Juventude, Utopia e Religião

Juventude, Utopia e Religião
29 de novembro de 2017 Luiz Gonzaga Teixeira

Juventude, Utopia e Religião

por Luiz Gonzaga Teixeira

Existe um poema de Psichari, que consta na coletânea de “Os mais belos poemas de todos os tempos” (Rose Marie Muraro e Frei Raimundo Cintra, 3a ed., Rio de Janeiro, José Olímpio, 1976), cuja ideia central poderia ser explicada assim: Senhor, meu coração anseia por ser feliz e ter prazer, mas não a qualquer custo. Se estiverem fundados na mentira, estou disposto até, se assim for exigido, ao heroísmo, e até ao martírio. Não quero, não é isso, não sou um pessimista ou fatalista, mas não vou me furtar se esse for o caminho. Psichari hesita e sintetiza esses opostos: o ideal oferece a visão da felicidade, sim, mas também me obriga a assumir o papel que a sociedade e a história reservaram para mim. Impossível uma solução? Ter um ideal em um mundo onde muitos passam fome não significa que ser feliz seja egoísmo. Ser feliz e ter prazer devem, pois, ser uma exigência do ideal, e  não um parêntesis, um momento em que deixamos o ideal de lado.

Ter um ideal não significa negar as lutas materiais, principalmente a luta dos e pelos excluídos, que passam fome, contra as injustiças econômicas, nem por isso significa que tudo que desejamos se resume à economia. A economia não é tudo. Não desejamos para nós ou para todos apenas automóveis, casas luxuosas, dinheiro, e sim um projeto mais complexo de vida, que envolva relações humanas, aspectos comportamentais, atitudes, novas relações com a natureza e com o corpo, consigo mesmo, espiritualidade, capacidade de conviver com as diferenças. Nossos sonhos e nossa proposta de vida não coincidem com o capitalismo, com seus sonhos e propostas. Não aceitamos os sonhos que nos são propostos pela vida capitalista. É certo que o ideal não é tudo de um lado, mas do lado oposto a economia também não é. Nosso sonho não pode ser explicado como todo o luxo repartido para todos. Não é isso.

Há um livro coletivo (Baroni, 2011) que chama de Utopia o movimento cristão atual no Canadá. Em que sentido eles são utópicos? Por ser um movimento mais amplo do que a luta trabalhista. A rigor, um cristianismo apenas marxista ortodoxo estaria mais restrito ao economicismo, e também na prática aos movimentos trabalhistas, reivindicações salariais, organização da classe operária, valorização do trabalho, justiça social. Uma igreja mais utópica não negaria essa frente, mas abriria o leque para comunidades, por novas relações entre os gêneros, novas relações com outras religiões, discussão na teoria e propostas práticas de uma vida melhor, melhor no sentido amplo, que envolva principalmente novas relações humanas, cotidiano, arte, reflexão e espiritualidade, etc.; mais próxima da juventude e do meio estudantil, e também do ambiente ideológico da universidade. A universidade moderna recebe a incumbência de promover toda a cultura humana, sem preconceitos, inclusive, portanto, a cultura popular; a discussão ampla, apoiada em todos os recursos construtivos e críticos do mundo universitário. A juventude de hoje pressiona para que a Igreja tenha uma posição de liderança na construção de um novo mundo e de uma nova vida, não só um mundo que saiba dividir o pão, mas que seja a transformação da matéria pela presença viva da fé.

Livros citados e indicados: 

BARROS, Marcelo. Para onde vai nuestra América. Espiritualidade socialista para o século XXI. São Bernardo do Campo, Nhanduti, 2011.

SZAKI, Jerzy. Utopias, ou a felicidade imaginada. Rio de Janeiro, Paz e terra,1972.

TEIXEIRA, Luiz G. Utopia da sexualidade. São Paulo, Baraúna, 2015.

