Educação e Espiritualidade nos caminhos do Bem-viver

Educação e Espiritualidade nos caminhos do Bem-viver
26 de junho de 2018 Marcelo Barros

Bem Viver

Educação e Espiritualidade nos caminhos do Bem-viver

Por Marcelo Barros

© Shane Albuquerque

Vivemos em uma transição de época civilizacional. Alguns pensam mesmo que uma mudança de era geológica (antropoceno, ou seja, uma transformação da terra provocada pelo ser humano). A crise vem do fato de que, como dizia Gramsci: a antiga realidade está morrendo e a nova ainda não nasceu. Nesse contexto de crises e transformações, seria estranho que a Educação e mesmo a Espiritualidade não sentissem os abalos das mudanças e as inseguranças de um tempo tão complexo.

A Carta da Terra, documento elaborado a pedido da UNESCO, no início dos anos 2000, para nortear um futuro novo da humanidade em comunhão com a terra, a natureza e as culturas ancestrais, afirma claramente: “As bases da segurança global estão ameaçadas. Essas tendências são perigosas, mas não inevitáveis. A escolha é nossa: ou formar uma aliança global para cuidar da Terra e uns dos outros, ou arriscar a nossa destruição e a da diversidade da vida”1.

Conforme essa visão, a crise atual em que estamos pode resultar em uma tragédia, mas pode também servir de ocasião para mudanças profundas. Poderá ser caminho para uma vida nova. Essa possibilidade da crise resultar em algo novo depende se a parte mais sadia da humanidade, a sociedade civil internacional e os movimentos sociais organizados conseguirem romper com dogmas que o poder econômico e políticonos impõem através dos meios de comunicação, da escola e infelizmente muitas vezes também das religiões e mesmo das Igrejas cristãs. Muitos valores que a tradição nos ensinou como religiosos e até santos hoje descobrimos como discriminatórios, injustos e mesmo cruéis. E a opressão mais profunda não se dá pelas armas e pela coerção da violência física, mas pela dominação das consciências e por uma educação que não nos conduz à liberdade interior e à libertação cultural, social, econômica e política.

A educação como caminho

Paulo Freire afirmava que só a educação não mudará o mundo, mas é certo que o mundo não mudará sem que se cuide prioritariamente da educação. No mundo inteiro, Paulo Freire é considerado patrono da educação libertadora. Só a educação nos libertará da barbárie, sobre a qual, na época do Nazismo, já nos advertia Theodor Adorno. Hoje a barbárie toma novas formas e podemos ver isso todos os dias. A cada dia, nas periferias de nossas cidades, adolescentes e jovens negros são assassinados impunemente. Pessoas são agredidas por causa de sua orientação sexual. Marielle é morta pelo seu trabalho em prol das mulheres negras e da população das periferias do Rio. Muitos desses senhores e senhoras que, no Congresso e nas ruas, louvam a Lava-jato e tem ódio das esquerdas se formaram em nossos colégios religiosos. O que aconteceu? Como podemos, hoje, aprofundar uma educação baseada em valores que assegurem uma cura para a Terra, para a comunidade da vida que habita o planeta e uma salvação para a humanidade?

Em uma conferência que, em 1995, Dom Hélder Câmara deu a professores e alunos da Universidade Federal de Pernambuco, Dom Helder Câmara afirmava: “Para o equilíbrio do mundo, é importante que a Universidade readquira o seu papel de salvaguarda de valores que vêm correndo o risco de serem jogados fora, quando do necessário despejo de tabus intoleráveis. (…) É urgente que a Universidade cresça em sabedoria para contrabalançar os extremos a que está levando a Técnica… Tenho a confiança de pedir-vos a criação de uma cátedra dos Transcendentes, isso é, as riquezas espirituais, que ainda mais iluminarão a caminhada dos jovens…”2 Com suas palavras, Dom Hélder se referia a sedes que todo ser humano tem e entre essas, ele destacava “três sedes sagradas”:

1° – a sede de colocar sentido mais profundo ao que vivemos cotidianamente, 2° – dar um sentido transcendental à luta da vida; 3° – a sede de viver em cada relacionamento humano a experiência da nossa vocação para o amor solidário e mais aberto e universal.

