Ensino Religioso: O problema?

Ensino Religioso: O problema?
13 de junho de 2018 Priscila Kikuchi e Tatiane de Almeida

Ensino Religioso: O problema?

Por Priscila Kikuchi Campanaro e Tatiane Aparecida de Almeida

© Annie Spratt

A partir dessa inquietante e tão explorada questão, lançarei luz sobre meu entendimento sobre qual espaço ocupa o ensino religioso na escola.

Falo especificamente, como docente de ensino religioso lotada na escola pública. Ao iniciar minha carreira sempre me deparei com algumas falas na sala dos professores por parte de colegas de outras áreas, do tipo: professora de reza, professora de religião…

Enfim, sentia que era sempre esperado que eu fosse doutrinar meus estudantes. Logo eu, que nem sequer professava uma religião. O que me causava espanto é que se os professores tinham essa percepção, quiçá à dos estudantes! E era justamente esse o primeiro paradigma a ser quebrado: deixar bem claro o que eu estava a fazer ali.

Sobre isso, vale à pena refletir sobre o espaço que essa disciplina ocupa hoje na escola, especificamente a pública, que é o lugar de onde falo.

De imediato, vale ressaltar que a religião é um dos temas de abordagem do ensino religioso. E que tal abordagem visa estudar a religião como fato antropológico e social que permeia a vida dos cidadãos enquanto fragmento de cultura. Nessa perspectiva, o ideal é promover o entendimento da liberdade religiosa e do Estado Brasileiro declarado laico, pois assim, o fenômeno religioso poderá ser visto a partir de diversas nuances. Não podendo ser reduzida somente a percepção daqueles (as) que falam a partir de uma vivência religiosa. Salientando que a religião pode ser discutida de forma sadia e demonstrando ao estudante a sua relação com as demais esferas que permeiam a vida social.

A área – ensino religioso – também é responsável pelo entendimento teórico e prático das expressões de valores éticos e morais bem como o que diz respeito aos direitos humanos, mas a prática também deve ser explorada e vivenciada em todas as demais disciplinas do currículo escolar. Digo isso, por que muitas vezes me senti como se fosse à professora responsável pela disciplina dos estudantes na escola de forma geral.

Assim, como todas as áreas de conhecimento demandam profissionais com conhecimentos específicos, assim também o é com o ensino religioso, que têm sua formação pautada nas Ciências da religião. Mas, infelizmente, ao retornar a atividade docente nesse ano, me deparei com professores de outras áreas a lecionando. Especificamente, na escola em que estava lotada, fui informada, no final de 2017, que o ensino religioso seria extinto. Fui para outra escola da mesma rede de ensino, em que a disciplina permaneceria no currículo. No entanto, este ano, fui informada por colegas da ex-escola que a matéria ainda constava no boletim e no currículo escolar pelo nome de Ensino religioso, e que seria ofertada por professores de outras disciplinas que não tinham sua carga horária completa (15h /aula) usando do subtítulo Ética e Cidadania. Não bastasse isso, a rede vem oferecendo, desde 2017, encontros de formação para as áreas de conhecimento do currículo escolar. E até a presente data, nenhuma foi ofertada para a área de ensino religioso, uma vez que não há professor formador para tal função e nem previsão para que ele seja contratado.

Diante disso, penso que o primeiro passo é oferecer dignidade intelectual e profissional para os professores de ensino religioso. São vários anos estudando para verem seu conteúdo ser ministrado por colegas de outras áreas a título de complementação de carga horária. Por vezes, me questiono o papel que exerço. Seria eu desnecessária? Talvez não fosse melhor parar de dar murro em ponto de faca e mudar de foco meus conhecimentos e partir para outros projetos?

De acordo com o caderno Currículo em debate, da secretária de educação de Goiás emitido em 2007,

“o objetivo do E.R (…) deve contribuir para os educandos superarem certas alienações e superficialidades, denunciar situações desumanas, superar inquietações, encontrar o sentido radical da própria existência.”

Penso que isso não se restringe a disciplina, mas, sobretudo se estende aos profissionais que se ocupam do estudo da disciplina. Essa alienação que coabita as escolas e os pensamentos dos mais diversos atores que ali habitam precisa ser urgentemente superada. É fato que o ensino religioso precisa ser revisto, assim como foi em 2017, pelo Supremo Tribunal Federal, por todas as redes de ensino (sem exceção). O currículo precisa ser discutido com os profissionais da área, bem como, a metodologia de ensino. Precisamos resgatar a importância da disciplina assim como a autoestima do profissional. Caso contrário, é melhor tirá-lo das escolas, uma vez que ninguém merece trabalhar em situações medíocres. Principalmente se esse alguém for professor.

Por Tatiane Aparecida de Almeida


Provocações e Inquietações para o Ensino Religioso: Mais alguns problemas!

A minha primeira experiência com o ensino religioso foi na quinta série do ensino fundamental. A “disciplina” era ministrada por uma mulher evangélica, não sei dizer se ela era professora, ou não. Essas aulas se resumiam a histórias bíblicas, somente isso, tal experiência fez com que eu, já adulta, criasse uma aversão ao ensino religioso.

