O navio negreiro do racismo e machismo religioso (III): A carne mais barata do mercado é a negra?

O navio negreiro do racismo e machismo religioso (III): A carne mais barata do mercado é a negra?
6 de Abril de 2018 Du Meinberg Maranhão

O navio negreiro do racismo e machismo religioso (III): A carne mais barata do mercado é a negra?

Por Du Meinberg Maranhão

Leia também:
O navio negreiro do racismo e machismo religioso (I)
O navio negreiro do racismo e machismo religioso (II)

© Fórum para as Culturas Populares e Tradicionais

Silêncio. Musa… chora, e chora tanto
Que o pavilhão se lave no teu pranto!…
(Castro Alves, 1869).

A segunda frente de ataques a Sol dos Anjos e Estrelita de Jesus, referida nos textos “O navio negreiro do racismo e machismo religioso (Parte 1)” e “O navio negreiro do racismo e machismo religioso”: Parte 2 – Estrelas negras no céu de Florianópolis” (nessa mesma edição da Revista Senso), está em comerciantes do Mercado Público Municipal de Florianópolis e adjacências.

No começo de janeiro de 2018 Estrelita foi abordada por um policial que disse que um comerciante a havia denunciado, e que ela “tinha de parar com o batuque”. O policial comentou que “respeitava seu trabalho religioso”, mas que ela estava sendo denunciada por “perturbação do silêncio e da ordem pública” e terá de comparecer dia 14 de maio a uma audiência. Ironicamente, em 13 de maio de 2018 se comemora os 130 anos do Dia da Abolição da Escravatura, sancionada pela princesa regente Isabel através da Lei 3.353 de 13 de maio de 1888, a célebre Lei Áurea. Além disso, 13 de maio é Dia Nacional de Denúncia contra o Racismo.

Isso nos faz pensar: o que acontece um dia depois do Dia da Abolição da Escravatura? Quais as mudanças de lá para cá em relação ao empoderamento e igualdade de direitos das pessoas negras no país? Houve mesmo um fim do cativeiro em todos os sentidos? Ou ainda ouvimos um múrmurio de Castro Alves? Atenção: “Silêncio. Musa… chora, e chora tanto; que o pavilhão se lave no teu pranto!…”

O silenciamento se dá através de barulho, e durma-se (batuque-se e cante-se) com um barulho desses! Em 29 de janeiro desse ano um comerciante do Mercado Público Municipal colocou na porta de sua loja um potente amplificador – com som eletrônico distorcido e no volume máximo – para aniquilar vozes e batuques das duas artistas de rua, que estavam tocando sentadas na rua, do outro lado da calçada. Parecíamos ainda ouvir Castro Alves:

“E ri-se a orquestra irônica, estridente…
E da ronda fantástica a serpente
Faz doudas espirais …
Se o velho arqueja, se no chão resvala,
Ouvem-se gritos… o chicote estala”
(Castro Alves, 1869).

O que acontece nesse Mercado Público – navio negreiro? Por que as artistas negras não podem se expressar? Quais as estaladas de chibata ainda são dadas em suas costas?

Presenciei quando policiais chegaram, atendendo à denúncia feita pelo comerciante. Um dos policiais explicou que a denúncia foi feita às “baianas batuqueiras”. Outro policial comentou que se as duas não deixassem de tocar ao lado do Mercado Público Municipal ou no Largo da Alfândega, da próxima vez seria obrigado a confiscar todos seus instrumentos religiosos.

Dizer que “se respeita o trabalho religioso” não sinaliza para uma motivação religiosa na repreensão? Notar que os instrumentos musicais a serem confiscados são religiosos também não? Chamar as duas artistas de baianas batuqueiras (quase a mesma coisa que chamá-las de “macumbeiras”), não faz parte da demonização da arte religiosa delas? Não demonstra que o incômodo do comerciante e sua chamada à polícia tem motivo religioso?

Imaginemos que as duas artistas denunciadas não fossem mulheres negras, consideradas pobres e cantadoras de pontos de religião afro-brasileira. Que fossem dois rapazes brancos, da elite florianopolitana, cantando qualquer outra coisa que não fossem cânticos de religião afro. Será que sofreriam as mesmas reprimendas e instigariam o mesmo tipo de abordagem? Na prática: os demais artistas de rua do entorno do Mercado Público sofrem o mesmo tipo de abordagem? Não sofrem.

As denúncias e caixas de som de comerciantes não parecem denotar racismo / elitismo / regionalismo / machismo religioso? Seriam as abordagens da Polícia um exemplo de racismo religioso institucional, reverberado por uma instituição que deve escutar ambas as partes equanimemente, sem tomar partido de um ou outro quando não há contravenção? Ou ainda melhor, protegendo as partes denunciadas injustamente? Sol narra que

“Tocamos pontos pra orixás pois é a melhor forma de preservar nossa cultura e de honrar nossos ancestrais. Mas em muitos momentos fizeram nos sentir inferiores por sermos negras e tocarmos instrumentos musicais de preto”.

