“Cultivar a humanidade”, uma reflexão sobre o papel do Ensino Religioso frente a desigualdade racial

“Cultivar a humanidade”, uma reflexão sobre o papel do Ensino Religioso frente a desigualdade racial
25 de julho de 2018 Julia Fiorentin e Junior Bufon Centenaro

 “Cultivar a humanidade”, uma reflexão sobre o papel do Ensino Religioso frente a desigualdade racial

Por Julia Fiorentin e Junior Bufon Centenaro

“Eu tenho um sonho. O sonho de ver meus filhos julgados por sua personalidade, e não pela cor de sua pele.” Estas palavras foram ditas por Martin Luther King, um dos mais importantes líderes do movimento pelos direitos civis dos negros no mundo. Quase 60 anos se passaram desde seu famoso discurso para um público superior a 250 mil pessoas, e a desigualdade racial continua gritante, alimentando relações de ódio, intolerância e desrespeito. Lamentavelmente, preconceitos, estereótipos e superficialidades, impedem a construção de uma sociedade humanizada, democrática, de amor e paz. Está em jogo o cuidado pela dignidade da pessoa humana, por aquilo que podemos chamar de cultivo da humanidade.

Foi com esta inquietação que surgiu a ideia de construir o presente ensaio, a partir, das reflexões acerca do problema da violência racial, realizadas nas aulas de Ensino Religioso do Colégio Franciscano Cristo Rei, em Marau, no Rio Grande do Sul. A temática da Campanha da Fraternidade 2018, superação da violência e, o projeto desenvolvido na disciplina de Ensino Religioso, retratos da violência, foram fundamentais para gestar nossa reflexão sobre o problema da desigualdade racial, que é uma violência contra o ideal de humanidade.

© Janine Moraes

© Janine Moraes

Nosso ideal de cultivo da humanidade está assentado em Martha Nussbaum, filósofa norte americana que tem discutido o papel da educação na tarefa da construção da justiça social. Segundo a autora, a educação precisa formar “um cidadão cuja responsabilidade primeira está para com os seres humanos do mundo todo” . Nussbaum resgata dos estoicos a necessidade dos humanos reconhecerem-se como pertencentes a comunidade racional, a mesma espécie, pois “devemos educar as pessoas para que possam realizar-se como cidadãos do mundo com sensibilidade e capacidade de compreensão . Somam-se a isso os inúmeros esforços, como os de Barbujani e Diwan, em buscar desconstruir noções que visam constituir uma raça pura, ou classificar os humanos em diferentes raças. Estes autores contribuem fortemente para a desconstrução do mito das raças, que continua legitimando gritantes desigualdades entre negros e brancos, por exemplo. Por conseguinte, estas reflexões nos esclarecem que existe apenas a Raça Humana, dispensando as hierarquias raciais. Há apenas uma raça humana e nossa espécie – o Homo sapiens – não é um mosaico de grupos biologicamente distintos. Nossas diferenciações, como a cor da pele e dos olhos, o formato da cabeça ou nosso local de origem não configuram diferenças raciais; elas têm um significado mais ideológico do que científico.

Quem diria que, em pleno século XXI, estaríamos discutindo acerca de uma desigualdade que já devia ter sido combatida há tempos, mas que, infelizmente, ainda está presente em nosso meio? Recentemente, por ocasião da comemoração dos 130 anos da abolição da escravidão no Brasil, os meios de comunicação produziram várias matérias a partir de dados do quarto trimestre de 2017, com relação a desigualdade de renda no país.  Uma das reportagens [1] mostrou que os negros em média, ganham R$ 1,2 mil a menos que os brancos.  Além disso, os negros têm índices de educação mais baixos e condições de vida mais precárias. “Apenas 8,8% da população negra com mais de 25 anos frequentou uma faculdade, enquanto entre os brancos, esse índice é de 22,2%. Fatores históricos ligados ao passado escravocrata e à falta de políticas públicas estão por trás dessas desigualdades. Portanto, a desigualdade e violência racial no Brasil são estruturais, estão perpassando as instituições da sociedade indelevelmente. Diante disso, temos um compromisso ético de romper com isso.