O paradigma cultural e espiritual do Bem-viver

Muitas culturas indígenas latino-americanas têm revalorizado da suas tradições ancestrais a proposta do Bem-viver. Nos Andes, os quétchua falam do Sumak-qwasaycomo um viver bem, (vida de qualidade). Os Aymara falam em Sumak-Kamana (o bom viver). A nuance é de que o bom significa o nível ético do que é correto, justo. Os Guarani falam em nhandereku e teko-porã (viver a vida prá valer e de forma comunitária – o bem-viver é o bem-conviver). Há expressões equivalentes entre os Maya na América Central, em índios da Amazônia e em outros grupos indígenas. As novas constituições aprovadas pelo povo e publicadas no Equador e na Bolívia apontam o Bem-viver como objetivos do Estado. A civilização não se mede pelo PIB (Produto Interno Bruto) nem mesmo pelo IDH (Índice de Desenvolvimento Humano), mas pelo Bem-viver que o povo conseguiu alcançar. Parece o que no reino do Butão o governo denominou de “Índice de Felicidade Humana”.

O  bem viver implica o saber bem conviver, a comunhão com a natureza, o cuidado com a saúde, alimentação como caminhos de humanização. Ora, como todos sabemos, isso só se dará se priorizarmos a educação.  Para se tornar real, o Bem-viver é um processo no qual a educação tem um papel prioritário. A educação em um sentido novo e tenhamos a coragem de afirmar: revolucionário. E essa educação se faz, como propunha Paulo Freire: através do diálogo e em interação com o mundo. “Toda educação deve ser um dialogo entre as pessoas (homens e mulheres) que, mediatizados pelo mundo o ‘pronunciam’, isso é, o transformam e, transformando-o, o humanizam para a humanização de todos”3. É aí que entra o papel próprio de uma espiritualidade humana e ecumênica.

Como viver isso em uma sociedade na qual quando os jovens escolhem a vocação que vão seguir, um dos elementos que sempre pressiona é o mercado de trabalhos e a chance de fazer uma boa carreira. É preciso arriscar e optar pelo Bem-viver para mudar essa realidade.

As religiões populares latino-americanas, profundamente influenciadas pelo Cristianismo ibérico medieval, ainda se baseiam muito na dor, no sentimento de culpa e na penitência. O Bem-viver as provoca em um chamado para a alegria e a bênção do amor e da vida.  Esse amor assume a eroticidade como algo positivo e humano, mas a plenifica com um amor de cuidado e generosidade gratuita que, no plano interpessoal, chamamos simplesmente de ternura e no plano social de solidariedade. Ken Wilber, filósofo norte-americano, chama isso de “visão integral” ou de um processo existencial que nos faz passar de um estádio egóico a um estado etnocêntrico e finalmente a uma visão e postura de tipo cosmocêntrico”4.

O Bem-viver,

processo mistagógico
(ou seja de iniciação) 

A proposta do Bem-viver retoma a educação como iniciação em uma Espiritualidade humana, cósmica e ecumênica. Humana no sentido de ancorada em valores humanos universais. Cósmica porque em comunhão com o cosmos e ecumênica no sentido intercultural e que aproveite as principais experiências e intuições dos diversos caminhos e tradições espirituais da humanidade.

Os índios do Xingu dizem que o Espírito das águas repousa na floresta e o Espírito da floresta se refaz nas águas do rio. Comunidades afrodescendentes falam de Axé como a energia divina, presente em manifestações muito diversas como fonte de amor e alegria. Nenhum grupo pode viver sem integração com os outros. Esta conexão tem uma dimensão antropologicamente espiritual. É uma dimensão na qual cada cultura não se pensa de forma autossuficiente, mas como interligada às outras. A religião pode servir como método para nos tornar mais humanos. É essa base que permite pensar em uma nova educação para esses contextos sociais em que vivemos.

