Uma manjedoura e um carrinho de mão: direitos humanos em um auto de Natal

Uma manjedoura e um carrinho de mão: direitos humanos em um auto de Natal
23 de dezembro de 2017 Ana Ester

Uma manjedoura e um carrinho de mão: direitos humanos em um auto de Natal

por Ana Ester

© Greyson Joralemon

Guardo na memória os lindos presépios que sempre estiveram ali, entre a casa de minha avó, de minha mãe, e de quem fosse nos receber para a ceia de Natal. Era um momento lúdico para mim quando criança. Brincava com os bichos, colocava a imagem de um pastor no lugar de São José, rearranjava de acordo com a minha vontade. Lembro-me que na casa de uma tia-avó, a manjedoura sempre ficava vazia. Somente na noite de Natal, é que nós, crianças, éramos colocados em fila por ordem de tamanho, o Menino Jesus, então, entrava solenemente pelas mãos do neto ou da neta mais baixinha. Ao fundo, a tia-avó tocava “Noite Feliz”.

Eu nunca entendi bem a ideia da manjedoura vazia recebendo um bebê. Meu pai tinha uma fazenda de gado, e manjedoura, como ele me mostrava, era o local onde era colocado o alimento para os animais. O feno era colocado fresco ali e as vacas vinham enfileiradas, como nós na noite de Natal, para se alimentar.

Com o passar dos anos, as grandes festas de família tornaram-se festas mais íntimas, sem o piano da tia-avó. Os grandes presépios foram diminuindo e o Menino Jesus passou a ficar ali durante todo o tempo do Advento. Mais menino do que bebê, de braços abertos, talvez esperando ansioso por dar algum sentido à minha prática de fé.

E deu. Mas, símbolos como o presépio foram esquecidos no meio da luta do dia-a-dia. Ativismo, militância, luta contra a LGBTfobia. Meu cristianismo foi se desenhando no chão-da-vida, entre minhas próprias dores e as daquelas que foram largadas na vulnerabilidade. Descobri o gosto doce-amargo-azedo dos direitos humanos, quando vi que uns eram considerados mais humanos do que outros.

Foi então que revi o presépio, que ficou guardado em minha memória de infância. Aos 15 de fevereiro de 2017, um presépio foi montado no Ceará. No lugar da manjedoura, um carrinho de mão. No lugar de pastores e animais celebrando o nascimento, homens celebrando sua força, seu poder e a dor de uma travesti. No lugar da vida, a morte.

Em um mundo no qual o assassinato é tão celebrado quanto à vida, precisamos repensar os direitos humanos, a partir de uma proposta contra-hegemônica, como a apresentada por Boaventura de Sousa Santos, na obra “Se Deus fosse um ativista dos direitos humanos”. É na luta contra o sofrimento humano injusto, lançando mão de teologias progressistas, que travestis serão retiradas da marginalidade e da vulnerabilidade.

Pensando, assim, contra-hegemonicamente, lanço mão das imagens da manjedoura e do carrinho de mão para refletir sobre o Natal. A manjedoura é o local onde o alimento é colocado, o carrinho de mão, onde o material para o trabalho é depositado. Alimento e trabalho. Jesus Cristo e Dandara. Ambos me fortalecem e me convocam para a luta pelos diretos humanos, na qual todos sejam considerados humanos.

Para Dandara, por Dandara.

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