O mal nosso de cada dia: Religião e Violência

O mal nosso de cada dia: Religião e Violência
20 de março de 2018 Clarissa De Franco e Sandson Rotterdan

O mal nosso de cada dia: Religião e Violência

Por Clarissa De Franco e Sandson Rotterdan

A presente edição dialoga com a anterior, que aborda os Direitos Humanos. Mais uma vez a Revista Senso parte da percepção do papel de ambiguidade da religião no que tange à temática da violência

Vamos falar sobre religião, mal e violência. Temas grandes, fundamentais e labirínticos. O abstrato e ambíguo conceito de “mal” frequentemente é materializado em estigmas, sujeitos e situações específicas, que acabam por se repetir na(s) história(s). Por conta dessa repetição de padrões, é possível conceber que o mal tem caras bem específicas e assume identidades em determinados contextos, tendo nome e sobrenome. Não se trata de colar o mal a esses rostos e nomes, mas de compreender que o processo histórico, social e psicológico da humanidade costuma criar e sustentar seus demônios.

Antes fosse um Diabo de chifres. O mal moderno está, por vezes, na face mais bonita e delicada, no olhar mais doce, nas palavras mais bem argumentadas, no cabelo milimetricamente arrumado, no terno bem vestido… Assim chegamos ao mal na religião: para muito além dos conceitos teológicos de cada grupo religioso, é na prática e no discurso como prática de intolerância e desrespeito que o mal paradoxalmente se manifesta.

Está na moda isso de tolerância religiosa, termo, aliás, cheio de ambiguidades, pois tolerar não é reconhecer a legitimidade do outro, é apenas vestir uma roupa social de boa vizinhança, estufando o peito com orgulho vaidoso e quase sempre hipócrita, de quem precisa de regra social para viver em grupo. Tolerância, respeito, ética… Nomes que pairam no senso comum como se fossem compreendidos de maneira igual e inequívoca por todos/as. A língua – assim o sabem os/as analistas de discurso – esconde formas perversas de dominação e violência, com aparência de racionalidade, legalidade, neutralidade, cordialidade, heranças de um iluminismo instrumentalizado que nos faz negar o que é sombrio em nós para reconhecer e acusar no outro.

Quase todo mundo percebe uma violência quando esta é explícita. Soco, chute, cusparada, xingamento… Tal violência, obviamente, deixa traumas psíquicos e sociais evidentes. Outro nível de problema opera no momento em que as fronteiras se tornam mais sutis, menos visíveis, coadunando com mecanismos culturais e pactos discursivos que levam a justificativas da ordem do direito e da liberdade de expressão, por exemplo. Na nossa quase pós-modernidade, essa é uma violência séria.

No contexto mundial, o mal associado às religiões geralmente recai sobre os grupos extremistas e terroristas islâmicos. E, nesse caso, claro, entram todos os muçulmanos e muçulmanas como personificações sociais do terror, diante da ignorância (e eventualmente arrogância) ocidental. Edward Said, em Orientalismo, já nos contava sobre esse mecanismo na década de 1970.

Outro grupo religioso que historicamente recebe a carga pesada de violências legitimadas em discursos extremistas são os judeus/judias. Lamentavelmente, tendo o mundo não se recuperado do que fez aos judeus na Segunda Guerra, criou mecanismos “compensatórios” que demonstram como é difícil extinguir a violência, pois ela está sempre à procura de outro polo para se acostar. Hoje, quem diria (!), os Direitos Humanos lutam pelos palestinos e palestinas contra o aparato militarizado e estatal de Israel.

Aqui nas terras brasileiras, há uma troca de violências simbólicas bem demarcadas e que atravessam o senso comum. No centro deste imbróglio, estão as religiões cristãs, as religiões afro e os ateísmos mais duros, cada qual, à exceção das religiões afro, oscila entre os polos de opressor e oprimido, a depender da situação.

No exemplo mais banal, ocorre que alguns evangélicos/as (assim chamados/as de modo generalizado, embora as diferenças entre os grupos cheguem a ser profundas) direcionam seus discursos, de modo a colar o mal em determinados “rostos”, como as religiões de matrizes afro e, mais recentemente, os/as “pervertidos/as do gênero”.

De maneira alguma, esse exemplo é dado para rotular a grande população de religiosos cristãos evangélicos em nosso país. Isso, sim, seria um grande mal. Todavia, não é possível se negar que essa violência ocorre e tem capilaridade.

Segundo dados do Disque 100 – canal de denúncia do Ministério de Direitos Humanos – a cada 15 horas, uma intolerância é denunciada e a maior parte delas ocorre contra as religiões afro, um dado com o qual a história recente brasileira corrobora, pois durante algumas décadas do recém-século XX, os terreiros de candomblé e umbanda ainda eram considerados clandestinos no país.

