Bem-viver para irmanar o universo

Bem-viver para irmanar o universo
16 de abril de 2018 Marcelo Barros

Bem Viver

Bem-viver para irmanar o universo

Por Marcelo Barros

© Patrick Tomasso

Religião e violência são dois termos que parecem se opor. Em princípio, a religião seria a sistematização de um aprendizado de amor, enquanto, ao contrário, a violência representaria a exacerbação da força (em latim: vis), apor meio da qual o ser humano se impõe ao seu semelhante e à natureza. A meta da religião é educar para aquilo que os antigos cristãos chamavam “divinização“. Os budistas a chamam de “iluminação” ou “estado búdico“. É quando o ser humano atinge a paz, a capacidade plena de compaixão no sentido de solidariedade com todo ser vivo. Por isso, nada é mais estranho do que descobrir: na história da humanidade, as religiões que deveriam sempre ser caminhos de amor e compaixão têm sido responsáveis por muitas violências, guerras e mortes.

A ética distingue como duas energias diversas e até contrárias: de um lado, existe a violência. Do outro, o uso de uma força legítima para se defender. Um animal que mata o outro para comer pode ser considerado selvagem ou feroz, mas não em si violento. A violência é própria dos humanos e supõe intencionalidade e certa gratuidade na ação contra si mesmo, seu semelhante ou a natureza. Mesmo quem não está de acordo com a proposta de uma ação libertadora revolucionária, por meio da força e do uso de armas, deve diferenciar: uma coisa é a violência dos poderosos que usam o sistema dominante para se impor; outra é o uso da força por parte dos pequenos e oprimidos para se defenderem e se libertarem. Nessa acepção, toda violência é sempre lamentável, mas muito mais quando se trata da violência religiosa, cometida em nome de Deus e de princípios de fé.

Alguns autores atribuem a violência ligada à religião ao dogmatismo e à intolerância praticadas principalmente pelas religiões monoteístas. O raciocínio seria: “Se há um só Deus é o meu. E o deus dos outros é ídolo e não existem, nem têm direito de existir2. Sem dúvida, no campo das religiões, o monopólio da violência não cabe apenas às monoteístas. Basta saber que o Myamar (antiga Birmânia) é um Estado militar no qual o Budismo é a religião oficial e esse governo tem sido acusado de discriminar e perseguir minorias étnicas e religiosas.

De todo modo, entre as religiões que, durante a História, mais se têm destacado pela violência, o Cristianismo pode receber o troféu. Aqui no Brasil, temos assistido o crescer trágico de uma cultura da violência, tanto nas relações sociais e políticas, quanto também no campo religioso. “Segundo relatório da Pew Foundation, o Brasil deixou de ser um dos países mais populosos com menor taxa de Hostilidade Social por motivações religiosas, em 2007, para se tornar um dos países com uma das mais altas taxas em conflitos religiosos em 2014. Em cinco anos, as denúncias de discriminação por motivo religioso no Brasil cresceram 4960%. Foram de 15, em 2011, para 759, em 2016, de acordo com os dados do Disque 100, da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República (SDH). Somente no Estado do Rio de Janeiro, de acordo com os dados do Centro de Promoção da Liberdade Religiosa e Direitos Humanos (Ceplir), das 52 denúncias de intolerância religiosa ao Ceplir – de dezembro de 2016 a agosto de 2017-, 34 foram de pessoas do Candomblé, Umbanda e outras denominações de religiões de matriz africana3.

O mais triste é saber que esses atos de perseguição religiosa são cometidos por crentes que se dizem cristãos e são praticados em nome de Jesus. A própria conferência dos bispos católicos (CNBB) decidiu dedicar a Campanha da Fraternidade de 2018 à superação da violência. No texto-base da CF 2018, denuncia “os atos de violência e discriminação sofridos diariamente por comunidades de tradição afrodescendente4.

Evidentemente, estamos falando de violência física contra pessoas e comunidades. No entanto, muitas vezes, as religiões são responsáveis por violências psicológicas e morais intoleráveis e igualmente mortíferas. A discriminação praticada contra minorias sexuais ou por causa de comportamentos morais considerados fora da lei contém uma violência que fere o amor e desumaniza as pessoas que a praticam.

