Cidadania e Espiritualidade

Cidadania e Espiritualidade
25 de janeiro de 2018 Marcelo Barros

Bem Viver

Cidadania e Espiritualidade

Por Marcelos Barros

© Daiga Ellaby

Cidadania é um termo moderno. Diz respeito aos direitos, sociais e políticos de todas as pessoas que fazem parte da sociedade civil de uma cidade, de um país e do mundo. No mundo antigo, não se falava em direitos de cidadania, mas os impérios distinguiam as pessoas livres, consideradas cidadãs e os estrangeiros que não tinham os mesmos direitos. Havia ainda os escravos e apátridas, sem nenhum direito social. Infelizmente, algumas religiões como o Bhramanismo, foram, erroneamente, usadas para explicar a diferença de classes sociais e a supremacia de uns sobre os outros como algo sagrado. Acreditava-se que, na terra, príncipes e sacerdotes representavam a cabeça da divindade (Bhrama) e os servos, os seus pés. Os Dalits ou pária (impuros) nem faziam parte do corpo divino. Estavam abaixo de tudo. Essa sacralização da discriminação social veio quase até nossos dias. No século XX, entre outros, o Mahatma Gandhi, de religião hinduísta, lutou contra isso.  Embora viesse de classe superior, conviveu com Dalits e Sutras (servos). Na mesma Índia, cinco séculos antes de Jesus, o príncipe Sidarta Guatama renunciou à vida no palácio. Inseriu-se no meio dos mendigos e impuros para encontrar a iluminação. Assim, se tornou o Buda. Na Arábia do século VII da nossa era, Maomé era um pobre pastor de ovelhas. Alá o escolheu para, através do anjo Gabriel, receber a revelação do Corão e iniciar o Islã. Aqui vamos aprofundar mais um pouco como a Bíblia e a tradição judaico-cristã podem contribuir para o resgate do direito de todos/as à cidadania social e política.

De hebreus a Israel, reinado divino…

Tanto quanto outros livros sagrados, a Bíblia surgiu em meio a uma sociedade tribal, patriarcal e estratificada em classes sociais. No século XIII e XII antes da nossa era, no Oriente Médio, a terra pertencia aos chamados reis de Canaã. Os habiru,  (hebreus) eram pobres. Viviam em tribos nas montanhas e serviam como mão de obra semiescrava para os donos da terra. Até hoje, os dados históricos são poucos e alguns contraditórios. Segundo a tradição bíblica, foi nesse contexto social que se deu a revelação divina. Algumas pesquisas identificam o Êxodo bíblico como uma revolução camponesa (Gotwald, 1979). Independentemente se concordamos ou não com essa hipótese, não podemos negar que o povo de Israel surgiu  de um movimento social que transformou grupos divididos e pobres em um só povo, reunido por uma aliança feita em nome de Deus. No entanto, mesmo tendo sido escravizado e oprimido, os israelitas consideravam normal ter escravos e manter o estatuto patriarcal da família. Estabeleceram que a mulher era propriedade do pai e depois do marido. As pessoas homossexuais deveriam ser excluídas de todos os direitos sociais. Assim, preservavam as desigualdades sociais entre os proprietários de terra e os servos. Como a revelação divina se dá gradualmente e de forma evolutiva, (Torres-Queiruga, 200), pouco a pouco, a Bíblia deixou claro: Deus não aceita injustiças e não pactua com discriminações sociais. Em uma sociedade patriarcal, na qual os mais velhos têm mais direitos do que os novos, Deus aceita que o patriarca Jacó minta e engane a Isaac, seu pai, para roubar o direito de primogenitura (Gn 27). Parece concordar que Tamar, nora de Judá, se vista de prostituta, engane o patriarca, durma com ele para engravidar e, assim, obrigá-lo a cumprir a lei do levirato (Gn 38). Escolhe Moisés como líder para chefiar o seu povo na saída do Egito, quando esse (Moisés) era foragido da justiça egípcia por ter assassinado um homem (Ex 2). É enorme a lista de marginais que Deus escolhe como instrumentos do projeto de libertação do povo. A maioria dos profetas e profetizas viviam à margem da sociedade, consideradas subversivas pelas regras sociais vigentes e se tornaram a voz viva de Deus para o povo.     