BARONI, Lise, BEAUDIN, Michel; BEAULIEU, Céline; BERGERON, Yvonne; COTÉ, Guy. L’utopie de la solidarité au Québec. Montréal, Paulines, 2011.

Existe um poema de Psichari, que consta na coletânea de “Os mais belos poemas de todos os tempos” (Rose Marie Muraro e Frei Raimundo Cintra, 3a ed., Rio de Janeiro, José Olímpio, 1976), cuja ideia central poderia ser explicada assim: Senhor, meu coração anseia por ser feliz e ter prazer, mas não a qualquer custo. Se estiverem fundados na mentira, estou disposto até, se assim for exigido, ao heroísmo, e até ao martírio. Não quero, não é isso, não sou um pessimista ou fatalista, mas não vou me furtar se esse for o caminho. Psichari hesita e sintetiza esses opostos: o ideal oferece a visão da felicidade, sim, mas também me obriga a assumir o papel que a sociedade e a história reservaram para mim. Impossível uma solução? Ter um ideal em um mundo onde muitos passam fome não significa que ser feliz seja egoísmo. Ser feliz e ter prazer devem, pois, ser uma exigência do ideal, e  não um parêntesis, um momento em que deixamos o ideal de lado.

Ter um ideal não significa negar as lutas materiais, principalmente a luta dos e pelos excluídos, que passam fome, contra as injustiças econômicas, nem por isso significa que tudo que desejamos se resume à economia. A economia não é tudo. Não desejamos para nós ou para todos apenas automóveis, casas luxuosas, dinheiro, e sim um projeto mais complexo de vida, que envolva relações humanas, aspectos comportamentais, atitudes, novas relações com a natureza e com o corpo, consigo mesmo, espiritualidade, capacidade de conviver com as diferenças. Nossos sonhos e nossa proposta de vida não coincidem com o capitalismo, com seus sonhos e propostas. Não aceitamos os sonhos que nos são propostos pela vida capitalista. É certo que o ideal não é tudo de um lado, mas do lado oposto a economia também não é. Nosso sonho não pode ser explicado como todo o luxo repartido para todos. Não é isso.

Há um livro coletivo (Baroni, 2011) que chama de Utopia o movimento cristão atual no Canadá. Em que sentido eles são utópicos? Por ser um movimento mais amplo do que a luta trabalhista. A rigor, um cristianismo apenas marxista ortodoxo estaria mais restrito ao economicismo, e também na prática aos movimentos trabalhistas, reivindicações salariais, organização da classe operária, valorização do trabalho, justiça social. Uma igreja mais utópica não negaria essa frente, mas abriria o leque para comunidades, por novas relações entre os gêneros, novas relações com outras religiões, discussão na teoria e propostas práticas de uma vida melhor, melhor no sentido amplo, que envolva principalmente novas relações humanas, cotidiano, arte, reflexão e espiritualidade, etc.; mais próxima da juventude e do meio estudantil, e também do ambiente ideológico da universidade. A universidade moderna recebe a incumbência de promover toda a cultura humana, sem preconceitos, inclusive, portanto, a cultura popular; a discussão ampla, apoiada em todos os recursos construtivos e críticos do mundo universitário. A juventude de hoje pressiona para que a Igreja tenha uma posição de liderança na construção de um novo mundo e de uma nova vida, não só um mundo que saiba dividir o pão, mas que seja a transformação da matéria pela presença viva da fé.

Livros citados e indicados: 

BARROS, Marcelo. Para onde vai nuestra América. Espiritualidade socialista para o século XXI. São Bernardo do Campo, Nhanduti, 2011.

SZAKI, Jerzy. Utopias, ou a felicidade imaginada. Rio de Janeiro, Paz e terra,1972.

TEIXEIRA, Luiz G. Utopia da sexualidade. São Paulo, Baraúna, 2015.

BARONI, Lise, BEAUDIN, Michel; BEAULIEU, Céline; BERGERON, Yvonne; COTÉ, Guy. L’utopie de la solidarité au Québec. Montréal, Paulines, 2011.

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