidade da sensibilidade reside portanto na diferença entre a visão de mundo de duas individualidades livremente constituídas, porém, não coincidentes. Por essa razão o termo sofre disputa. Ser sensível é estar disposto a uma forma de mundo ainda não experienciada e original, ou, ser sensível é estar disposto a uma forma de compreensão pré-existente e tradicional?    

A história nos mostra que a instituição arte teve dois momentos de liberdade produtiva onde se dispôs quase que inteiramente à sensibilidade do artista. Isso foi no período paleolítico e neolítico2, e depois se repetiria com o discurso da autonomia da arte no período moderno e contemporâneo. Na maior parte do tempo, no período que separa essas duas fases, e ainda persiste, a arte foi um campo que sofria restrições, pois, subalterna ao comando e normas do Sacerdócio e da Nobreza, da Religião, do Poder, do discurso oficial e da Filosofia. Em termos quantitativos é correto admitir que a arte foi uma esfera normatizada, e que por isso alinha-se ao pensamento de Hegel quando nos informa que a arte, a religião e a filosofia são formas de um mesmo espírito absoluto, e que por isso congregaram as mais vultuosas manifestações culturais e a própria história, sendo o centro pulsante da vida humana. E assim é correto imputar às manifestações artísticas as exigências religiosas e filosóficas. Ser ‘sensível’ nesse caso significa aferir uma experiência à instituições maiores como a Moral, o Direito e o Estado. Não por acaso nosso hábito é o de aguardar tão somente notícias e informações sobre a arte, uma forma crescentemente intelectualizada e moralizante.   

A ambivalência persiste. Ser sensível é estar sensível a uma determinação, um limite e uma tradição, inclusive na arte. Diante de tantas tensões esquecemos que a sensibilidade é uma capacidade geral que nos faz perceber e que por isso não se identifica com as normas da arte, da religião e da filosofia. A sensibilidade, ela mesma, livre, é ainda um projeto e não uma instituição, que se pergunta: quando será o dia em que o mundo da cultura deixará de ser o espelho de uma natureza selvagem e a humanidade terá construído, enfim, seu lar?

Esse cenário modifica completamente o princípio hegeliano. De acordo com esse filósofo, e na excelente síntese feita por Arthur Danto, “arte, filosofia e religião são os três momentos do Espírito Absoluto, de modo que os três são essencialmente o resultado das transformações de um em outro, ou modulações, sob diferentes modulações, de um tema idêntico”3.

Diferente do que pensa Hegel a arte, a religião e a filosofia não tratam do mesmo tema, não dizem as mesmas coisas e não objetivam o mesmo fim. Sua esperança era que essas três disciplinas, em conjunto, dirigiriam uma vida mais sensível. Contudo, tal ideal é refutado pela história e pela dificuldade instalada na obtenção de experiências não normativas. Uma quarta forma, ensejada pela sensibilidade e possibilitada pela vida democrática, talvez, seja uma esperança mais própria ao nosso século.


Referências

1Hoje em Dia. “Prefeito Alexandre Kalil defende exposição polêmica durante visita ao Palácio das Artes.
2Arnold Hauser. História Social da Arte. São Paulo: Martins Fontes, 2003.
3Danto, A. Após o fim da arte. São Paulo: Edusp e Odysseus Editora, 2006. p.32.