Quem “visitará” Lula na prisão? Provocações a partir dos discursos e comportamentos religiosos

Quem “visitará” Lula na prisão? Provocações a partir dos discursos e comportamentos religiosos
12 de abril de 2018 Nelson Lellis

Quem “visitará” Lula na prisão? Provocações a partir dos discursos e comportamentos religiosos

Por Nelson Lellis

© Thierry Ehrmann

© Thierry Ehrmann

A prisão em 2ª instância do ex-presidente Lula foi encharcada de posturas e discursos religiosos, sejam eles vindos em apoio ou em críticas. Deltan Dallagnol, um declarado evangélico batista, jejuou e orou pela decisão do STF antes do julgamento do ex-presidente Lula. Luiz Roberto Soares Silvado, presidente da CBB, convocou os “servos de Deus” a orarem e jejuarem pela mesma causa. Este último tem o título de “mestre em divindade” e “doutor em ministério” num curso livre pela Southwestern Baptist Theological Seminary, Fort Worth, Texas, nos EUA. Sua última produção “intelectual” registrada em seu currículo lattes é um livro chamado “Esboços de sermões” (NOGUEIRA, 2017).

Diante não dos atos religiosos, mas da agilidade do julgamento e da promoção de inverdades sobre o atual cenário que envolve a personagem em tela, a Boitempo resolveu disponibilizar o e-book “Luiz Inácio Lula da Silva. A verdade vencerá: o povo sabe por que me condenam”, em seu blog para o acesso de todos os interessados. Não se trata de um trabalho no nível de “Esboços de sermões”. Os autores que participam da obra são: Luiz Fernando Veríssimo (escritor), Luis Felipe Miguel (professor de ciência política da UnB), Ivana Jinkings (fundadora, editora e diretora da Boitempo), Gilberto Maringoni (professor de relações internacionais da Universidade Federal do ABC), Juca Kfouri (jornalista e cientista social), Maria Inês Nassif (jornalista), Eric Nepomuceno (autor, jornalista e tradutor brasileiro), Rafael Valim (advogado e professor), Camilo Vannuchi (jornalista, escritor e doutorando em ciências da comunicação pela USP).

Na segunda-feira, dia 2 de abril, num julgamento de quase 11 horas, o Supremo decidiu, por 6 votos a 5, negar o habeas corpus de Lula. A defesa teria uma semana para recorrer com os “embargos dos embargos”, contudo, o juiz Sérgio Moro determinou a prisão de Lula no dia 5 de abril, quinta-feira. O prazo para se entregar à Polícia Federal de Curitiba era até às 17h do dia seguinte (sexta-feira). Neste ínterim, o Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, em São Bernardo do Campo-SP, foi cercado por milhares de manifestantes com palavras de ordem “Lula, guerreiro, do povo brasileiro”, dentre muitos outros; cartazes que diziam: “Não vai ter golpe” e “Todo apoio ao companheiro Lula” foram estampados na frente do Sindicato. Vários segmentos religiosos se fizeram presentes. E todas as manifestações religiosas realizadas durante o período em que o ex-presidente esteve no Sindicato foram barbaramente criticadas por evangélicos que descredenciam o envolvimento de líderes em movimentos sociais e democráticos a partir de partidos de esquerda.

Resultado: Lula não foi no prazo determinado pela justiça. No sábado pela manhã, um ato inter-religioso (e não uma missa) pela morte de dona Marisa Letícia deu voz a outros líderes religiosos pelo discurso do padre emérito de Blumenau, dom Angélico Sândalo Bernardino, que fora, posteriormente, criticado pela cúpula da CNBB, pelo cardeal dom Odilo Pedro Scherer, dentre outros católicos programaticamente inclinados à obediência ao clero que, embora proíba atos que relacionem religião e política, comunga, em sua grande maioria, com a plataforma política de direita.

