Arte e Religião: Ontem, Hoje… e Amanhã?

Arte e Religião: Ontem, Hoje… e Amanhã?
8 de agosto de 2018 Guto Godoy

Arte e Religião: Ontem, Hoje… e Amanhã?

por Guto Godoy

Desde o princípio da história da humanidade, Arte e sentimento religioso andaram de mãos dadas. Nos objetos sagrados, nas decorações dos espaços para as funções religiosas e na própria maneira de viver, a arte revelou-se caminho para o mais profundo do ser humano externando em cores e formas o Espírito que habitava o íntimo e animava os viventes.

Das pinturas rupestres às grandes catedrais góticas, da suntuosidade da arte egípcia à essencialidade dos traços de Matisse, dos arabescos coloridos das mesquitas à busca pela luz dos iluministas, da simplicidade da arte budista à expressividade marcante da obra de Cézzane. Em todas elas a matéria se viu em diálogo íntimo com o transcendente de cada expressão religiosa, de cada povo e cultura.

Percorrendo toda a história da arte encontramos, nos mais distintos povos marcas daquilo que se pode considerar como tal. Nas palavras do historiador A. Gombrich: “Se aceitarmos o significado de arte em função de atividades tais como a edificação de templos e casas, realização de pinturas e esculturas, ou tessitura de padrões, nenhum povo existe no mundo sem arte.” (GOMBRICH, 1999, p.19).

A compreensão da arte em função de atividades nos possibilita adentrar um outro ambiente por certo desconhecido ou rejeitado no mundo mercadológico a que estamos acostumados: a arte maneira de ser. Uma arte que não é produto de mercado, resultado dos gostos do artista ou de quem contratou seu trabalho, mas sim expressão de uma atitude para com a vida, de uma forma de se portar diante da existência, atestando a sacralidade de tudo que envolve o viver (PASTRO, 2010).

Como exemplo temos a arte do povo indígena Xikrín. Através da pintura corporal em um indivíduo de determinada etnia, os elementos pintados podem exprimir as fases da vida pela qual aquele membro está passando (luto, doença, resguardo, rituais de transição) ou situações comunitárias como guerras, rituais religiosos, festas entre outras. Em todas essas situações elas são marcadoras dos ritmos e tempos da vida (VIDAl, 1978). Não é arte feita para ser vendida ou apenas para ser bela, não é para simples deleite de quem observa ou valorização de quem as ostenta. Não é propriedade de ninguém, uma indígena que pintou o corpo de outra não assina seu nome abaixo da obra, pois para esses povos a arte não é algo descolado da vida e sim, antes de tudo, é expressão dessa mesma vida e seus tempos demarcados pelos elementos pintados e materiais utilizados na execução.

Do mesmo modo irão se portar as religiões aborígenes, o budismo, o hinduísmo entre outras. Para as religiões tribais africanas, um objeto de arte é funcional e sempre expressa os costumes de tais tribos bem como os valores étnicos, morais e religiosos por elas professados (KAIANY, [201-¿]).

Esses valores artísticos foram sempre primazia especialmente para os povos orientais que possuem em si uma outra forma de encarar a vida e também a espiritualidade, em que uma não se distância da outra. Bem distantes do naturalismo grego ou do idealismo renascentista, suas pinturas e esculturas apresentam a simplificação dos traços e, por vezes, a desproporção proposital a fim de evidenciar determinada parte da representação.

© Jörg Lohrer

© Jörg Lohrer

O cristianismo, e é sempre necessário recordarmos que só é possível comprendê-lo tendo em vista sua origem oriental, compartilha dessa mesma visão de mundo. Assim, nos primórdios do movimento cristão, a manifestação artística será profundamente influenciada pela cultura oriental. O simbolismo será a principal linguagem utilizada pelos iconógrafos e artistas cristãos. Elementos como a desproporção proposital serão utilizados largamente afim de transformar em imagens as crenças e os dogmas dos cristãos primitivos facilitando assim a conversão e a catequese. Na iconografia, por exemplo, a cabeça de Jesus Cristo, será ligeiramente maior do que seria em proporcionalidade ao corpo apresentando assim, a ideia teológica do Cristo cabeça do corpo que é a Igreja.

O conceito grego da Kalokagathia (καλοκαγαθία), belo, bom e verdadeiro, será o leitmotiv de boa parte dos fazeres artísticos da antiguidade, norteando, assim, uma diversidade de artistas-artesãos, especialmente aqueles que se dedicavam a arte em função da religiosidade. Isso se prolongará na Idade Média, quando a arte se tornará quase que exclusivamente expressão da religiosidade, com a frieza das pedras românicas e as ogivas góticas, resultados dos patrocínios dos senhores feudais, quase que em totalidade cristãos e pela própria igreja que fomentará a arte como meio pedagógico de catequese. Diante do analfabetismo da população pobre, se convertiam as narrações bíblicas em cenas pintadas ou esculpidas no teto ou nas paredes das igrejas, gerando assim a Bíblia Pauperum (Bíblia dos pobres) elemento extremamente difundido nas igrejas desses períodos.