Por mais que eu entenda que a religião tem um importante papel na sociedade, e influencie significativamente a vida cotidiana de algumas pessoas, por muito tempo, não vi o ensino religioso com bons olhos.

Pessoalmente, acreditava que, as questões sociopolíticas, filosóficas e históricas nas quais, tanto às religiões se envolvem, quanto as religiões são envolvidas, poderiam ser trabalhadas nas disciplinas específicas de cada assunto elencado, porque até então, ao meu ver, a religião é (somente) um fato social, e por isso deve ser abordado como tal dentro da geografia, da história, da filosofia e da sociologia, entre outras disciplinas que o tema se encaixe.

Minhas ressalvas se davam somente no contexto das escolas confessionais, pois, era óbvio que o ensino religioso faz sentido, porque se parte do pressuposto de que os pais/mães/responsáveis escolheram uma escola com esse perfil com o intuito de que seu/sua filho/filha tivessem aulas do tipo. Porém, recentemente, precisei rever meus posicionamentos… Participei de um debate sobre Ensino Religioso, que aconteceu em um evento sobre Ciência da Religião aplicada na PUC-SP. Ali, tive contato com alguns professores de ensino religioso e pessoas graduadas em Ciência da Religião. Essa experiência de escuta me ajudou a compreender que o ensino religioso, não precisa e nem é necessariamente confessional, isso porque graças à existência das licenciaturas em Ciência da Religião, a disciplina vem sendo pensada a partir dessa epistemologia, sendo assim ela pode ser abordada numa perspectiva laica e plural.

Outro fator que acho importante, e que é preciso ser reconhecido, é que o/a professor/a de ensino religioso deve ser um/a cientista da religião licenciado/a para o exercício da profissão, isto é, deve possuir essa graduação, e não professores de outras áreas, que apenas “simpatizam” com o tema da religião, ou que possuem somente a pós-graduação na área. Para mim, essa exigência é coerente e de suma importância, com ela o ensino religioso passa a ser visto como uma disciplina tão importante quanto as outras, por ter uma  epistemologia, e um método de ensino próprio.

Além disso, vale destacar que o fato da disciplina sobre ensino religioso, em alguns casos ser ministrada por professores de outras áreas “a fins”, no intuito de completar/aumentar, faz com que os/as profissionais formados/as especificamente na Licenciatura em Ciência da Religião, percam um importante espaço de atuação como cientistas da religião.

Diante desses fatores, meus posicionamentos sobre o Ensino Religioso mudaram significativamente, especialmente no que tange o reconhecimento dos/as profissionais da área, e a necessidade de rever os currículos sobre essa disciplina. Porém, mais algumas inquietações me vieram à mente em relação ao ensino religioso, especialmente em relação às questões de gênero.  Minhas inquietações giram em torno da seguinte questão: Como é que fica a questão de gênero no ensino religioso?  Há abertura para essa temática?

A importância desse questionamento se dá pelos seguintes fatos:

1) Atualmente as religiões são espaços cada vez mais feminizados, há uma a presença significativa de mulheres nas instituições religiosas, e que são frequentadoras assíduas, e em alguns casos lideranças religiosas no Brasil e no mundo (El País / As mulheres são maioria entre os evangélicos, que são 22% da população; Canal Curta / O Feminino nas Religiões);

2) As religiões possuem discursos éticos e morais que afetam significativamente a vida das mulheres, em alguns casos, esses podem promover empoderamento e ajuda, em outros limitam seus corpos ao matrimônio e a reprodução, naturalizando sistemas de desigualdades e sacralizando a submissão. (HuffPost News / Quem são as mulheres que querem unir religião e feminismo)

3) Em diversas partes do país, temos visto crescer a presença da comunidade LGBTTQ nas discussões sobre religião, e dentro dos contextos religiosos, por meio das igrejas inclusivas (Revista Fórum / Igrejas inclusivas atraem público LGBT e quebram tabus), e das  performances de cunho religioso em manifestações específicas dessas comunidades. (G1 / Veja a transexual ‘crucificada’ e outras polêmicas com símbolos cristãos)

Vale ressaltar ainda que, se as questões de gênero provocam as religiões e a(s) Ciências da Religião, elas também devem provocar o ensino religioso!

Minha inquietação tem como proposta lançar luzes, e porque não, trevas também! A relação entre ensino religioso e gênero precisa existir dado o contexto em que vivemos. Os professores de ensino religioso precisar estar preparados para encarar temáticas controversas, mas que precisam ser articuladas, principalmente se partirmos do fato de que, o ensino religioso é uma disciplina ministrada para adolescentes do ensino médio, e fundamental em alguns casos. Pois o ensino religioso pode contribuir com as discussões que promovam o rompimento com a cultura de intolerâncias com gays, lésbicas, bissexuais, intersexuais, transexuais, travestis, etc.

Por Priscila Kikuchi Campanaro