O navio negreiro do racismo e machismo religioso (II): Estrelas negras no céu de Florianópolis

O navio negreiro do racismo e machismo religioso (II): Estrelas negras no céu de Florianópolis
4 de Abril de 2018 Du Meinberg Maranhão

O navio negreiro do racismo e machismo religioso (II): Estrelas negras no céu de Florianópolis

Por Du Meinberg Maranhão

Leia também:
O navio negreiro do racismo e machismo religioso (I)
O navio negreiro do racismo e machismo religioso (III)

Estrelita de Jesus na Esquina Democrática (Reprodução YouTube) © Thaís Duarte

Este texto dá prosseguimento a “O navio negreiro do racismo e machismo religioso (Parte 1)” e continua em “O navio negreiro do racismo e machismo religioso: Parte 3 – A carne mais barata do mercado é a negra?”

Senhor Deus dos desgraçados!
Dizei-me vós, Senhor Deus!
Se é loucura… se é verdade
Tanto horror perante os céus?! (…)
Quem são, se a estrela se cala…
(Castro Alves, 1869)

Estrelita de Jesus, nome artístico de Andressa Moraes do Couto, 26 anos, nascida em Porto Alegre e mãe de Vinicius e Murilo, de 10 e 4 anos, respectivamente. Ela toca e entoa canções de religiões afro-brasileiras no centro de Florianópolis há três anos, sempre durante o verão.

Sol dos Anjos, nome artístico de Josilene Bomfim de Jesus, 25 anos, nascida em Salvador, Bahia, ela começou a tocar com Estrelita no final do ano passado.

Ambas são filhas de Oxum, orixá da amorosidade, acolhimento e doçura.

Suas vozes lembram Castro Alves:

“Oh! que doce harmonia traz-me a brisa!
Que música suave ao longe soa!
Meu Deus! como é sublime um canto ardente
Pelas vagas sem fim boiando à toa!”

(Castro Alves, 1869).

Mas a doçura de seu canto sofre interdições amargas: há quem tente apagar suas vozes e silenciar seus tambores. Os ataques às duas artistas de rua têm ocorrido em duas frentes: evangélicos e católicos fundamentalistas que circulam pelas ruas onde elas tocam e comerciantes com apoio da polícia.

Em relação à primeira frente de ataques, é recorrente que pessoas que passam ao lado das artistas se benzam ou façam o sinal da cruz no peito, testa ou lábios, ritual costumeiro do catolicismo, ou digam expressões como “sai, Exu”, “sai, demônio”, “queima, Jesus”, “tá amarrado e repreendido em nome de Jesus” e “todo joelho se dobrará e confessará Jesus”. Há quem mostre a Bíblia a elas e cante músicas gospel a plenos pulmões tentando soterrar suas vozes e instaurar uma batalha espiritual ou uma guerra santa. Aliás, nem deveríamos usar termos como “guerra santa” pois guerra pressupõe que haja ataques de ambas as partes. Como sabemos, se por um lado o povo de santo tem sido violentamente agredido há gerações, por outro não há casos de apedrejamento de fiéis e de igrejas católicas ou evangélicas como há de fiéis e terreiros afro-brasileiros.

Mais que “guerra santa”, o que há é um massacre santo – que aliás, de “santo” não tem nada: é infernal e demoníaco violentar a religião do próximo. Pedir que Jesus “queime” as cantadoras e compará-las a Exu (entendendo equivocadamente que esse é um orixá maléfico), ou ainda ao próprio demônio remete à caça às bruxas da Inquisição medieval – o que é mais que lamentável e digno de total repúdio.

Nesses momentos, o canto de Estrelita de Jesus e Sol dos Anjos se reveste de resistência ao ódio, com uma pontinha de dor:

“Mas que vejo eu aí…
Que quadro d’amarguras!
É canto funeral!
Que tétricas figuras!…
Que cena infame e vil…
Meu Deus! Meu Deus! Que horror!”
(Castro Alves, 1869).

Entre a doçura e a dor da violência, Sol dos Anjos lacrimeja: “só queremos irradiar amor e respeito, por que nos tratam como lixo ou demônios?”, e Estrelita clama: “quem está do nosso lado? Vão continuar nos agredindo e nos calando quando estamos cantando? Que Deus e os orixás nos ajudem!”, novamente lembrando o poeta, que pergunta a Deus:

“Quem são estes desgraçados
Que não encontram em vós
Mais que o rir calmo da turba
Que excita a fúria do algoz?