Estrelita conta:

“Esse é meu trabalho, eu vivo da minha cultura. Tenho vivido nas ruas de Florianópolis um medo, um ódio, um desespero… Sensação de abandono, por querer cantar num lugar público em que as manifestações culturais são permitidas por lei. Comerciantes chamam a polícia, a polícia me aborda como se eu estivesse cometendo um crime mas eu não estou… estou dentro da lei. Eu não sou uma bandida. Pessoas que não gostam da minha música chamam as autoridades pra me tirar dali como se eu fosse um bicho. Ninguém até hoje chegou em mim com amor, educação e gentileza e pediu para abaixar o som. Não trocam ideia comigo de uma forma respeitosa. Sempre chamam a polícia. Parece que eu mordo, parece que eu sou um monstro. E não sou”.

Como diz a Lei no 8780, de 26 de maio de 2009, sancionada pelo então prefeito Dário Berger, e que define espaços públicos para práticas culturais de caráter popular no Centro de Florianópolis, em seu artigo primeiro, “ficam definidos espaços públicos para a formação e difusão das expressões culturais de caráter popular no município de Florianópolis, conforme disposto no art. 2º desta Lei. (Redação dada pela Lei nº 8727/2011)”, e em seu 2o artigo,

“os espaços e logradouros públicos a que se refere o artigo anterior são os seguintes: I – entorno do vão central do Mercado Público Municipal; II – Largo da Alfândega; III – Largo dos Artistas na Praça Fernando Machado; IV – entorno da figueira da Praça XV de Novembro; V – esquina Democrática formada pela confluência das ruas Felipe Schmidt e Deodoro; VI – Largo da Catedral; VII – travessa Ratcliff; VIII – Praça Jornalista Bento Silvério, na Lagoa da Conceição; IX – Escadaria do Rosário; X – Escadaria do Teatro da UBRO; e XI – rua Padre Miguelino”.

A Lei ainda apresenta quem pode se manifestar culturalmente em tais lugares: “os espaços mencionados no caput serão utilizados por grupos de expressões culturais de caráter popular de capoeira, de teatro de rua, musicais, de folclore, culturais, artísticos e outros da mesma natureza” (Lei 8280/2009).

Assim, lembrando que os espaços em que as estrelas pretas sofreram violência foram o entorno do Mercado Público Municipal e o Largo da Alfândega, é necessário esclarecer/enegrecer que as atividades musicais de Estrelita de Jesus e de Sol dos Anjos podem ser irradiadas naturalmente nesses lugares (e nos demais descritos na Lei), sem que haja a intervenção policial e a discriminação de comerciantes. Estrelita explicou que em fevereiro, mesmo mostrando a uma fiscal da Prefeitura o conteúdo da Lei, a mesma pediu que elas se retirassem do entorno do Mercado Público Municipal e disse que se retornassem, seus instrumentos seriam confiscados:

“A fiscal me abordou novamente. Eu tava com o papel imprimido, os próprios funcionários da prefeitura que imprimiram. Na Prefeitura disseram que essa lei é pra ser respeitada. Dei pra fiscal, ela nem quis olhar, abusou do poder dela e quis me humilhar. Disse que era pra eu recolher as minhas coisas e não voltar mais ali. Como se eu e meu tambor fossemos um lixo. No outro dia mostrei a lei pros policiais, aí deixaram eu e a Sol tocar mais um pouquinho. Depois que leram o papel imprimido. Tipo, eles não deveriam saber da lei, não? Eu que tive de correr atrás e mostrar? Somos humilhadas pela defesa pública, que deveria nos proteger. Desde que cheguei em Floripa não consigo cantar mais de uma hora sem ser abordada e criticada. Pessoas me chamando de macumbeira num tom preconceituoso mesmo. Como se eu fosse uma coisa ruim. Não ganhei nenhum gesto de acolhimento das autoridades nessa cidade. Não estão respeitando a lei e estão agindo com falta de respeito com a gente”.

Qual a dificuldade em reconhecer a Lei Municipal? O que acontece afinal? A casa grande ainda surta quando vê a senzala se expressando? Será que preta boa e preto bom é quem “tem o pé na cozinha”, “sabe o seu lugar” e “tem a alma branca” “apesar” de serem “gente de cor”? Qual o traje preta-a-porter que se pode usar no centro de Florianópolis? A pessoa negra sem “traços finos” e com “cabelo ruim” incomoda mais?

Na região do Mercado Público Municipal a carne mais barata do mercado é a carne negra?

