Religião e Educação: intercessões contemporâneas

Religião e Educação: intercessões contemporâneas
21 de junho de 2018 Thiago Teixeira

Religião e Educação: intercessões contemporâneas

Entrevista com Analise da Silva

Por Thiago Teixeira

Nesta edição, a Senso entrevistou Analise da Silva, Pedagoga e Historiadora. Mestre e Doutora em Educação pela UFMG. Pós-Doutorado na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Trabalhou com Educação Básica em redes pública e particular por 29 anos. Diretora de Escola eleita. Presidente Eleita do Conselho Municipal de Educação de Belo Horizonte. Foi Representante dos Fóruns de EJA do Brasil na Comissão Nacional de Alfabetização e Educação de Jovens e Adultos (CNAEJA) do MEC/SECADI no biênio 2012/2013. Atualmente é: Coordenadora da Linha de Pesquisa em Educação de Jovens e Adultos no Programa de Pós-Graduação MESTRADO PROFISSIONAL – EDUCAÇÃO E DOCÊNCIA – PROMESTRE da FAE/UFMG; Professora Associada do Departamento de Métodos e Técnicas de Ensino (DMTE) da FAE-UFMG; Coordenadora do Núcleo de Educação de Jovens e Adultos – NEJA/FAE/UFMG; Membro Titular do Fórum Nacional de Educação (FNE) como Representante dos Fóruns de EJA do Brasil de 2014 a 2017; Membro Titular do Fórum Nacional Popular de Educação (FNPE) como Representante dos Fóruns de EJA do Brasil de 2017 a 2019  e Pesquisadora cadastrada no CNPq. [email protected] Tem experiência na área de Educação, com ênfase em Educação de Jovens e Adultos, atuando neste campo, nas temáticas de Didática, Juventude, Política Pública, Educação Anti-Racismo, Formação Docente, Diferentes Diferenças e EJA como Ação Afirmativa.

Prezada Analise,

Inicialmente agradeço a sua disponibilidade. É um prazer tê-la conosco, nesse ambiente tão rico para o debate: a Revista Senso. Nosso objetivo está em compreender os cenários contemporâneos, sobretudo, através do fenômeno religioso. Acredito que sua contribuição será de grande importância para este número que, com profundidade, visa compreender a relação entre Religião e Educação.

A seguir, você confere a íntegra da entrevista:

Senso: É possível dizer que a relação entre a Religião e a Educação se arrasta ao longo dos tempos. Essa confluência ocorre, entre outros fatores, na medida em que ambas se preocuparam e ainda se ocupam da formação dos indivíduos, inseridos numa sociedade. Como você avalia esse encontro?

Analise: A satisfação de ter sido convidada para esta conversa é toda minha por poder dizer da relevância desta temática para a construção de uma sociedade justa, democrática e humanizada. Neste momento de retrocesso e recrudescimento das forças conservadoras em nosso país, precisamos explicitar os debates.

É imprescindível que o encontro da Religião com a Educação esteja voltado exclusivamente para promover uma cultura de paz, amor, solidariedade, perdão, enfim de reconhecimento e não de guerra, ódio, desrespeito e injustiça conforme tem se acentuado ultimamente. No contexto da formação dos sujeitos, tanto a educação familiar quanto a educação escolar são fundamentais para que as pessoas recebam dos educadores os cuidados necessários para o pleno desenvolvimento de sua cidadania. O que ocorre é que em muitas famílias e instituições escolares, os preceitos religiosos convertidos em normas, regras e prescrições são transmitidos como verdades absolutas onde todos aqueles que não praticam as verdades ensinadas, são, vistos como o outro, o diferente, a ameaça.  Muitas vezes, esses sujeitos considerados adversos, não são aceitos por não pertencerem à tradição religiosa hegemônica que, no caso do Brasil, é a Judaico-Cristã. Essa compreensão do outro como diferente pode alimentar pensamentos, argumentos, e atitudes individuais e coletivas que, por sua vez, se convertem em estimuladores das desigualdades e promovem a “intolerância” religiosa.   

Aprendi com as observações e os comentários de minha família que tolerância é algo que se pratica quando não se tem alternativa. Avalio que esta palavra não é a que melhor expressa o que se procura para superar situações de racismo, de homofobia, de preconceito e discriminação vivenciados cotidianamente. Farei uso da palavra, nesta entrevista, para facilitar a compreensão dos leitores em geral que acessarem esta entrevista. Entretanto, tolerância não constrói relações positivas de convivência, uma vez que remete a suportar.

Ao ocupar-se de promover conhecimentos capazes de incentivar e aprofundar a convivência entre os diferentes, a escola, como instituição socializadora que precisa ser, lança mão de seus conteúdos programáticos e contribui para que a adesão religiosa deixe de ser vista como motivo para ver o diferente como ameaça.