Por isso, é importante lembrar que, na América Latina, alguns povos indígenas têm proposto, como novo paradigma civilizatório para toda humanidade, o Bem-viver.  Vamos tentar aprofundar em que consiste e como o caminho do Bem-viver pode nos ajudar a superar a violência na sociedade e nas religiões.

O Bem-viver, herança indígena

Embora só nos anos mais recentes (a partir do início desse século), se venha falando do Bem-viver, esse conceito está presente nas culturas e na sabedoria ancestral de diversos povos indígenas do continente. Com acentos característicos de cada povo e mesmo com significados que se vão completando, várias culturas desenvolvem esse conceito. Na Bolívia e no Peru, os Kétchua chamam de “Sumak Kwasay” o bem-viver, no sentido de viver de modo harmonioso. No Equador, essa mesma palavra recebe do povo kitchua a tradução de bom-viver no sentido de um viver justo e equilibrado. Os Aymara falam em Sumak Qamana, que significa “o conviver bem“, ou seja, viver em comunidade. O pensador aymara David Choquehuanca, ex-chanceler da Bolívia, explica: “Sumak Qamana significa, especialmente, viver em harmonia entre as pessoas e como parte da natureza5. Vemos aí que o Bem-viver já aparece como um antídoto à cultura da violência. Os povos Guarani consideram fundamental o teko porã, isso é, o modo justo de viver como convivência compartilhada na sobriedade6. Esse mesmo conceito aparece em termos como teko kavi, (vida boa), ñandereko, (vida harmoniosa) e ivi Maraei, (terra sem males).

Não se sabe bem onde começou essa iniciativa de resgatar o bem-viver secular dos índios e pensá-lo a partir dos novos caminhos sociais e políticos de alguns países latino-americanos. Certamente, a experiência social e política da comunidade (indígena) Sarayaku da província de Pastaza no Equador foi importante. Ali, no começo dos anos 2000, diante dos ataques das mineradoras e da destruição da natureza ao seu redor, a comunidade se reuniu e elaborou um Plano de Vida. Erauma espécie de projeto de convivência cultural e de ação social baseada não no competir, mas em colaborar. A comunidade decidiu descentralizar o poder político e organizar uma economia baseada na reciprocidade e na solidariedade aos mais frágeis. Proclamou os direitos dos Bens comuns que nunca podem ser propriedade individual de ninguém. Essa experiência contaminou outras comunidades. A partir daí, diversas etnias foram se reconhecendo e dizendo: Isso era o que os nossos antigos pais e mães nos ensinavam. Era a mística do bem-viver.

O que está por trás desse conceito tão amplo e diversificado, que cobrem nuances próprias de cada cultura não é apenas um pacto social ou uma estratégia de sobrevivência e sim um caminho de espiritualidade. O fato de que esses povos originais sempre reconheceram uma presença divina na Terra, na natureza e na própria convivência humana faz com que desenvolvam a fé como caminho de amorosidade comunitária. Por isso, o bem-viver pode ser encontrado como valor cultural e religioso em vários outros povos indígenas, de Norte a Sul do continente. Assim, há conceitos equivalentes nas comunidades Maya no sul do México e Guatemala, nos povos indígenas do nordeste brasileiro e entre os Yanomami da Amazônia. Embora esse conceito seja tradicional, nos últimos anos, ele foi explicitado como “caminho social e político” e se tornou importante motor de organização social e cultural, até o ponto de ter sido proposto como objetivo do Estado e caminho de organização social, nas novas Constituições da Bolívia e do Equador7.