Esse processo humano  tem de ser central no esforço educativo de uma educação que quer ir além dos ensinamentos técnicos para atingir uma formação integral. Já em 1965, portanto há mais de 50 anos, Paulo Freire escrevia: “O ser humano é um ser de relações e não só de contatos. Não apenas está no mundo, mas com o mundo. Estar com o mundo resulta de sua abertura à realidade, que o faz ser o ente de relações que é. (…) No jogo constante de suas respostas, no próprio ato de responder, a pessoa vai mudando a si mesma. Organiza-se. Escolhe  a melhor resposta. (…) Nas relações que o ser humano estabelece com o mundo há, por isso mesmo, uma pluralidade na própria singularidade. (…). E também há uma nota presente de criticidade. Ademais, é o ser humano e somente ele é capaz de transcender. A sua transcendência, acrescente-se, não é um dado apenas de sua qualidade “espiritual” (…). A sua transcendência está também para nós, na raiz de sua finitude. Na consciência que tem dessa finitude. Do ser inacabado que é e cuja plenitude se acha na ligação com seu Criador (ou para os que não creem em Deus, na relação íntima e misteriosa com o mistério mais profundo que dá sentido à sua vida)”5.   

Para concluir sem concluir

Na América Latina atual e especificamente no Brasil, nessa hora em que vivemos, o mais imediato e urgente é defender a democracia. Mais do que isso, é preciso democratizar a Democracia. Não basta superar o golpe e restituir a Lula os seus direitos de cidadão que foram roubados. É seu direito candidatar-se. No entanto, precisamos pensar no Bem-viver como uma proposta nova e não como retomar as conquistas de antes que tiveram o seu valor, foram muito melhores do que o que temos agora, mas não podem nos bastar. Somos chamados ao novo e ao mais… O Bem-viver. Nossos processos educativos, principalmente em um Estado laico, têm como tarefa prioritária superar as formações confessionais que acabam sendo sempre sectárias e formar cidadãos para uma democracia real, verdadeiramente democrática no sentido mais profundo. A cidadania não se reduz apenas ao exercício de eleições livres. Afirma Liszt Vieira: “é sobretudo uma forma de existência social. Democracia é uma sociedade aberta que permite sempre a criação de novos direitos. Os movimentos sociais, nas suas lutas, transformaram os direitos declarados formalmente em direitos reais. As lutas pela liberdade e igualdade ampliaram os direitos civis e políticos da cidadania, criaram direitos sociais, os direitos das chamadas “minorias”, mulheres, crianças, idosos, minorias étnicas e sexuais – e pelas lutas ecológicas, o direito ao meio ambiente sadio”6.

Aí vem o segundo desafio da educação transformadora e da espiritualidade do Bem-viver:  cuidar da Casa Comum, como disse o papa Francisco. Essa tarefa da Ecologia Integral é urgente e exige toda a nossa criatividade. Na América Latina, ela se concretiza nos passos que tomamos para implementar o bem viver. Isso implica em:

1 – Priorizar a vida e os direitos cósmicos (nem apenas os direitos do indivíduo, nem só os da coletividade).

2 – As decisões devem se dar buscando a construção do consenso

3 – É fundamental valorizarmos a complementaridade nas diferenças.

4 – A sabedoria do bem viver nos ensina a saber comer, beber, dançar e Trabalhar

5 – a raiz de tudo isso é uma espiritualidade cósmica centrada na amorosidade e na solidariedade universal.

Em um recente encontro com jovens, alguém me perguntou o que eu poderia propor para que vivêssemos concretamente, desde agora, o bem-viver nas relações entre nós e com a natureza. Tomando uma expressão de um teólogo norte-americano amigo (o Mathew Fox), respondi: – Apaixone-se pelo menos três vezes por dia. Assuma-se como uma pessoa apaixonada e viva profundamente essa paixão. E essa paixão pelas pessoas, pela vida será em você o Bem-viver, ou seja, o Espírito do Amor divino na sua vida e na vida de todos. Axé.


Referências

1 Cf. CARTA DA TERRA, citada por BOFF, L., Responder Florindo, Rio de Janeiro, Garamond, 2004, p. 13.
2 Cf. DOM HELDER CÂMARA, Palavras e Reflexões, Recife, Editora da UFPE, 1995, p. 58.
3 Cf. FREIRE, P., Extensão ou Comunicação, Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1970, p. 43.
4 Cf.KEN WILBER, The integral vision, em português: A visão integral, (Uma introdução à revolucionária abordagem integral da Vida, de Deus, do universo e de tudo mais), São Paulo, Ed. Cultrix, 2007, pp.33 ss..
5 Cf. PAULO FREIRE, Educação como Prática da Liberdade, Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1967, p. 39- 40.
6 VIEIRA, L., Cidadania e Globalização, (2ª ed.), Rio de Janeiro, Record, 2009, p 39- 40.