Senso: É sabido que no Art. 5, inc. VI da Constituição Federal de 88 todo cidadão brasileiro tem seu direito à liberdade de Culto assegurado. É possível dizer que o cenário atual se alinha àquela premissa? É possível falar de liberdade de culto no processo de formação de nossas crianças, jovens e adultos?

Analise: Ter o direito à liberdade de culto assegurado significa dizer que todas as pessoas de todas as religiões deveriam ser livres para cultuar e se expressar em consonância com sua religiosidade e que aquelas que não querem fazê-lo tem este direito garantido. Contudo, o que percebemos diante ao cenário atual é que os adeptos de religiões de matriz cristã, segundo o último senso realizado em 2010 pelo IBGE, representados por 86,8% do total da população brasileira declarante usufruem com mais tranquilidade dessa liberdade. Ou seja, as minorias religiosas quando se expressam publicamente e cultuam suas divindades, costumam ser reprimidas e rejeitadas por seus pertencimentos religiosos. A rejeição imposta aos adeptos das religiões não cristãs impede o pleno gozo da liberdade religiosa outorgada a esses sujeitos. Quanto ao processo de formação das crianças, adolescentes, jovens e adultos, acredito que seja possível falar de liberdade de culto quando se dialoga com os educandos sobre o direito que todos possuem de expressarem suas identidades religiosas. No processo de formação durante a escolarização do sujeito uma determinada matriz religiosa não pode se impor às demais, deve se introduzir um  caráter democrático na escola,  por meio do qual,  todo movimento autoritário precisa ser questionado e barrado.

Senso: É possível considerar que o fenômeno da intolerância religiosa — como uma violência estrutural — está associado ao modo com que se discute o fenômeno religioso no nosso processo educacional? Para você, quais são as bases da intolerância religiosa e, mais, como a educação entraria nesse jogo?

Analise: Se considerarmos que as discussões realizadas sobre os fenômenos religiosos no âmbito educacional priorizem apenas um determinado seguimento religioso, pode-se dizer que o fenômeno da intolerância religiosa esteja associado ao modo em que se discute este tema nas escolas. Para superar atitudes de intolerância, é imprescindível que os educadores abordem o assunto na perspectiva da valorização das experiências socioculturais dos sujeitos.  A intolerância religiosa representa um tema antigo e pode ser considerado um dos problemas mais delicados da sociedade, uma vez que, envolve ideologias e práticas ofensivas em que o desrespeito às crenças e às religiões dos outros são contestadas com violência, provocando guerras, mortes e anulação da liberdade e da dignidade humana.  A perseguição dos sujeitos por causa de suas crenças religiosas tem suas bases na crença em um monoteísmo que se propõe como identificado como verdade única e suprema, pois isso passa por fazer das demais crenças, crenças falsas em divindades inexistentes. Na antiguidade, os primeiros cristãos foram perseguidos pelos judeus e pagãos.  Entretanto, no ano de 380 d.C. quando o Cristianismo foi considerado a religião Estatal do Império Romano, o imperador impôs a união religiosa e, como consequência dessa união, todo aquele que não se convertesse ao Cristianismo Católico era visto como herege e pagão, sendo violentamente perseguido pela Igreja. Um dos maiores exemplos de intolerância religiosa ocorridos no passado foi o Nazismo que torturou e matou aproximadamente dois milhões de judeus. No Brasil, as dimensões da prática da intolerância religiosa se voltam em maior proporção para as religiões de matrizes africanas, pois, estas, foram estigmatizadas ao longo do tempo. A depreciação exercida sobre seus adeptos criou no imaginário popular a ideia de que tais religiões e seus seguidores, não são dignos de serem respeitados. Aliadas ao racismo, aos estereótipos e a falsos julgamentos, as religiões afro-brasileiras carregam em si marcas de rejeição. Neste sentido, a educação escolar pode contribuir na desconstrução dos estereótipos impostos a estas religiões e aos seus seguidores.

Senso: Infelizmente, ao longo da história a religião e tudo que dela vem XXXXX se alinham ao que as pessoas pensam ser menos dialogal e moralista. Nesse âmbito, pensamos a responsabilidade do ensino religioso fomentar a tolerância e o encontro nas diferenças. Em sua compreensão, o ensino religioso desempenha um papel importante? Qual é a sua força?

