O caso de Evo Morales e as igrejas na Bolívia: Dos novos atores sociais e da boa e má política inspirada em novos símbolos religiosos

O caso de Evo Morales e as igrejas na Bolívia: Dos novos atores sociais e da boa e má política inspirada em novos símbolos religiosos
26 de janeiro de 2018 Nelson Lellis

O caso de Evo Morales e as igrejas na Bolívia: Dos novos atores sociais e da boa e má política inspirada em novos símbolos religiosos

por Nelson Lellis

Leia os dois textos anteriores da série:
O caso de Evo Morales e as igrejas na Bolívia: Da identidade nacional
O caso de Evo Morales e as igrejas na Bolívia: Da autonomia do indivíduo e o caso de Santa Cruz de la Sierra

© Eneas De Troya

As redes sociais foram inflacionadas com comentários de grupos cristãos contrários ao movimento de mudança na legislação. Outros não. Os textos anteriores podem ajudar a elucidar o motivo pelo qual os que não foram favoráveis investiram em comentários nas redes, bem como se utilizaram da força do púlpito de suas comunidades religiosas para defenderem seus argumentos.

Não se pode generalizar este último aspecto, visto que o desenrolar das críticas, em muitos casos, são reproduções, ecos de uma solidariedade acerca de outra tradição axiomática, isto é, acreditando em uma identidade cristã monolítica, deve-se, logo, reforçar a ideologia dogmática e traditiva. Com isso, incorre-se, na maioria das vezes, na ausência de leituras críticas e autônomas.  Há também a preocupação por uma certa ditadura: onde se impedirá que o cristianismo ou outras religiões contribuam, como instituições, para um certo “avanço” da nação com suas éticas e ações político-sociais sem interferir na base cultural do povo. Veremos à frente que, embora isso pareça contraditório, o cristianismo também pode influenciar beneficamente o país.

E por que outros foram favoráveis?

Em primeiro lugar, porque muitos grupos cristãos evangélicos não pretendiam pregar a convivência diante das diferenças, mas diluir a cultura indígena do país. Outro ponto pode ser observado no artigo de Nicolás Panotto, diretor geral do Grupo de Estudios Multidisciplinarios sobre Religión e Incidencia Pública (GEMRIP – www.gemrip.com.ar), Bolivia y la “percución religiosa”; o que está(va) em pauta não é(ra) a proibição do proselitismo, mas sim, a penalização do tráfico de pessoas, onde há muitos casos em que “grupos se camuflam como corpos religiosos para exercerem este tipo de práticas, ou a espaços que promovem instâncias de abuso e exploração sexual em nome da fé” [1].

É oportuno registrar que Morales pretendia resguardar até mesmo as comunidades tradicionais do neopentecostalismo – cuja característica já era de mercado agressivo. [2] Neste sentido, precisaríamos mapear o neopentecostalismo na Bolívia para tal empreendimento crítico. Como não é possível neste espaço, lançamos mão do Circuito da Cultura [3] para – apenas – introduzirmos a ideia de identidade social:

A partir da representação acima, pode-se notar que a identidade de determinado grupo é fomentada pela demanda dos fiéis. A identidade destes estaria associada à produção e ao consumo dos produtos sagrados, ocasionando uma nova rotina social e, consequentemente, identitária. [4]

Existem igrejas neopentecostais mais tradicionais que buscam manter a tradição local. Obviamente que, com a inserção dos dogmas e rituais, por mais que se tente, jamais se poderá encontrar um tipo ideal do antigo grupo após contato com outro. Concepções de mundo partilhadas forjam novos signos e até mesmo nova linguagem. [5] Mas não apenas as religiões causam isto, o próprio processo de globalização tem essa característica em que, no mundo moderno, fazem com que as identidades culturais nacionais sejam afetadas ou deslocadas. [6] Todavia, o pano de fundo na Bolívia não se trata apenas de uma ideia religiosa “pura”, mas o que vem no conteúdo de denominações que interferem no campo econômico, cultural e, consequentemente, na relação política com as demais nações capitalistas.