Já se completou 130 anos da abolição da escravidão pela assinatura da Lei Áurea, e, mesmo assim, para uma grande parcela da população brasileira, a cor da pele faz mais jus que diplomas. Muitos negros com diplomas em mãos, relatam que não foram aceitos em determinados empregos por serem negros. O que justifica alguns  se sentirem superiores a outros? Qual o fundamento da maldade instalada no coração de indivíduos que não aceitam igualdade, mas sim segregação? Enfim, a cor da pele é apenas a cor da pele, ela não diz nada sobre a sua personalidade, a sua ética, os seus objetivos, as suas crenças, o seu jeito de ser e os seus princípios.

O preconceito, não só em relação a cor da pele, mas em toda a sua extensão é construído por inúmeras formas de violência, a qual está, majoritariamente, velada. Olhares, atitudes, sinais, palavras e agressões. Ao tornar o outro inferior, ridicularizando-o, contribui-se para a construção de uma sociedade desarmoniosa, desrespeitosa e principalmente, sem paz.

Como disse o líder pacifista Mahatma Gandhi, “não existe caminho para a paz. A paz é o caminho.” Com estas palavras, precisamos viver a paz em nossa vida, combatendo esses preconceitos dia após dia, e nos colocando no lugar do outro antes de ter qualquer atitude que possa prejudicar a existência e a felicidade do próximo. Afinal, se vivermos só para e por nós mesmos, não viveremos. Apenas existiremos e nossa vida não terá sentido algum. Logo, precisamos aprender a viver em comunidade, como humanidade.

Mas então, como acabar com essa discriminação em relação à cor? Como fazer com que a paz reine em um mundo carente de empatia e repleto de ódio? Apostamos na educação! Em nosso modo de ver, é ela que gera mentes abertas e críticas, prepara o ser humano para o real exercício da cidadania e transforma os sujeitos. Dessa maneira, a partir dela, poderemos, realmente, ensinar às pessoas que a igualdade e a justiça deve prevalecer entre todos os seres humanos, o respeito, ser destinado para a sociedade em si, sem exceções, e a empatia, vir escrita no manual da paz mundial, para que o mundo seja um ambiente harmônico, e, assim, todos os indivíduos sintam-se felizes em viver nele, fazendo com que a bondade prevaleça e a violência seja banida de nossas relações.

Acreditamos que o ensino religioso, enquanto componente curricular da educação básica, pautado por uma perspectiva de estudo do fenômeno religioso e aberto a um diálogo inter-religioso, torna-se uma ferramenta importante para promover reflexões e atitudes voltadas para dignidade humana. São muitos os líderes religiosos do passado e do presente, que nos mostram o caminho para uma humanidade livre de racismos e exclusões. Buda, Jesus, Madre Teresa, Martin Luther King, Mandela, Gandhi, e, muitos outros, são “pedras no sapato” de uma sociedade que persiste em reproduzir desigualdades. O ensino religioso, deve, assim como o processo formativo de modo geral, nos conduzir ao reconhecimento do outro como sujeito de dignidade e direitos, de liberdade e responsabilidade. A educação possui um papel importante. Mandela já afirmava: “Ninguém nasce odiando outra pessoa pela cor de sua pele, por sua origem ou ainda por sua religião. Para odiar, as pessoas precisam aprender, e se podem aprender a odiar, elas podem ser ensinadas a amar”.

Por fim, afirmamos que o respeito é como uma orquestra. Esta é composta por músicos, instrumentos musicais, e sinfonia, ou seja, a melodia que chega aos ouvidos dos espectadores. Assim, cada músico simboliza a educação, seus instrumentos, o respeito, e a sinfonia, a parte mais importante, uma vez que é o elo entre diversas pessoas, simboliza a paz, fazendo com que todos nos sintamos verdadeiramente felizes em nossa vida. Como enriquece a nossa alma e nos enche de risos dentro de nosso peito estar ao lado de pessoas que só querem o nosso bem, que nos transmitem paz, que nos deixam ser nós mesmos e agirmos de acordo com nossa personalidade e, acima de tudo, nos respeitam. Afinal, como disse Nelson Mandela, “a educação é a arma mais poderosa que você pode usar para transformar o mundo.”


Referências

[1] Disponível em: Negros ganham R$ 1,2 mil a menos que brancos em média no Brasil; trabalhadores relatam dificuldades e ‘racismo velado’

BARBUJANI, Guido. A invenção das raças. São Paulo: Contexto, 2009.
DIWAN, Pietra: Raça Pura. Uma história da eugenia no Brasil e no mundo. São Paulo: Contexto, 2007
NUSSBAUM, Martha C. El cultivo de la humanidad. Trad. Juana Pailaya. Barcelona: Ediciones Paidós Ibérica, 2005.