Analise: O ensino religioso pode desempenhar um papel importante, desde que proporcione o respeito às diversidades de crenças, à não adesão a nenhuma crença e não seja proselitista. A Lei 9.394/96, que estabelece as diretrizes e bases da Educação Nacional, em seu artigo 33, prevê que “o ensino religioso, de matrícula facultativa, é parte integrante da formação básica do cidadão e constitui disciplina dos horários normais das escolas públicas de ensino fundamental, assegurado o respeito à diversidade cultural religiosa do Brasil, vedadas quaisquer formas de proselitismo”. Entretanto, algumas indagações devem ser feitas: será que na prática, a questão do respeito à diversidade cultural e religiosa são consideradas nas escolas públicas pelos educadores que ministram aulas de Ensino Religioso? Como se pode garantir que os educadores não imporão seu credo aos educandos?  Será que os educadores estão preparados para discorrer sobre os aspectos culturais e religiosos de outras matrizes que não a sua? Uma vez que estas indagações servem para todas as outras disciplinas, a força do ensino religioso na escola vai depender de como ele é tratado pela gestão, coordenação e pelos docentes, sobretudo por quem ele será ministrado, podendo este ter potencial positivo ou negativo. Os temas trabalhados devem perpassar pelo currículo e estar presentes nas condutas inclusivas da comunidade escolar e não somente de docentes e discentes. As crianças, adolescentes, jovens, adultos e idosos que estão na escola precisam ser motivados a refletirem sobre atitudes de reconhecimento e inclusão efetiva.   

Senso: É notório que o ensino da cultura negra, inclusive sobre os fundamentos das religiões de matrizes africanas, ainda sofre resistência. A lei 10.639, promulgada em 2003 parece não integrar organicamente o dia-a-dia das salas de aula. Pensamos que o racismo velado ou não, age de forma violenta nessa estrutura. Como é possível integrar outros discursos religiosos na formação de nossas crianças, jovens e adultos? Além disso, essa integração é, por si, um combate ao Racismo?

Analise: Para superar atitudes de intolerância e minimizar o racismo na escola é preciso valorizar a herança africana nas instituições escolares, pois, essa valorização está diretamente relacionada ao reconhecimento da diversidade religiosa dos sujeitos que a frequentam. Quando os educandos candomblecistas e umbandistas, por exemplo, não são reconhecidos por seus pertencimentos religiosos na escola, estes se veem forçados a negar sua identidade religiosa. Essa negação além de desvalorizar a herança africana, desqualifica o sagrado e anula a crença dos estudantes e de seus familiares, o que denota grandes lacunas pedagógicas no processo de formação dos sujeitos. Por isso, a escola deve representar um espaço educativo por meio do qual circulam conhecimentos, saberes e memórias. Assim como no terreiro de Candomblé, onde as identidades são afirmadas e os laços de pertencimento e de parentesco são construídos, a escola precisa oferecer a esses sujeitos um ambiente acolhedor, no qual possam se expressar e ganhar visibilidade, além de expandir essa postura para seu cotidiano.  O espaço da escola e o espaço do terreiro se configuram em sintonia diferente no que se refere aos assuntos relacionados com as religiões de matrizes africanas, justamente pelo fato de que a escola, de forma geral, funciona sob a perspectiva exclusivamente cristã e que em seus espaços os sujeitos que possuem pertencimentos diferentes são, na maioria das vezes, invisibilizados.

Senso: Evidentemente a tecnologia entrou em nossa vida cotidiana e, por conseguinte, atravessou os muros das escolas. De que modo, é possível integrar as novas tecnologias ao debate sobre a tolerância religiosa?

Analise: As novas tecnologias podem contribuir bastante com o combate à intolerância religiosa. Como estratégia, os educadores podem utilizar dos recursos tecnológicos para despertar a curiosidade dos educandos sobre aspectos relacionados às diversidades religiosas, proporcionando assim novas descobertas sobre os temas referendados em sala de aula. As religiões de matrizes africanas, por exemplo, representam uma rica expressão religiosa, estética e lúdica. É um campo religioso que mantém fortes relações com aspectos da cultura brasileira, principalmente, quanto aos aspectos da musicalidade, das danças, dos adereços e das festas populares. O educador ao apresentar o desconhecido aos educandos tem a oportunidade de contextualizar os temas trabalhados, desconstruir paradigmas e desfazer estereótipos.

Senso: De forma explícita, vivemos numa crise moral no Brasil. Nós sabemos que a responsabilidade de formar a identidade moral dos indivíduos era fortemente requisitada pela Instituição Religiosa. Vemos, no entanto, setores religiosos acoplados a esquemas de corrupção. É possível que o ensino religioso se afaste desse moralismo nefasto e assuma outro lugar de construção social?

