Educar para o diálogo: as perspectivas éticas do Ensino Religioso

Educar para o diálogo: as perspectivas éticas do Ensino Religioso
5 de julho de 2018 Thiago Teixeira

Educar para o diálogo: as perspectivas éticas do Ensino Religioso

por Thiago Teixeira

© Alexis Brown

© Alexis Brown

Comumente somos levados a pensar que nós sabemos dialogar. Aquele engano se aporta em nossa crença de que, ao expor uma ideia para outrem, nós já dialogamos. Nesse panorama, nós não nos propomos um exercício de identificar se realmente os diálogos existem, ou se, ao contrário, a nossa fala é uma reprodução sistemática de narrativas profundamente ensimesmadas. Diante dessa fragilidade que nos assola é possível pensar a importância do diálogo como fundamentação ética para o ensino religioso?

É preciso que nós coloquemos as coisas no lugar e, assim, operemos numa espécie de dissecação dos termos e dos sentidos. Ao pensarmos a educação, somos atravessados por uma compreensão da dualidade — educador e aluno — que opera de modo orgânico e não objetal. Nesse sentido, o aluno aparece como uma narrativa, uma realidade vivida e, mais, nos faz compreender constantemente a dinâmica da diferença. A sua realidade que, ao ser dispa, faz emergir uma instabilidade que não deveria nos assustar. Essa instabilidade é orientada por algo que nos causa incômodo, mas é demasiadamente positivo: a escuta.

Entendemos que a escuta se torna, para nós, um caminho importante para o processo de ressignificação da realidade e, nesse caso, da descoberta de um fenômeno outro. Tal ressignificação se distancia de um discurso mesmo e se pretende, num movimento ético, compreender o fenômeno religioso que nos escapa. Sua existência se torna possível e chega até a nós quando não reproduzimos o que chamamos de poder de afonia.

Ao instrumentalizar a nossa fala e nossa compreensão de mundo a partir de lugares mesmos, nós reforçamos uma oposição bastante violenta: nós somos sujeitos e o outro não o é. Nesse sentido, a fala emerge como um poder que deseja o outro sem voz. Notemos que não se trata do silêncio, pois o silêncio pode ser a quebrado a qualquer momento. O poder de afonia se instaura em nossa compreensão de mundo como um desejo do sujeito de se manter como a única voz atuante na construção de sentido. Como se a sua percepção de crença, de mundo e de valores fosse a única narrativa possível.

Está claro o porquê daquele processo ser contrário aos princípios que julgamos educacionais: ele constrói muros ao invés de caminhos. Compreendemos que os movimentos para educar estão alinhados à construção de um novo modelo de humanidade. Esse novo modelo pressupõe o exercício de compreender a diferença, como manifestação clara daquilo que é humano.

Não queremos dizer aqui, ser necessário, para o diálogo, que percamos o nosso referencial, a nossa fé e os nossos sentidos. Queremos, ao contrário, apontar que a nossa percepção não é a única possível.

Assumir o diálogo é considerar que a possibilidade está também no lugar do outro. Negar o outro é, ao mesmo tempo, impedir que as nossas percepções de mundo se ampliem. Vetar o diálogo é enfraquecer o trânsito de sentidos.

Educar para o diálogo não é perder. Ao contrário, é construir um mundo no qual a tolerância, em seu sentido mais concreto e urgente, se torne o nosso lugar de pensar o fenômeno religioso e compreender a diversidade e a dignidade que acompanha cada sujeito que crê.