Música Religiosa: um elo com o Sagrado

Música Religiosa: um elo com o Sagrado
22 de agosto de 2018 Magali do Nascimento Cunha

Música Religiosa: um elo com o Sagrado

por Magali do Nascimento Cunha

Estudos no campo da sociologia, da psicologia, da filosofia e da comunicação indicam que o lugar de destaque da música nas práticas religiosas é inquestionável. Foi na idade antiga que se construiu a crença de que apesar de o “caráter físico da música” se basear na mecânica e se explicar pela matemática, a origem dela estaria nos céus, “onde quer que reinem deuses, sejam eles um ou muitos”.  A partir daí emergiu a concepção de que “a música libera, no mundo material, uma energia fundamental, superfísica, que vem de fora, do mundo da experiência cotidiana (…) capaz de manter a civilização em consonância com os céus (…) A música desempenhava um papel de mediação entre o céu e a terra – como um ‘canal de comunicação’ entre o homem e Deus, entre Deus e o homem” (David Tame).

Muitos estudos referentes à música na cultura religiosa cristã são realizados. Eles têm em comum, além do reconhecimento do papel significativo da música no culto religioso, a constatação que a origem dos cânticos litúrgicos é muito antiga e de que não é possível precisar quando foram introduzidos na Igreja Cristã.

Na pesquisa sobre as origens, o cântico litúrgico aparece como instrumento de louvor a Deus. Ao longo da história, diversos formatos foram experimentados tais como os salmos, os hinos clássicos e os cânticos populares (como os carols, da Inglaterra), estes transformados em hinos evangelísticos no Brasil, por exemplo, cujo objetivo era a conversão pela emoção. Por meio da música litúrgica, os cristãos buscaram comunicação com Deus, comunicação de Deus para com eles, comunicação entre eles e comunicação entre eles e os incrédulos.

Essa função social da música no cristianismo foi objeto de estudos de Friedrich Hegel, que concluiu que ela “atua sobre” a sensibilidade da congregação reunida, não para liberar os espíritos para sentimentos, mas para produzir uma emoção coletiva uniforme. A música religiosa cristã visa à criação de um estado de espírito definido, para que os adeptos atuem em consonância com esse estado de espírito. Nesse caso, ela procura produzir sentimentos e não expressá-los. Aqui é possível afirmar que o “conteúdo” desse tipo de música está não apenas nela própria mas fora: é a síntese dos sons que se movem com os ouvintes/cantantes que se movem. Igual sentido pode ser encontrado na música composta para estimular a dança e as marchas militares. A natureza de cada uma delas é socialmente determinada.   

Para referendar essa noção, estudiosos relatam que, nos primórdios de sua criação, a música buscava evocar emoções coletivas, atuar como estímulo ao trabalho, ao gozo sexual e à guerra. Ela servia para colocar as pessoas em um estado diferente e não para simplesmente refletir os fenômenos do mundo exterior. Eram sons organizados para produzir efeitos sobre as pessoas, produzir emoções coletivas, “igualar emocionalmente as pessoas” por um certo período de tempo. “De todas as artes, a música é a que dispõe de maior capacidade de nublar a inteligência, de embriagar, de criar uma obediência cega e, naturalmente, de provocar ânsias de morrer” (Ernst Fischer).

Nesse sentido, a música tem influência sobre indivíduos e seus corpos, no plano físico e das emoções, e no grupo social. Acordes, ritmos, tonalidades, intensidades têm efeito direto sobre células e órgãos e indireto sobre as emoções, que, por sua vez, influem em numerosos processos corporais.  As pessoas se interessam em ouvir música, em primeiro lugar, porque ela as faz sentir alguma coisa. Este sentir está diretamente relacionado não só ao ouvir, mas também ao compor e ao executar a obra musical. A natureza de uma música está vinculada ao estado mental e emocional do compositor e/ou do executante. “A essência deste estado nos penetra, tendendo a moldar e aperfeiçoar nossa consciência em harmonia consigo mesma” (David Tame).