Analise: Acredito que seja possível desde que o ensino religioso professado nas famílias, nas Igrejas e nas escolas tenha como princípio a solidariedade entendida como reconhecimento que produz uma atitude por meio da qual eu acolho e incluo a perspectiva do outro que deixa de ser a ameaça e passa a ser mais um no coletivo que é a humanidade. Para se afastar do moralismo nefasto e assumir um lugar de construção social, o ensino religioso precisa ser pensado em consonância com a Declaração Universal dos Direitos Humanos e considerar “que o desprezo e o desrespeito pelos direitos humanos resultaram em atos bárbaros que ultrajaram a consciência da Humanidade e que o advento de um mundo em que os todos gozem de liberdade de palavra, de crença e da liberdade de viverem a salvo do temor e da necessidade foi proclamado como a mais alta aspiração do ser humano comum”. Precisamos cuidar para que todas as conquistas obtidas até aqui, mesmo que tímidas, não sejam sufocadas pela hipocrisia social que é irmã gêmea do moralismo cínico que se coloca a favor da vida e, por isso, contra o aborto e deseja a morte da mulher que abortou, e espanca o assaltante negro amarrando-o ao poste, e ateia fogo no morador de rua que dorme na calçada, e usa a vaga da pessoa com deficiência, e sugere que a mulher estuprada mereceu, e finge dormir no banco reservado ao idoso no ônibus, e, principalmente, se aproveita da fé do outro para lucrar. Enfim, precisamos cuidar para que o que se ensine seja em prol da humanização da humanidade e não de sua bestialização.

Senso: As existências são muitas. Basta que olhemos ao nosso redor e iremos perceber que a realidade humana é dita por uma multiplicidade fantástica. Você considera ser responsabilidade do ensino religioso também a compreensão plural da realidade que nos circunda?

Analise: Como trabalhar o ensino religioso na escola desconsiderando a multiplicidade dos sujeitos que dela fazem parte? Acredito que os sujeitos devem ser reconhecidos e valorizados em suas diversidades sejam elas religiosas, culturais, de gênero, raciais ou econômicas. As diferenças devem ser reconhecidas. Deve-se ultrapassar a ideia de que todos são iguais, pois, quando o sentido de igualdade é legitimado na escola, há uma tendência de se padronizar tudo e todos, buscando igualar as condutas dos sujeitos, as formas de trabalho, os horários, a disposição física das salas de aula, as formas de intervenções pedagógicas, as falas dos educadores e até mesmo as maneiras de discutir e dialogar com os educandos. Neste sentido, quando aparentemente tudo na escola parece priorizar a igualdade, não se fala em desigualdade, pois, parece ser contraditório apontar desigualdades quando “tudo” é igual para todos. Entretanto, há de se considerar que a partir desse entendimento de igualdade, os diferentes, aqueles que fogem às características da maioria, acabam por ter que se integrarem às normas, às disciplinas, aos conteúdos, às práticas, às religiosidades e às culturas dominantes no território escolar, mesmo quando numericamente não é minoria. E, espera-se que a escola oportunize a eles a reação a esta situação, uma vez que tem o direito de ser diferentes quando essa igualdade os descaracteriza. Daí a necessidade de que todas as disciplinas trabalhadas na escola reconheçam as diferenças e não produzam, alimentem ou reproduzam as desigualdades.  

Senso: O STF, em setembro do ano passado —  por 6 votos a 5 — , julgou procedente que o Ensino Religioso seja confessional na escola. Esse movimento pode ser questionado sob a luz da liberdade religiosa? Como você pensa a articulação dessa realidade confessional no intramundo das salas de aula?

Analise: O Ensino Religioso confessional, a meu ver, contribuirá para legitimar o caráter hegemônico da matriz religiosa judaico-cristã, ferir a laicidade do Estado, acentuar a desigualdade e multiplicar a discriminação religiosa. Os adeptos de religiões de outras matrizes que não essa serão caçados como foram, em outros momentos da História, as bruxas, os escravizados fugitivos, as pessoas com deficiência, e como continuam sendo, as pessoas LGBTs; e quebrados os terreiros de Candomblé e as tendas de Umbanda, enfim, o diferente. O reconhecimento à pluralidade religiosa que tanto almejamos no “intramundo das salas de aula” se tornará quase que impossível de se estabelecer e passará a contar com posicionamentos pessoais de profissionais comprometidos com a democracia, em lugar de ser política de Estado.   O caráter confessional atribuído ao Ensino Religioso nas escolas certamente será impositivo e exclusivo e representará apenas as religiões católicas e evangélicas anulando a pluralidade cultural e religiosa dos educandos não cristãos e daqueles que não forem religiosos. São crianças, adolescentes e jovens no Ensino Fundamental que, terão que se apartar dos colegas, pois não desejam participar de um momento de aula que, acontecendo em escola pública, paga com a verba pública, ministrada por agente público, estará ensinando a tornar público algo que é da esfera privada: a adesão religiosa.

Agradeço as contribuições de SÉRGIO TEIXEIRA DA SILVA e de THIAGO LUIZ FERREIRA MIRANDA na construção destas respostas.