O marginal como porta-voz de Deus

“Vejam, irmãos, entre vocês, não existem muitos poderosos nem pessoas importantes. No entanto, o que o mundo rejeita e considera vil, Deus escolheu para confundir os sábios. Deus escolheu o que é fraqueza para o mundo para confundir os fortes” (1 Cor 1, 26- 27).

O Cristianismo surgiu em meio a comunidades de periferia de algumas cidades da Ásia Menor. Eram grupos marginais do Judaísmo que Paulo e seus companheiros reuniram e aos quais chamaram de Igreja (ekklesia),  assembleias de cidadãos, não das cidades de cultura helênica onde viviam, mas do projeto divino de transformação do mundo. Conforme estudiosos (Gerd Theissen, 1989), Jesus havia reunido como discípulos um grupo de pessoas, quase todas, marginais à sociedade judaica da época. No grupo mais íntimo, dois discípulos tinham como apelido Boanerges (filhos do trovão), isso é, homens violentos,  provavelmente ligados a movimentos anti-romanos, Simão Pedro é chamado de Bar-jonas, comumente traduzido por “filho de Jonas”. Pode ser que, no original aramaico, o significado era “filho do deserto”, isso é, fugitivo clandestino. Também Judas Iscariotes tinha esse nome por ser sicário, isso é, especializado em sica, punhal com o qual os zelotas atacavam furtivamente aos romanos. De todo modo, não há como negar certa convivência dos primeiros cristãos e das primeiras comunidades com a marginalidade social e política.

Algumas parábolas de Jesus parecem ser coniventes com a astúcia dos que burlam as leis e mesmo com a desonestidade. Jesus compara o reino com um administrador desonesto. Um dia, ele percebe que o patrão descobriu o seu desfalque. Então, enquanto não é mandado embora, reúne os devedores do patrão e perdoa parte da dívida de todos. Assim os torna seus aliados para, quando for demitido do trabalho, encontrar quem o ajude (Lc 16, 1 ss). Jesus elogia a esperteza desse gerente desonesto. Em outra ocasião, compara Deus a um ladrão que assalta a casa durante a noite. Pede, então, às pessoas que fiquem vigilantes para não serem surpreendidas pelo assalto (Mt, 24 e Mc 13). Não há espaço aqui para uma interpretação adequada desses textos, mas em uma comunidade eclesial de base, ao comentar a parábola do administrador infiel, um desempregado desabafou com o ditado popular: “Quem rouba ladrão, tem cem anos de perdão”. Não se trata de sacralizar a marginalidade, mas de revelar que o projeto divino subverte os critérios da sociedade dominante. Como cantou Maria:  “ele derruba os poderosos dos seus tronos e eleva os pequeninos; enche de bens os famintos e deixa os ricos de mãos vazias” (Luc  1, 52- 53).

É nesse contexto cultural que os evangelhos contam que Jesus foi crucificado entre dois bandidos (em grego lestas). Mateus diz que é para se cumprir a profecia do 2o Isaías, segundo a qual o Servo sofredor de Deus seria considerado como bandido e malfeitor (Is 53, 9). De fato, o termo lestas era usado para os culpados de subversão em relação ao Império. Só esses eram crucificados. Jesus foi condenado como um bandido, rebelado contra o império. Conforme Lucas, um dos bandidos crucificados com Jesus o insultava dizendo: “Se és o Messias, desce da cruz e nos tira daqui”.  O outro o censurou: “Nós recebemos o castigo que merecemos, enquanto esse não fez nada de mal”. E diz a Jesus: “Lembra-te de mim quando chegares em teu reino”. E Jesus lhe respondeu: “Hoje mesmo estarás comigo no paraíso” (Lc 23, 39- 43).

A tradição cristã chamou ao ladrão que se arrependeu de O bom ladrão e lhe deu o nome de São Dimas. O outro ficou no esquecimento. Comumente, essa narrativa é sempre repetida a partir de uma leitura moralista do santo ladrão arrependido e do outro, empedernido que mereceu o que teve. Mas, isso será mesmo a interpretação correta e justa para quem é cristão?

Não podemos garantir que, de fato, aquele homem tinha a intenção de insultar Jesus. Pode ser que, no seu desespero, estivesse apenas apelando para uma última chance. Queria convencer Jesus a fazer um milagre, descer da cruz e salvá-los a todos. Em meio às dores terríveis, ele gritava sua revolta. Como dizia Lutero: “Deus prefere a blasfêmia e o insulto do pobre sofredor do que o aleluia do injusto”.