No plano coletivo, dos grupos sociais, ao codificar esta ou aquela visão do mundo, a música, até certo ponto, deve estar meramente reagindo à cultura dentro da qual já se encontra.  De acordo com essa corrente de pensamento, deve-se, portanto, afirmar que a música é um fenômeno de natureza social. Apesar de ela resultar da organização de sons, reconhece-se que a própria organização desses sons corresponde à organização da sociedade no período histórico relacionado.  Ernst Fischer, que estudou a música ao pesquisar a necessidade da arte, afirma isto: “A experiência de um compositor nunca é puramente musical, mas pessoal e social, isto é, condicionada pelo período histórico em que ele vive e que o afeta de muitas maneiras”.   

A produção musical conhecida como “gospel” é um fenômeno antigo nos Estados Unidos, mas relativamente recente no Brasil e pode ser observada a partir deste escopo.

A explosão gospel

A forma do termo gospel (“evangelho”, no inglês) popularizada nos Estados Unidos foi transplantada para o Brasil no início dos anos de 1990, e tornou-se sinônimo da música religiosa moderna ou da Música Cristã Contemporânea (MCC).  Ou seja, o gospel passou a ser o termo de classificação de um gênero musical que combina formas musicais seculares (em especial as populares como o rock, as baladas, o samba, o sertanejo e até axé music) com conteúdo religioso cristão.

© Justin Higuchi

© Justin Higuchi

É comum as referências ao termo virem acompanhadas da palavra movimento – o “movimento gospel”, de ênfase musical, originado no final da década de 1980 e no início da década de 1990, com raízes em movimentos de popularização musical entre os evangélicos a partir dos anos de 1950. Esses movimentos são: a criação dos “corinhos”, o “Movimento de Jesus” (trazido dos EUA, nascido da conversão de hippies no final dos anos de 1960) e a popularização musical promovida por organizações e grupos paraeclesiásticos, em especial nos anos de 1970 (com a criação dos conjuntos musicais).

A palavra movimento, justifica-se, de acordo com vários analistas e entusiastas do processo, pelas novas práticas desencadeadas a partir da profissionalização de músicos, cantores e grupos musicais evangélicos ocorrida no período, aliada ao desenvolvimento da mídia evangélica no Brasil, ambos fundamentados numa teologia que enfatiza o valor superior do louvor e da adoração no culto.

Mais do que um movimento, o gospel no Brasil configurou-se como uma forma cultural religiosa, principalmente por meio:  da ênfase à música como cultivo e enlevo espiritual com valorização da diversidade de gêneros musicais; do rompimento com a tradição de santidade protestante puritana de recusa da sociedade e das manifestações culturais por meio da abertura para a expressão corporal; da inserção do consumo de bens religiosos como processo de aproximação/apropriação do sagrado.

O poder sagrado da música e do mercado

Ao colocar em evidência os artistas e os ministérios de louvor e adoração o mercado fonográfico trabalha a música como símbolo sagrado, um bem religioso. O gênero musical gospel atinge sentimentos caros aos consumidores de música religiosa.

Em um contexto socioeconômico e cultural marcado pela exclusão social, pelo individualismo, pela competição, e em um contexto eclesial configurado por uma vasta maioria de mulheres, temas musicados como a realeza de Deus, a vitória sobre as dificuldades da vida, a escolha que Deus faz de quem é fiel, o Deus que se coloca como o ser amante e amado, que espera intimidade no relacionamento, que preenche vazios, são de forte acolhimento por parte do público. A música gospel é música de consumo, é produto industrial, de qualidade melódica e poética passível de críticas, pois visa à  satisfação das demandas do mercado fonográfico, mas também constitui um alívio das tensões do cotidiano dos fiéis.