Parecemos, novamente, escutar o poeta:

“No entanto o capitão manda a manobra,
E após fitando o céu que se desdobra,
Tão puro sobre o mar,
Diz do fumo entre os densos nevoeiros:
“Vibrai rijo o chicote, marinheiros!
Fazei-os mais dançar!…”
E ri-se a orquestra irônica, estridente…
E da ronda fantástica a serpente
Faz doudas espirais…
Qual um sonho dantesco as sombras voam!…
Gritos, ais, maldições, preces ressoam!
E ri-se Satanás!…”
(Castro Alves, 1869).

A resistência dessas estrelas pretas faz a gente lembrar que uma das “magias” da cidade está em invisibilizar as pessoas negras. Mas ao melhor estilo da música de Cartola, cremos que “a tempestade finda e o Sol nascerá”. Sol dos Anjos comenta:

“A escravatura ainda não acabou na mente das pessoas e a missão agora é abolir a escravidão da mente das pessoas, não é só conquistar esse espaço, que por lei também é nosso. É abolir os atos das pessoas racistas, machistas e preconceituosas. Se fosse há 500 anos estaríamos penduradas no tronco. É triste ver como a impunidade reina no país através de pessoas que se acham melhor que as outras por sua religião, classe social, gênero e cor. Mas é lindo ver a aceitação de outras pessoas ao nosso trabalho, ver que se sentem representadas, e que nos respeitam. Me sinto feliz sabendo que posso esquentar o ambiente à minha volta e fazer arte com os orixás, guias e anjos. Nós somos curandeiras do século 21”.

E como complementa Estrelita de Jesus,

“Graças a Deus as pessoas gostam de nos ouvir. Nosso pão de cada dia vem disso. Queremos nosso direito de expressar cultura e de poder existir. Queremos cantar onde é permitido por lei. O mercado público é nosso porque é público. E vamos cantar para os nossos ancestrais sim, todo dia. Nossa missão não é agradar a todos, nem Jesus agradou. Mas temos respeito por todos. Quero viver livre da escravidão. Eu só quero viver e cantar. Eu não quero que digam que Jesus tem que me libertar e que eu sou do diabo. Eu sou de Deus, sou de Jesus e sou dos orixás”.

A canção A Carne, imortalizada por Elza Soares, já notava: “ainda guardo o direito, de algum antepassado da cor, brigar sutilmente por respeito”. É nesse sentido que fica o convite: sentindo o preconceito na pele ou não, vamos nos reunir no Centro de Florianópolis e fazer uma incandescente constelação negra de cantos e toques? Em resistência (re-existência, aliás) amorosa e pacífica ao racismo / machismo / elitismo religioso da Ilha da Magia, vamos irradiar axé para quem é de axé, fé para quem é de qualquer tipo de fé e sobretudo, amor para quem é de amor? Vamos escrever em negrito no coração da cidade: quereremos amor e respeito.

Convidamos a todas as pessoas, inclusive comerciantes que denunciaram as artistas, transeuntes que demonstraram preconceito e a Polícia que tem acompanhado o caso, que compartilhem conosco desse momento de empatia, solidariedade, fraternidade e educação respeitosa às diferenças.

 

Nota 1: A ideia é que o evento seja na tarde do dia 13 ou 14 de maio. A data ainda será definida por Estrelita de Jesus e Sol dos Anjos.

Nota 2: Não identificamos a religião dos comerciantes. Nos foi dito que o comerciante que colocou o amplificador de som é evangélico, mas não foi possível identificar se a informação está correta. De todo modo, lembrando a Nota 1 do texto anterior, O navio negreiro do racismo e machismo religioso: Parte 2 – Estrelas negras no céu de Florianópolis, os universos evangélicos e católicos não são blocos homogêneos, mas diversos: muitas pessoas evangélicas e católicas respeitam e apoiam o trabalho de Sol dos Anjos e Estrelita de Jesus.


Entrevistas e Referências

ALVES, Castro. O Navio Negreiro, 1869.
COUTO, Andressa Moraes do (Estrelita de Jesus). Entrevista a Eduardo Meinberg de Albuquerque Maranhão Fo, 10 de fevereiro de 2018.
GELÉDES. Instituto da Mulher Negra. Disponível em: .
JESUS, Josilene Bomfim de (Sol dos Anjos). Entrevista a Eduardo Meinberg de Albuquerque Maranhão Fo, 10 de fevereiro de 2018.
PREFEITURA de Florianópolis. Lei no 8780, de 26 de maio de 2009. Define espaços públicos para práticas culturais de caráter popular no bairro Centro, município de Florianópolis.
SOARES, Elza. A carne. Marcelo Yuka, Seu Jorge, Wilson Capellette [compositores]. Em: Do cóccix até o pescoço. Rio de Janeiro: Tratore, 2002.