Foi baseado nesse modo mundano e pouco crítico de ler a história, seja a narrativa sobre os dois ladrões na cruz, seja toda a história, que, no decorrer dos tempos, as Igrejas cristãs passaram a conviver com a pena de morte como se fosse normal. Abençoaram guerras e, muitas vezes, canonizaram como sendo santas a lei dos impérios e as normas sociais vigentes.  Ao fazerem isso, essas nossas Igrejas esvaziaram totalmente o escândalo da Cruz de Cristo se identificou com todos os filhos e filhas de Deus, condenados pela lei dos homens, inocentes ou mesmo, de acordo com a lei, culpados. Ao morrer na cruz, Jesus assumiu para si essa identificação com os malfeitores. A lei afirmava: “Maldito seja quem for suspenso no madeiro” (Dt 21, 23). Como escreveu Paulo: “o Cristo tornou-se, ele mesmo, pecado por nós” (2 Cor 5, 21).

Algumas conclusões

No mundo dominado pelas grandes corporações, não são os Estados, nem as leis civis e nem mesmo as organizações internacionais como a ONU que podem salvaguardar os direitos e defender a dignidade de todas as pessoas. Atualmente, ao ver no Cinema e ler nos livros as atrocidades cometidas pelos nazistas contra os judeus, comunistas, homossexuais e outras minorias, podemos nos perguntar como a sociedade civil alemã e toda a humanidade conviveu com isso. Durante certo tempo, a desculpa era afirmar que as pessoas não sabiam o que estava acontecendo. Atualmente, cada vez mais fica claro que a imensa maioria da sociedade sabia sim. Ao menos os que queriam saber, tinham pleno conhecimento do que ocorria. E, entretanto, permitiram o racismo, as torturas, as mortes sumárias, os campos de concentração e o holocausto de seis milhões de judeus. Os países que entraram na guerra contra Hittler não fizeram isso para proteger os judeus e vítimas do nazismo e sim para reverter as invasões do exército alemão em países da Europa, como a França e a Inglaterra. Se Hittler tivesse apenas invadido países da África, os tais aliados não se teriam movido.

Sem dúvida, disso tudo, o mais grave  e escandaloso foi que a maioria dessas pessoas que diante do holocausto se omitiram ou fingiram não ver e não saber iam todos os domingos à sua missa dominical ou ao culto luterano e anglicano. Salvo brilhantes exceções, como a Igreja Confessante Luterana na Alemanha, muitos pastores, padres, bispos e até o papa (Pio XII) são acusados de terem sido coniventes ou ao menos omissos diante do holocausto.

Não sei o que as gerações futuras pensarão de nós que, nesses tempos atuais, convivemos com a existência de campos de refugiados nas fronteiras da Europa. Ignoramos tranquilamente que, na África, países inteiros estão subjugados pela fome e por guerras manipuladas pelas potências europeias que se dizem cristãs. O que pensarão nossos netos ao saberem que a maioria dos cidadãos dos Estados Unidos votaram em Trump, a maioria dos cidadãos de São Paulo e do Rio de Janeiro votaram em Dória, em Crivela e muitos estão dispostos a votar em Bolsonaro nas eleições de 2018? O que significa o fato de que os presidentes dos Estados Unidos e da Coreia do Norte ameaçam lançar bombas nucleares sobre toda a humanidade e isso não cria nenhuma reação imediata nos cidadãos de todo o mundo?

© Himesh Kumar Behera

Nesse contexto, todas as religiões têm uma missão urgente e prioritária: testemunhar que a fé se baseia em um movimento divino de valorização do humano (Deus se revela ao ser humano). Todo caminho espiritual tem como base a salvaguarda e a defesa da dignidade humana. Não se pode crer em Deus, ou em um Mistério de Amor Maior presente no universo, se não se percebe o valor insubstituível de cada pessoa humana e de todo ser vivo. No século II, Irineu de Lyon afirmava: “Se nem crês na dignidade do ser humano como imagem divina, como podes pensar que crês em Deus?”. “A glória de Deus é a vida do ser humano”. Oscar Romero, bispo-mártir de El Salvador traduziu isso para a América Latina: “A glória de Deus é ver respeitada a dignidade do pobre”.