Com o advento do antropocentrismo, sua expressão nas artes será o Renascimento, e alcançará seu auge na Alta Renascença, período dos grandes nomes como Leonardo da Vinci e Michelangelo. Marcado pela linguagem antropocêntrica, o idealismo da forma humana resultantes do estudo da anatomia do corpo humano, o renascimento será, muito mais a arte em função de temas religiosos do que propriamente uma arte a serviço do Mistério professado. A Capela Sistina, por exemplo, embora recheada de cenas bíblicas, será um templo ao corpo humano. O Cristo do juízo final terá muito mais os atributos de um Hércules da antiguidade grega, esta exerceu grande fascínio sobre os artistas renascentistas, do que a representação do Cristo juiz outrora representados nas igrejas românicas e góticas.

Dando um salto de tempo na história da arte, olhemos para o modernismo, mais especificamente para o francês Henri Matisse, exemplo extraordinário da relação arte-religião dentro do espírito desse movimento artístico.

Henri Matisse, mestre do Fauvismo, em 1951 concebeu a Chapelle du Rosaire em Vence, França a pedido das religiosas dominicanas. Sem dúvidas é uma concepção de espaço religioso que, para o cristianismo daquele período, antes da renovação trazida pelo Concílio Vaticano II, era, no mínimo, audacioso. A Virgem com o seio a mostra, a limpidez e sobriedade do espaço, num período onde luxo e pompa eram necessidades na igreja católica fazem dessa pequena capela, um espaço revolucionariamente tranquilo. Matisse atingiu aquilo que desejava, “que aqueles que viessem a entrar se sentissem purificados e aliviados dos seus fardos” (GERBAUD, 2008).

Chegamos, então, ao período contemporâneo. Este, embora seja regado de quebras de paradigmas, de desmontes das estruturas estabelecidas e de subversão às doutrinas, não deixou de lado certa expressão de religiosidade, especialmente daquela subjetiva e, até mesmo individualista.

Fugindo dos cânones estabelecidos pela religião oficial, muitos artistas se refugiaram na religiosidade popular. Os ex-votos, as festas religiosas tradicionais, as devoções e tantos outros aspectos desse modo tão brasileiro de viver a crença professada, são capturados pelos mais diversos artistas e transformados em desenhos, pinturas, fotos e performances que assumem galerias e museus atestando, de certa forma, o lugar cativo que o sentimento religioso possui no jeito de ser do povo do Brasil.

No decorrer da história, com suas vicissitudes, quedas e elevações, a arte, de certa forma, sempre expressou a busca infindável do ser humano pelo transcendente. Mesmo longe das instituições, artistas nunca deixaram de transformar em linhas e cores aquilo que, de certa forma, dá sentido a vida e as relações. Seja no confessional ou na laicidade, a religiosidade sempre foi tema caro e gerou obras que atestam uma profunda relação com o sagrado. Na crítica à religião estabelecida, artistas buscam a libertação dessa mesma relação.

Tristemente vemos em nosso país o avanço de movimentos e movimentações que procuram exercer um papel coercitivo sobre a arte. Uma censura falso-moralista escondida sob a roupagem do discurso religioso que busca amordaçar sob suas visões individuais o fazer artístico livre conquistado a duras penas em nosso país. Não obstante, os e as artistas prosseguem pensando e fazendo a arte com liberdade e resistência, não se calando frente a atitudes que beiram o fascismo e dando provas que o sagrado e o sentimento religioso, nada tem a ver com atitudes intolerantes que muitas vezes os cooptam como propriedades suas.

Sem dúvidas esses mesmos artistas seguem dando prova que a interação entre arte e religiosidade, desde a antiguidade ligadas, até os nossos dias continuará ainda por um longo tempo.


Referências

GERBAUD, Dominique. Henri Matisse. Capela do Rosario. Trad. Rui Martins, 2008. Disponível em: www.snpcultura.org
GOMBRICH, Ernest H. A História da Arte. Rio de Janeiro: LTC, 1999.
PASTRO, Claudio. A arte no cristianismo. Fundamentos, linguagem, espaço. São Paulo: Paulus, 2010.
VIDAL, Lux Boelitz. A pintura corporal entre os índios brasileiros. Revista de Antropologia, São Paulo, v.21, n.1, p.87-94, jun. 1978. Disponível em: www.revistas.usp.br.
KAIANY, Kota. Arte africana e suas tradições In Candomblé raiz africana. São Paulo. Disponível em: www.candombleraizafricana.blogspot.com