Quem são? Se a estrela se cala,
Se a vaga à pressa resvala
Como um cúmplice fugaz,
Perante a noite confusa…(…)

Ontem simples, fortes, bravos.
Hoje míseros escravos,
Sem luz, sem ar, sem razão…
São mulheres desgraçadas,
Como Agar o foi também.
Que sedentas, alquebradas,
De longe… bem longe vêm…
Trazendo com tíbios passos,
Filhos e algemas nos braços,
N’alma — lágrimas e fel…”
(Castro Alves, 1869).

Seriam as ruas do centro de Florianópolis um mar de respeito e livre expressão? Ou ressonâncias dos porões de navios negreiros?

“Hoje… o porão negro, fundo,
Infecto, apertado, imundo,
Tendo a peste por jaguar…
E o sono sempre cortado
Pelo arranco de um finado,
E o baque de um corpo ao mar…
Prende-os a mesma corrente
Férrea, lúgubre serpente
Nas roscas da escravidão.”
(Castro Alves, 1869).

Conseguimos, próximo à comemoração de 130 anos da Lei Áurea, sancionada em 13 de maio de 1888, dizer que das correntes nos libertamos totalmente? Não nos agrilhoa o racismo religioso ainda?

Na continuação desse artigo, intitulada “O navio negreiro do racismo e machismo religioso: Parte 3 – A carne mais barata do mercado é a negra?”, vamos acompanhar a segunda frente de ataques às estrelas pretas Sol dos Anjos e Estrelita de Jesus, sendo essa frente, constituída por comerciantes que as têm denunciado à Polícia.

Veremos o quanto o entorno do Mercado Municipal de Florianópolis e o Largo da Alfândega, locais onde Sol dos Anjos e Estrelita de Jesus irradiam sua arte podem ser vistos como reverberações das dores das tumbas negreiras.

Nota: Sobre a primeira frente de ataques, é importante notarmos que nem toda pessoa evangélica ou católica tem concepções ou atitudes extremistas. Existem movimentos evangélicos anti-racistas. Há movimentos como o #JesusCuraaHomofobia, contrário à “cura gay” pregada por extremistas. Há as Pastoras e Pastores Contra a Maioridade Penal e a Favor do Desarmamento. Há as Evangélicas pela Igualdade de Gênero, as Feministas Cristãs, as Vozes Maria e outros coletivos evangélicos feministas. Existem diversas igrejas inclusivas LGBT, que têm como líderes e fiéis pessoas transgêneras e pessoas homossexuais. Grande parte das pessoas evangélicas não se sente representada pelos políticos reacionários da Bancada da Bíblia e por pastores como Silas Malafaia e Marco Feliciano. Da mesma forma, há correntes católicas que apoiam a diversidade humana. Há coletivos feministas como as Católicas pelo Direito de Decidir, que entendem que só a própria mulher pode decidir pelo aborto (ver texto de Priscila Campanaro em edição anterior da Revista Senso) e diversos grupos anti-racismo e anti-homotransfobia. Nem todo católico se sente representado por políticos fascistas como Jair Bolsonaro ou pelos demais políticos católicos, que são a maior bancada religiosa do Brasil. Enfim, o cosmos evangélico e católico não é homogêneo e há muitas correntes progressistas.

Há, inclusive, pessoas católicas e pessoas evangélicas que prestigiam e apoiam respeitosamente a arte de Sol dos Anjos e de Estrelita de Jesus. Convidamos que façam parte de uma corrente de amor e respeito no evento que será mencionado na continuação desse artigo.

Também convidamos transeuntes, comerciantes e Polícia que se juntem a nós como importantes elos de amor e respeito.


Entrevistas e Referências

ALVES, Castro. O Navio Negreiro, 1869.
CAMPANARO, Priscila Kikuchi. Direitos humanos para as mulheres: o que a religião tem a ver com isto? Em: Revista Senso. Religiões entre a negação e a afirmação dos Direitos Humanos. N. 5, dez/jan de 2017/2018.
COUTO, Andressa Moraes do (Estrelita de Jesus). Entrevista a Eduardo Meinberg de Albuquerque Maranhão Fo, 10 de fevereiro de 2018.
JESUS, Josilene Bomfim de (Sol dos Anjos). Entrevista a Eduardo Meinberg de Albuquerque Maranhão Fo, 10 de fevereiro de 2018.