A ampla aceitação pelo público cristão da música religiosa de consumo ainda se explica pelo fato de que a cultura gospel redesenhou as linhas divisórias entre o sagrado e o profano, entre a igreja e o mundo, estabelecidas pela tradição protestante dualista, e reafirmou a demonização da música secular e seus similares, como os espetáculos musicais, a programação musical nas rádios e na televisão. No discurso que predomina na cultura religiosa evangélica contemporânea, o verdadeiro adorador, aquele que deseja intimidade com Deus, não ouve, canta ou toca música profana.

Ao comprar o CD, ao ouvir a parada de sucessos de uma rádio cristã, ao participar do espetáculo de determinado artista gospel, o público evangélico está inserido, sim, na lógica e na cultura do consumo. Entretanto, a esse consumo é atribuído sentido emocional, religioso. Ouvir os artistas que são “instrumentos de Deus”, veículos de sua mensagem, ouvir os “ministros de louvor e adoração” que são “levitas separados por Deus” para adorá-lo e guerrear contra as forças do mal (inseridas na própria música profana) e apoiar o que eles fazem é o mesmo que ouvir e apoiar a Deus.

Além de proporcionar “acesso direto a Deus”, a indústria da música gospel coloca os evangélicos mais próximos do que há de mais moderno no campo da mídia. CDs e DVDs de qualidade, programações de rádio e TV que seguem o modelo secular, espetáculos com produção de alta tecnologia, são alguns dos aspectos que provam às igrejas e à sociedade em geral que é possível ser religioso e ser moderno, sintonizado com os recursos disponíveis no mundo contemporâneo.

O sagrado passa a ser conceituado, neste universo musical, pelo viés das teologias da Prosperidade e da Guerra Espiritual. Essas adotam uma linguagem própria da lógica e da cultura do mercado, caracterizada pelo permanente consumo de bens materiais (posse), pelos ideais da eficiência e do sucesso e pela consequente competição. O gospel revela-se assim uma expressão cultural desse capitalismo em versão religiosa. A base destas interpretações e destas ações encontra-se na premissa de que “consumir não é pecado”, mas evidência de que os evangélicos não devem ser um grupo isolado e sim inserido socialmente, para sinalizarem a atenção de Deus para com eles.

O alvo da inserção social introduz na cultura religiosa não apenas o consumo mas também outros valores da modernidade como a modelagem do corpo, a adesão à moda e o prazer do corpo via entretenimento (consumo cultural religioso). Neste contexto, os cantores e produtores musicais tornam-se referência.

O sagrado toma forma…

Se o fenômeno for analisado no geral, aspectos positivos podem ser identificados. A cultura gospel atenua ética evangélica puritana restritiva de costumes e, ao mesmo tempo, refaz a imagem pública deles, ao incentivar a sua inserção nas culturas do mercado e da mídia.

O sectarismo (o isolamento para preservação da santidade) deixa de ser um valor primordial entre os evangélicos. Vê-se como o consumo e o entretenimento são facilitados por uma postura de maior inserção social dos evangélicos, anteriormente marcados pela crise na relação igreja-sociedade, conforme foi analisado no corpo deste trabalho. Tal postura resultou em um crescimento significativo no número de adeptos das igrejas que processaram o novo modo de vida religioso. O valor à expressão corporal e a dinamização dos cultos religiosos também podem ser considerados nesse sentido.

Os evangélicos passam, portanto, por um processo de dessectarização, de liberalização de costumes e pela modernidade, ao integrarem-se a distintas esferas da vida social e à cultura urbana.

No entanto, com isso, a busca da santidade ganha contornos diferenciados e passa a gerar benefícios no “aqui e agora” (e não mais a expectativa de uma vida no além, como na tradição escapista), numa busca ainda mais individualizada, privatizada, de satisfação pessoal tanto do ponto de vista da religião como socioeconômico (reconhecimento social, lucro financeiro, acúmulo de bens, entretenimento, etc.).