Candomblé quando existir é resistir

Candomblé quando existir é resistir
13 de abril de 2018 Thiago Teixeira

Candomblé quando existir é resistir

Por Thiago Teixeira

© Agência Brasília

Existência e resistência são conceitos que, a longo prazo, tomam as bases de nossas discussões. Chamaremos de existir o processo pelo qual nos tornamos nós mesmos, isto é, o ato constante de elaborar nossa vida por meio de nossas escolhas. Ao resgatarmos a formulação existencialista, somos o que realizamos de nós, no mundo.

Estar no mundo não é um ato solitário. Ao contrário, nós estamos, a todo instante, diante “de”. No afã de existir, nós tomamos a consciência de que não estamos sozinhos no mundo. Além disso, somos acometidos por uma estrutura — cultural, valorativa, religiosa e econômica, por exemplo — que é, de algum modo, anterior a nós. Estamos de acordo que o ato de existir incorpora um movimento constante de fazer a si mesmo, em relação.

Essa relação não é amena. Sartre, em sua peça Entre quatro paredes, anuncia que o “inferno são os outros”. Essa formulação é bastante controversa, mas nos leva ao nosso objetivo final. Pensar a dinâmica do outro como um inferno está exatamente no fato de que ele existe e, mais, que ele não sou eu. Há um incômodo na dinâmica da alteridade. Reconhecer o outro como diferente pode ser um desafio.

Ora, nesse projeto — chamado existência —, é possível que nós assumamos dois caminhos: a) podemos empreender uma tentativa violenta de hegemonia e higienização dos corpos, crenças e afetos, b) ou erigir um lugar onde as diferenças se articulam e nos fazem mais humanos do que antes — tendo em vista que a condição humana é mais diversa e polifônica do que podemos supor.  Está claro que a primeira trajetória é mais confortável e menos tensa que a segunda, mas a sua facilidade é cheia de posições opressoras.

Ao colocarmos em evidência os caminhos supracitados, podemos pensar que toda essa discussão gira em torno de um conceito bastante forte e intrigante do ponto de vista ético: a violência. Esta pode ser compreendida como o ato de suprimir, do exercício da força e da manutenção de um desnível nas relações humanas. Nesse sentido, violentar é, de forma objetiva ou simbólica, enforcar as possibilidades do outro de ser, crer, amar e, sobretudo, existir.

Violentar é abafar a voz do outro. Em termos gerais, indica uma tentativa de suprimir que ele se movimente, deseje ou pense. No fundo, a violência aparece como uma reprodução do medo do diverso e ratificação dos preconceitos que, de modo recorrente, se afastam da diferença. A contra-violência, em outro prisma, pode ser designada como a resposta a essa tentativa torpe de veto ao existir. Vamos operar, então, nessa tensão entre existir como resposta à violência, utilizando o Candomblé como lente de percepção.

Trazido por negros, o Candomblé ganha o estigma que a pele recebe em terras colonizadas: o racismo. É inevitável pensar numa polarização social e, mais, de fé, que não se alicerce num maniqueísmo: brancos (bons) versus negros (maus). Nossa estrutura social se posicionou assim e, a seu modo, reforça essa lógica até os nossos dias.

A violência contra negros foi e ainda é introjetada na vida comum, é naturalizada. Nós a escondemos, “pisamos em ovos” ao dizê-la, pois não queremos ter consciência de que reproduzimos violências e que elas, por nós, se perpetuam. No momento em que não rompemos com essa estrutura, nos tornamos vetores de mal significativo.

Ao assumir a ancestralidade, o Candomblé se insere numa resposta a esse mal significativo. Crer como um negro e, mais, cultuar um(a) Deus(a) negro (a) é, além de transcendente, político. A realidade de um candomblecista é, em sua pele, existência e culto, uma contra-violência.

Cada corpo que se movimenta no culto e fora dele, sob o compasso do Rum, Rumbi e Lê, é impregnado por um elo com a negritude e seu Sagrado. Ele existe, na medida em que se compreende no mundo e afirma a sua ancestralidade. Lemos esse movimento como uma resposta ao racismo que se mascara e que intenta contra nós, bem amiúde, pois ele representa, por vezes, a face mais sutil da violência, porém, não menos destruidora.

A intolerância religiosa não é deslocada do Racismo. A tentativa de violentar a religião e os seus adeptos se alinha ao fato de que isso é “coisa de preto”. A manutenção desse argumento é, sem dúvidas, violência. Em contrapartida, cada fio de contas, xirê ou cantiga e corpo que se embala na dança dos Orixá, Nkisis ou Voduns reafirma uma negritude que é viva e combativa. Respirar o Candomblé é, de certa forma, depurar a violência e, ao mesmo tempo, afirmar as possibilidades de existência que fogem daquela lógica hegemônica que, como sabemos, não promove o bem comum.