Ao contrário do que muitos pensam, a religião cristã evangélica teve e ainda tem um papel importante na Bolívia e, talvez, este seja um motivo por continuar a crescer por lá. Desde a Revolução de 52, por exemplo, as práticas religiosas associadas à atividade agrícola já não faziam sentido para alguns indígenas, levando em consideração que estes não mais dependiam da produção agropecuária para subsistir. Muitas denominações (como Batistas, Adventistas, Metodistas e a Igreja dos Amigos) levaram à sério a ideia de instrumentalização daqueles indígenas a fim de que pudessem se assemelhar com o mundo urbano de La Paz. [7] Nesta plataforma de “ascendência social”, ganhou-se, com a ajuda religiosa cristã evangélica, um novo universo simbólico capaz, portanto, de enxergar o país com os outros olhos em um novo campo de trabalho manufaturado. [8]

É possível que grupos que ganhem certa consciência econômica também se interessem pela participação na política. Contrariamente ao que se supõe, a presença de evangélicos no ambiente político não é recente, mas é um fenômeno que se observa desde a penetração dos primeiros grupos protestantes no país. [9] O que isso quer dizer? Que a consciência produzida nos meios religiosos se torna modelo ideológico na política que é sustentada pela camada religiosa com modelos de sociedade inspirados em arquétipos ali pregados. Os fiéis tornam a defender isso. Seja para o bem ou para o mal.

Como estes dois últimos parágrafos ajudam a concluir nossa série de reflexões? Que a religião cristã não pode ser vista como um só conjunto. Há grupos que prezam por uma conversão com fins religiosos e tendem, consequentemente, mesmo transformando alguns aspectos religiosos e culturais, favorecerem o grupo com discursos e cuidados sobre o alcoolismo, por exemplo – o que pode auxiliá-los no trabalho para uma melhor condição social afastando-os da mendicância –, bem como a educação – inserindo-os em um mundo de novos significados. Há outros grupos que interferem ruidosamente. Estes foram alertados por Morales na tentativa de mudança na legislação: são aqueles que, por força e violência (ainda que simbólicas – lançando mão do conceito bourdieusiano [10]) buscam recrutar pessoas vendo nestas a capacidade de enriquecerem o próprio sistema (e tantas outras coisas) levando ao limite um povo que, sinceramente, deseja servir até mesmo um Jesus que morrera sob poder de estrangeiros.


Referências

[1] www.lupaprotestante.com
[2] www.revistaforum.com.br
[3] Paul du Gay, Stuart Hall, Linda Janes, Hugh Mackay e Keith Negus (1997) apud SILVA, Tomaz da (org.). Identidade e diferença: a perspectiva dos estudos culturais. 15ªed. São Paulo: Ed. Vozes, 2014, p. 16.
[4] Para compreender como isso funciona no Brasil utilizando o exemplo da Igreja Universal do Reino de Deus, confira: LELLIS, Nelson. Templo de Salomão: IURD, Pós-cristianismo e Neojudaímo no Brasil. São Paulo: Edições Terceira Via, 2017.
[5] ANDERSON, Benedict. Comunidades imaginadas: reflexões sobre a origem e a difusão do nacionalismo.  São Paulo: Companhia das Letras, 2008.
[6] HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade. 11ªed. Rio de Janeiro: DR&A Editora, 2006.
[7] CÓRDOVA, Julio. “Capacidades políticas del movimiento evangélico boliviano”. In: CALDERÓN, Fernando et al. Nuevos actores sociales, vol. 1. Cuaderno de Futuro. Universidad de Texas: Plural Editores / PNUD, 2002, p. 215.
[8] Idem.
[9] Idem.
[19] BOURDIEU, Pierre. O poder simbólico: memória e sociedade. Lisboa: Difel, 1989.