É preciso tirar as consequências disso. Quem divide a sociedade em cidadãos de bem e indivíduos (pessoas consideradas desqualificadas), assume posição contrária a qualquer caminho espiritual. Achar que direitos humanos servem para quem respeita as leis sociais mas não devem se aplicar a bandidos é uma forma de continuar, hoje, condenando à cruz uma multidão de pessoas desfiguradas de sua dignidade humana. Como no tempo de Jesus, os crucificados não são apenas as vítimas inocentes e puras condenadas pelo mundo mau. São também os marginais, culpados de algum delito social condenados à morte social e mesmo física por uma sociedade sem coração.

Quando Jesus proclama bem-aventurados os pobres, não determina que se trata dos pobres honestos, íntegros e cumpridores da lei. Quando diz: bem-aventurados os que choram, não explica que seriam os que choram sem merecer e assim por diante.

A Pastoral Carcerária é uma das mais importantes pastorais sociais da Igreja. Ela tem uma dimensão ecumênica. Dela participam católicos, luteranos, anglicanos e outros. Sua missão não é apenas confortar e tentar converter à fé cristã os prisioneiros. Seu objetivo é lutar por um mundo em que a justiça não seja mais entendida como punição exemplar e menos ainda como vingança. A justiça divina é libertadora e tem como meta recriar e renovar a vida, onde essa é ameaçada e aviltada. Lutamos por uma “justiça restaurativa”. Isso significa levar quem cometeu uma falta a trabalhar para, na medida do possível, refazer o bem e corrigir o mal cometido. Isso é um trabalho feito a partir da restauração da dignidade humana de quem comete a infração e das vítimas. É uma restauração dos laços sociais e da potencialidade humana de amar e ser amado/a.

Quem, por qualquer que seja o motivo, é a favor da pena de morte, ou acha menos grave o extermínio de jovens pobres nas periferias urbanas das cidades brasileiras não somente assume que é contra a fé de todas as tradições espirituais, mas vai na direção oposta a toda perspectiva de educação da sociedade.

Quando Jesus propõe o perdão como caminho de construção de uma nova sociedade não é de forma mágica e alienada. O perdão supõe recriar condições de justiça. Embora deva ser gratuito e total, inicia um caminho trilhado a partir da verdade e da exigência de conversão. Para a Bíblia, todo ser humano foi criado à imagem e à semelhança de Deus. Por isso, mesmo se erra e envereda por um caminho equivocado, a pessoa continua sempre sendo imagem divina e as religiões devem revelar isso. Em todo ser humano, seja quem for e seja qual for sua situação, podemos ver nela a imagem divina. Mas, mesmo se todos/as são imagens de Deus, algumas imagens são fieis e outras estão mais ou menos desbotadas. É tarefa de uma educação espiritual e libertadora ajudar as pessoas a recuperar no mais profundo de si mesmas essa imagem divina. Assim, além de ser imagem divina, cada criatura humana pode também se tornar semelhante a Deus, isso é, parecido/a com Deus que é Amor. Trata-se de um trabalho interior e permanente ao qual todos nós nos propomos. No entanto, cremos que a energia fundamental e primeira vem do próprio Deus. Por isso, judeus e cristãos oram: “Quando tu, Senhor, teu Espírito envias, todo mundo renasce, é grande a alegria” (Sl 104).


Referências

Andres Torres-Queiruga, Repensar la revelación, La revelación divina en la realización humana, Madrid, Trotta, 2007.
Francisco de Aquino Júnior, Nas periferias do mundo: Fé, Igreja e Sociedade, São Paulo, Paulinas, 2017.
Gerd Theissen, Sociologia do Movimento de Jesus, Petrópolis, Vozes, 1989.
James Alison, Una fe más allá del resentimiento, (um olhar gay sobre a teologia da redenção), Barcelona, Herder, 2003.
Leonardo Boff, Direitos do Coração, São Paulo, Paulus, 2014.
Norman Gottwald, Tribes of Yahweh, A sociology of the Religion of Liberated Israel, N. York, Orbis Book, 1979, traduzido no Brasil: As Tribos de Yahveh, Uma sociologia da Religião do Israel Libertado, Ed. Paulus, (várias edições. A última, 2007).