Arte religiosa como mediadora do diálogo entre as religiões

Arte religiosa como mediadora do diálogo entre as religiões
15 de agosto de 2018 Alex Kiefer da Silva

Arte religiosa como mediadora do diálogo entre as religiões

por Alex Kiefer da Silva

Falar de arte na sua gênese diz muito do falar de religião. Diz-se isso pelo fato de que, no rol das grandes manifestações artísticas da humanidade, o aspecto do sagrado está presente na maioria delas. Independente da cor, sexo, classe ou posição social, todas a culturas se valeram da arte para expressar aspectos de sua relação com o sagrado, ao longo da história.

A arte religiosa, por si só, atua como poderosa mediadora do relacionamento entre o crente e a divindade que adora. César Augusto Sartorelli, no Compêndio de Ciência da Religião, pág. 558, diz que “a gênese da arte está diretamente relacionada com a gênese da cultura humana e da religião”. Isso equivale a dizer que a arte, enquanto componente ativo e importante das manifestações religiosas, está intrinsecamente relacionada à mensagem que quer passar uma determinada doutrina, e isso é uma função importante, uma vez que figura como veículo ideológico da própria doutrina.

No atual contexto pluricultural e religioso da humanidade, a arte tem desempenhado um novo papel, esboçado no seio das profundas transformações de cunho socioeconômico, cultural e político surgidas nas últimas décadas, com o advento da globalização: o de mediadora do diálogo entre as religiões. Este novo papel se desenha em função da noção de aldeia global, na qual povos e culturas estão mais próximos entre si, cambiando informações culturais, em virtude dos avanços tecnológicos, veiculadas pelos mais modernos meios midiáticos, com destaque para a Internet. Todavia, só se pode compreender esta relação da arte como mediadora do diálogo entre as religiões, compreendendo-se que o diálogo inter-religioso é, essencialmente, um diálogo intercultural.

Os relacionamentos interculturais, contudo, configuram relações de proximidade que, no aspecto do pluralismo religioso, são complexas. E é neste aspecto que a arte religiosa encontra sua aplicabilidade como mediadora de diálogo entre os diferentes credos religiosos existentes no planeta. Um exemplo disso pode ser verificado no relacionamento existente entre a religião cristã no ocidente e as religiões orientais como o budismo, o hinduísmo e o xintoísmo, no que tange ao intercâmbio de símbolos religiosos.  Atualmente, é comum se observar cristãos que possuem em suas casas estatuetas religiosas ou quadros de divindades hinduístas, principalmente de Ganesh, deus da abundância e removedor de obstáculos ou de Lakshmi, deusa da abundância e da sorte, bem como de Buda, expressão máxima da religião budista. Seja lá por motivos de superstição ou mesmo de crença, ou para garantir a manutenção de boas energias no lar, próprias da prática harmonizadora milenar do FengShui, o certo é que a arte figurada no imaginário religioso do oriente se mistura ao imaginário de santos cristãos e outras divindades. O próprio FengShui alude que a disposição correta de móveis e objetos artísticos religiosos dentro de um ambiente, orientada por sua conexão com os quatro elementos, é capaz de garantir a harmonia e a prosperidade desse.

Este caráter mediador da arte no contexto do diálogo inter-religioso pode também ser aplicado para dirimir conflitos entre as religiões. Uma prova disso é a capacidade que a arte tem de introduzir simbologias de paz, comuns à credos diferentes, como se pode verificar nas relações de proximidade entre cristãos, judeus e muçulmanos, que possuem a mesma ancestralidade abraâmica. Nas representações artísticas religiosas de ambos os povos, alguns elementos simbólicos são comuns, como por exemplo o ramo de oliveira, símbolo da paz. No santuário de Nossa Senhora do Líbano, em Harissa, que une católicos e muçulmanos de forma harmoniosa no culto à Mãe de Jesus, honrada tanto na Bíblia cristã quanto no Corão islâmico, a arte religiosa presente no edifício remete a isso.

Observa-se que a arte religiosa pode e deve ser cada vez mais utilizada para se propor a missão de diálogo entre as religiões, pois sua mensagem transcende a própria língua falada e escrita, materializando-se no apelo visual, que, por si só, é eficaz para realizar esta mediação. Neste aspecto, deve-se sempre valorizar este apelo visual e estético que só ela possui.

Inscreva-se na newsletter da Revista Senso e receba as novidades exclusivas em seu e-mail!