O Bem-viver, oportunidade para imaginar outros mundos

Uma das formas de violência, hoje, mais terríveis e que atinge muitas pessoas e até grupos é o ataque desferido contra as utopias. Quando o sistema capitalista apregoa que não há outro caminho do que o da desumanidade praticada contra os pobres, investe contra a esperança da fé. Assalta a própria capacidade das pessoas sonharem. Os partidos políticos podem lutar contra o sistema. As organizações sociais batalham por direitos humanos. No entanto, é preciso mais: é preciso garantir o direito de sonhar e de nos irmanar nesse sonho. Esse é o antídoto mais profundo contra a violência que podemos trilhar. Nesse itinerário, o bem-viver pode ser uma bandeira muito importante. Quando descobrimos o bem-viver como modo de viver e de conviver, não aceitamos mais que máquinas nos transformem em meras ferramentas de produção. Não deixamos que o dinheiro nos mercantilize como se fôssemos objetos de compra e venda. Também no plano da cultura e da fé, não podemos permitir que o atual modelo de desenvolvimento continue ocidentalizando o mundo inteiro e os nossos corações. Essa é a base de uma compreensão não violenta das relações baseadas no Bem-viver.

Na sociedade Yanomami de Roraima, David Kopenawa cresceu como jovem índio que queria o melhor para si e sua família. Nos anos 80, conseguiu emprego na FUNAI e chegou a morar um tempo na cidade (Manaus). Queria ajudar o seu povo. Quanto mais passou a conhecer a cultura dominante, mais se convenceu de que não poderia servir a seu povo, a partir da inserção na sociedade que o marginaliza e o ignora. Voltou à sua aldeia e decidiu se iniciar no Xamanismo como mística para a resistência. Sua experiência com missionários de Igrejas pentecostais lhe deu uma impressão muito negativa:

Quando eu era criança, os missionários quiseram a todo custo me fazer conhecer Teosi. Não esqueço essa época da missão Toototobi. Às vezes me lembro de tudo. Então digo a mim mesmo que Teosi talvez exista, como aqueles brancos tanto insistiam. Não sei. Mas, em todo caso, tenho certeza há muito tempo de não querer mais ouvir suas palavras. Os missionários já nos enganaram o suficiente! Cansei de ouvi-los dizer: ´Sesusi vai chegar! Vai descer até vocês! Chegará em breve!` Mas o tempo passou e ainda não vi nada! Fiquei farto de escutar essas mentiras. Os xamãs por acaso ficam repetindo essas coisas à toa, sem parar? Não! Eles bebem o pó de yakoana e logo fazem descer a imagem de seus espíritos. E só. Por isso, quando me tornei adulto, decidi fazer dançar os xapiri como os antigos faziam no tempo da minha infância. Desde então, só escuto a voz deles. Talvez Teosi se vingue de mim e me faça morrer por isso. Pouco importa. Não sou branco. Ele não é nem um pouco amigo dos habitantes da floresta. Ele não cura nossas crianças. Tampouco defende nossa terra contra garimpeiros e fazendeiros. Não é ele que nos faz felizes. Suas palavras só conhecem ameaça e medo8.

Aí fica claro que o Cristianismo representou para ele e para a sua cultura uma forte violência que até hoje assusta e é contrária à própria revelação do Deus bíblico. Para o índio, Teosi (a pronúncia que ele consegue compreender de Deus) não defende a terra, nem protege as crianças. A volta de Sesusi (o modo como ouvem falar de Jesus) não se revela verdadeira porque nada faz contra o ataque dos garimpeiros e fazendeiros. Quem faz isso são os Xapiris com os quais o Xamã dança:

As palavras dos espíritos xapiri são muito antigas. Mas voltam a ser novas sempre que eles vêm de novo dançar para um jovem xamã, e assim tem sido há muito tempo, sem fim (…). As palavras de Omama e as dos xapiri são as que prefiro. Essas são minhas de verdade. Nunca irei rejeitá-las”9.

A tradição xamânica é expressão religiosa daquilo que se pode chamar de forma mais ampla de “cultura do bem-viver”, como paradigma que une harmoniosamente as pessoas, a mãe Terra e toda a natureza.