Outro tipo de violência que tem se tornado mais evidente é a que ocorre com os ateus/ateias. Estes são oprimidos socialmente quando questionados por sua integridade moral em uma sociedade marcadamente religiosa como a nossa. Mas também operam na outra ponta, quando se associam a discursos cientificistas, que clamam pela exclusão das religiões do espaço público, sob o argumento equivocado de uma laicidade ateísta. E, nesse caso, seu alvo passa a ser diretamente as religiões majoritárias e cristãs, que possuem forte participação política no Brasil.

É de crucial importância propor aqui o questionamento acerca da causa pela qual as religiões carregam em si a violência, quando nos parece a todos que elas deveriam trabalhar ou construir um mundo de paz. Essas causas podem ser de diversas ordens: política, social, filosófica, teológica… Aqui vamos nos ater a uma causa de ordem filosófico-política. Diante disso, uma pergunta demasiadamente importante que aqui se coloca é se, de fato, as religiões têm capacidade de serem construtoras de uma sociedade pacífica diante de suas participações em atos violentos.

© Sammie Vasquez

Convivem, na mesma sociedade, perspectivas dogmáticas que, não poucas vezes, beiram ao pensamento fascista, como também perspectivas que, em alguma medida, enfraquecem os dogmas, tornando-os construções históricas, passíveis de interpretações. Assim, a religião carrega a ambiguidade da força do dogma e do enfraquecimento da interpretação.

Escrevendo sobre a religião na contemporaneidade, o filósofo italiano Gianni Vattimo afirma, sobre o cristianismo, em sua obra Acreditar em acreditar: “Não estou, certamente, diante de um patrimônio de doutrinas e preceitos, claramente definidos, que resolveriam todas as minhas dúvidas e me indicariam claramente o que fazer. É verdade que a doutrina cristã, que me pregou a Igreja Católica, tende a se apresentar com esta aparência […]. Mas este cristianismo dogmático e disciplinário nada tem a ver com o que eu e meus contemporâneos reencontramos; não é desta a forma que o ensinamento de Jesus se mostra capaz de nos atrair e de nos falar”. Nesse sentido, o filosofo capta um dissenso entre aquilo que, segundo ele teria sido a proposta de Jesus de Nazaré e a prática da religião. A proposta de Jesus de Nazaré seria, em alguma medida, pacifista, e a religião, em nome da manutenção de seu status quo de religião do Império, fez com que seus fiéis assentissem cega e inquestionavelmente a seus dogmas. É conhecido, na história cristã, o acontecimento das inquisições que silenciavam mediante a violência a quem, em alguma medida, se distanciava das verdades dogmáticas. Em tempos de redes sociais, essa inquisição tende a condenar os que vão na contramão do que alguns grupos acreditam. Infelizmente, engana-se quem atribui intolerância somente a essas disputas que estão na mídia. Somos profundamente violentos/as quando, a partir de uma vestimenta religiosa, trazemos todo um arcabouço de preconceitos para enquadrar o outro em nossa perspectiva, julgando todas as suas ações e posicionamentos a partir daquele dado. Enquanto não reconhecermos as violências silenciosas que operam em nossas relações sob o nome de religião, estaremos legitimando tais violências. Isso representa nada menos que a banalidade do mal, de Hanna Arendt. Fazemos o que fazemos porque é “justificável” fazê-lo, dentro de uma lógica que retira o humano de nós. Sem humanidade, nos sobra subserviência, opressão e ausência de possibilidades – pobres binarismos.

Essa instrumentalização da violência por parte das religiões, essa pretensão que carregam alguns grupos religiosos de serem os verdadeiros depositários da verdade não inviabiliza ou anula o fato de as religiões também carregarem, em si, possibilidades de construção de caminhos de não violência. O ponto está, talvez, na atitude ética que se possa ter diante do encontro com a diferença e de se descobrir a claudicância de qualquer maneira de pensar que seja humana a errância (e por errância podemos entender um caminho que se faz caminhando e mesmo a possibilidade de errar, equivocar-se). Um caminho seria o reconhecimento de que as religiões são humanas, são construções histórias e que têm um olhar parcial, perspectivo diante daquilo que se convencionou chamar de Deus. Talvez seria as religiões aventurarem-se na diferença, ou se não as religiões como instituições que dizem o que se deve crer ou não, as pessoas aventurarem-se na diferença, na multiplicidade do mundo, renunciando à vontade de verdade.

Diante da ambiguidade das religiões nos processos de construção e superação das violências fica o desejo de, diante de todos os terços, altares, oferendas, imagens sacras, nossa rendição. Estamos cansados/as de não ser o que podemos ser: diferentes.