Ao término do ato inter-religioso, Lula discursou por aproximadamente 50 minutos e deixou uma frase que entra para a história: “Eu não sou um ser humano, sou uma ideia. E não adianta tentar acabar com as ideias”. Ovacionado, foi carregado nos braços por um povo vestido de vermelho até o Sindicato. Imagem captada pela tela do fotógrafo Francisco Proner Ramos, que viralizou o mundo. À noite, como havia anunciado, mesmo à contragosto de todos os manifestantes que diziam as palavras de ordem “Não se entrega!”, entregou-se à Polícia.

É sabido, e isso ecoa na boca de vários artistas, escritores, intelectuais, como Raduan Nassar, Chico Buarque, o norte-americano Noam Chomsky etc., que a conjuntura de todo este processo não tem como protagonista o judiciário. Há mecanismos intensos que sugerem pensar numa elite do dinheiro (SOUZA, 2017) que se utiliza destas ferramentas para atingir seus meios. A classe média, que tem acesso à informação e formação, também pode ser manobrada intelectualmente por universidades, mídias, editoras, jornais etc. que monopolizam discursos em prol de uma única classe: a “elite do atraso”, como chama Jessé Souza (2017). Essa elite escraviza, por dinheiro, consciências. E, óbvio, essas consciências lutam, crendo fazer parte de um processo de limpeza moral no país. E enquanto lutam, a máquina invisível se utiliza dos poderes públicos para afastarem os pobres de seus direitos mais básicos: direito à educação, moradia, saúde, segurança etc.

Pois bem… Lula preso.

O que fazer com a oração e o jejum de Dallagnol e dos fiéis que obedeceram ao chamado do pastor e “doutor” Silvado? O grande problema é que a prisão acaba, na mente dos crédulos que se envolveram no projeto de ritual religioso (que, a bem da verdade, é POLÍTICO!), consagrando todo aquele discurso. Já que sua legitimação se deu pelo viés religioso, cabe aqui também conjecturar se é possível enxergar o “preso do povo” como aquele de quem Jesus falou em seu discurso escatológico no evangelho de Mateus 25,31-46. Segue um trecho: “Estive nu e não me vestistes, doente e preso, e não me visitastes (…) Todas as vezes que o deixastes de fazer a um desses mais pequeninos, foi a mim que o deixastes de fazer”. Os pequeninos de Jesus não são aqueles que rezam da mesma cartilha religiosa, que possuem os mesmos comportamentos espirituais, mas que se solidarizam da pobreza (FABRIS e BARBAGLIO, 2014, p. 371-372). E este é o texto do juízo final. E o juízo é este: Cristo rejeitará aqueles que o tiverem rejeitado na figura de seus irmãos, que são os pobres e aqueles injustiçados pela causa dos pobres. O acolhimento a estes que os religiosos amaldiçoam em seus ritos e crenças – que são atos políticos! – será o acolhimento de Jesus e vice-versa. Resta saber, se os religiosos acolherão a Lula como a Jesus ou se Lula será apenas mais um que a religião deixará à beira da estrada. Assim sendo, se saberá quem são os cristãos que acolherão, de verdade, a Jesus e serão acolhidos. Até porque, Jesus também deixou de ser um humano para tornar-se, pragmaticamente, uma ideia.


Referências:

A Bíblia de Jerusalém. São Paulo: Paulus, 2002.
LUIZ INÁCIO LULA DA SILVA. A verdade vencerá: o povo sabe por que me condenam. São Paulo: Boitempo, 2018.
FABRIS, Rinaldo; BARBAGLIO, Giuseppe. Os evangelhos I. 3ªed. São Paulo: Ed. Loyola, 2014.
NOGUEIRA, Kiko. Dallagnol e as igrejas batistas: como o fundamentalismo religioso-político do PR é bancado com dinheiro público. Diário do Centro do Mundo, 27 de dez. de 2017. Acesso em 10 de abr. de 2018.
SOUZA, Jessé. A elite do atraso: da escravidão à lava-jato. São Paulo: LeYa, 2017.