O Bem-viver, caminho ético da não violência

No quadro atual da violência no mundo, o fator religioso está presente e atuante em grande parte dos atuais conflitos sociais e políticos. Por isso, é cada vez mais necessária e urgente uma compreensão positiva do Pluralismo Cultural e Religioso que existe no mundo e é fundamental que se desenvolva um diálogo intercultural e inter-religioso que englobe um verdadeiro diálogo e convivência entre as várias experiências espirituais da humanidade, religiosas ou não. É urgente que o ser humano retome um diálogo harmonioso com o seu semelhante, um diálogo respeitoso com as outras espécies com as quais forma a comunidade da Vida no planeta Terra e mesmo um diálogo de comunhão com todo o universo que muitas tradições consideram como criação divina. Como, em uma conversa, afirmava o teólogo Faustino Teixeira: “Há que ampliar a nossa compreensão de “nós”, numa teia muito mais ampla, capaz de reconhecer e abraçar a dignidade de tudo o que circula no mundo da criação. Reconhecer sobretudo que toda a esfera do vivente vem marcada por um valor intrínseco. Nada de excepcionalismos humanos10.

É exatamente esse alargamento da consciência que a busca do Bem-viver está trazendo como contribuição não apenas à caminhada dos povos indígenas, mas ao processo de construção de novos paradigmas sociais e políticos que estamos construindo na América Latina. Ele assume sem um sincretismo artificial, mas como uma síntese nova e criativa as diversas espiritualidades em curso na sociedade e as potencializa para conferir a cada ser humano, às comunidades e organizações sociais uma “fidelidade de fundo” e um “horizonte de sentido“. É isso que nos possibilita romper com o círculo vicioso e a espiral da violência que se insinua mesmo dentro de nós e que aqui e ali explode na cotidianidade da vida.

É claro que esse caminho do Bem-viver é uma inspiração que tem fundamentos comuns e claros, mas toma expressões muito diversas e criativas que, inclusive, não estão ainda totalmente formuladas na caminhada social. Para quem crê na presença do Espírito na história, o Bem-viver é uma expressão do seu amor cheio de ternura e testemunha que, como diz a Bíblia, Deus é amigo da vida (Sb 11,26).

Como essas linhas procuraram mostrar, o Bem-viver é um caminho que pode ser medicina contra a violência espalhada na sociedade. No entanto, ele só pode ser isso se, de fato, for expressão de um amor cada vez mais efetivo e profundo a cada ser humano e à humanidade como um todo. Como afirmava Che Guevara: “O revolucionário verdadeiro é guiado pelo amor. (…) Sejam capazes de sentir, no mais fundo do coração, qualquer injustiça realizada contra alguém e, qualquer parte do mundo, como tendo sido feita a vocês mesmos. Essa é a qualidade mais linda de uma pessoa revolucionária11.


Referências

1 LELOUP, JEAN-YVES, Amar… apesar de tudo, Petrópolis, Vozes, 017, p. 7.
2 Sobre isso, ver: HARARI, YUVAL NOAH, Homo Sapiens, Uma breve história da humanidade, São Paulo, Ed. LPM, 2007, Capítulo “Deus é um só” no e-book 47%.
3 Cf. www.exame.abril.com.br – 21 setembro de 2017.
4 CNBB, Campanha da Fraternidade 2018, Fraternidade e Superação da Violência, Texto-base, Brasília, Ed. CNBB, 2017, número 138, p. 44.
5Cf. CHOQUEHUANCA, DAVID, Suma Qamana: Viver bem e não melhor, in Agenda Latino-americana Mundial, 2012, p. 92.
6Cf. MELIÀ, BARTOMEU, O Bem-viver Guarani: Teko Porã, in Agenda Latino-americana Mundial, 2012, p. 116- 117.
7VER CONSTITUIÇÃO DA BOLÍVIA, Capítulo 2, Princípios, Valores e Fins do Estado: Artigo 8.1; Artigo 9 1- 6. CONSTITUIÇÃO DO EQUADOR, Preâmbulo e também artigos 14, 32, 74, 83/1 , 97 e outros.
8KOPENAWA, DAVI e ALBERT BRUCE, A queda do céu, Palavras de um Xamã Yanomami, São Paulo, Ed. Companhia das Letras, 2015, p. 275.
9idem, p. 75.
10Ver texto não publicado de uma oficina de trabalho no 2o Congresso Continental de Teologia da Ameríndia, Belo Horizonte, outubro de 2015.
11citada pela  Agenda Latino-americana Mundial 2012, p. 30.