Pessoas em Situação de Rua

Pessoas em Situação de Rua
30 de janeiro de 2018 Frederico Carlos Ludwig

Pessoas em Situação de Rua

Um trabalho da Paróquia Centro da Igreja Evangélica Luterana de São Paulo

Por Frederico Carlos Ludwig

© Frederico Carlos Ludwig

São Paulo terra da garoa, polo econômico do Brasil. Também terra dos contrastes. Onde se tem tudo e onde também não se tem nada. Extrema riqueza e extrema pobreza.

Caminhando por esta imensa cidade, a cada momento nos deparamos com pessoas em situação de rua. Os números variam muito. Oficialmente as pesquisas falam em torno de 16.000, mas extraoficialmente sabemos que o número é bem maior. São pessoas que, por alguma circunstância da vida, acabaram numa situação tal, que hoje vivem em albergues ou mesmo dormindo debaixo de marquises dos prédios na rua, e passam os dias perambulando nas praças e ruas pedindo alguma esmola.

Uma situação incômoda que nos faz perceber as contradições do mundo em que vivemos e que nos questiona como cristãos. Muitas vezes preferimos viver nos guetos de nossas comunidades e fechamos os olhos para não ver esta dura realidade.

A comunidade da Paróquia Centro de São Paulo, inserida neste contexto, não está isenta desta realidade. São nossos vizinhos, pessoas com as quais nos encontramos a cada instante andando pelas ruas e avenidas do centro da cidade.

Atendendo ao chamado de Jesus Cristo de “ser testemunha até os confins da terra” (Atos 1.8), a comunidade começou a olhar para estas pessoas com outros olhos, o olhar de Deus. Por isso, em vez de nos “livrar deles”, dando alguma esmola, como muitos fazem, resolvemos ir ao seu encontro. A comunidade abriu as suas portas para estas pessoas sofridas e marginalizadas pela sociedade.

Desta forma, no decorrer do ano de 1999, iniciamos o “TRABALHO COM PESSOAS EM SITUAÇÃO DE RUA”. Um trabalho que começou de uma forma tímida com dois/três moradores de rua, quando os convidávamos para entrar nas dependências da igreja para um grupo de conversa. Vinham desconfiados, meio ariscos, mas aos poucos foram adquirindo confiança no trabalho da nossa igreja. Começamos também a oferecer alimentação em nossos encontros. O grupo foi crescendo.

Hoje atendemos em média 120/140 pessoas semanalmente. São pessoas que encontram em nossa comunidade um espaço de amor irmão, vida e de dignidade humana. Não fazemos cadastro de nenhum morador de rua, pois cadastro significa ter controle sobre as pessoas, e a nossa proposta é não controlar a vida de ninguém, mas de estar ao lado, caminhar juntos em seu sofrimento.

No trabalho realizado com muito amor e carinho pela comunidade, no qual não oferecemos cursos ou outra atividade nesta área, pois estes já são oferecidos por poderes públicos ou outras entidades. Na conversa informal, no culto na igreja, na mensagem transmitida procuramos sim, motivá-los para uma mudança de vida.

O trabalho consiste em quatro momentos:

1º – ACOLHIDA: Os moradores de rua são acolhidos nas dependências da igreja, onde, além do uso dos sanitários, tem um espaço de tempo para conversa. É difícil compreender que, em pleno centro de São Paulo, não existem sanitários públicos.

2º – CULTO: Após, todos são convidados para entrar na igreja para um momento de louvor e meditação. É impressionante ver à vontade com que cantam hinos de louvor e a atenção dada a palavra de Deus.

3º – LANCHE: Após o culto recebem um café e um lanche.

4º – TRABALHOS MANUAIS: Ao final são convidados para participar de um grupo de trabalho denominado por eles de “GRUPO SONHO DE ARTISTA”. Este consiste em fazer pequenos trabalhos manuais no qual tem a oportunidade de desenvolver as suas aptidões e conversar sobre suas vidas e suas angústias.

Por viverem nas ruas ou em albergues, estas pessoas não têm endereço, isso, para muitos é um sofrimento a mais em suas vidas. Nas ruas, seus documentos são perdidos ou roubados. Para muitas pessoas em situação de rua, os documentos são o último resquício de humanidade. Diante dessa preocupação começamos a fazer a guarda de documentos na secretaria da paróquia. Nela, cada morador de rua tem o seu envelope no qual pode guardar seus documentos e ter acesso a eles no horário de expediente da secretaria. Nas ruas usam uma cópia dos seus documentos originais.

Todo o trabalho tem apoio dos membros de nossa Paróquia e do Conselho Paroquial. É mantido através de doações feitas pela comunidade e desenvolvido através de trabalho voluntário de diversos membros de nossa comunidade.