Juventudes e Bíblia: Leitura que aprisiona ou Leitura que liberta?

Juventudes e Bíblia: Leitura que aprisiona ou Leitura que liberta?
10 de novembro de 2017 João Paulo dos Santos de Araujo

Juventudes e Bíblia: Leitura que aprisiona ou Leitura que liberta?

Por João Paulo dos Santos de Araujo

As juventudes com todo o seu vigor e sua sede de liberdade surpreende-nos, quando ao analisar o contexto religioso/cristão da atualidade, tanto no meio protestante/evangélico quanto no meio católico, o que observamos é uma grande quantidade de jovens com visões fundamentalistas, conservadoras e em muitas vezes, promovendo discursos que exterminam a vida do outro. O centro da Religião Cristã é Jesus Cristo e aquilo que sabemos sobre este Homem de Nazaré, judeu, pobre, que perdoava pecados e perambulava pela Galileia está contido na Bíblia. Muito da Bíblia foi perdido ou substituído por doutrinas. A partir dessa análise, é possível nos perguntar: Onde está a Bíblia na vida das Juventudes?

A relação Deus-mercadoria que existe nas prateleiras de muitas religiões nos dias de hoje vem chamando a atenção de muitos jovens. Isso é preocupante levando em consideração que essa relação é altamente superficial e interesseira. A necessidade de uma vida melhor, de um “milagre” espiritual, uma cura ou realidades dessa natureza em troca de uma “aliança” com esse Deus, obriga-O a conceder o que se deseja/precisa. Nesse contexto, Deus se torna mero objeto nas mãos humanas, como uma mercadoria na prateleira de um supermercado, ao chegar o momento em que esse supermercado não atende mais a demanda, ele é trocado facilmente. Essa “Aliança” com Deus implica atitudes bizarras e que vão de encontro à própria Palavra de Deus. Exemplo disso é um movimento que vem crescendo dentro da Igreja Católica Apostólica Romana em que os fiéis (em sua maioria jovens) se consagram à Deus pelas mãos de Maria e em seguida passam a usar nos pulsos ou nos tornozelos algo que eles denominam de cadeia ou corrente junto com um cadeado. A proposta em si é dizer que são escravos de Maria. Certamente Maria não gostaria de ter escravos, nem seu Filho Jesus, afinal como nos aponta o apóstolo Paulo na carta aos Gálatas “É para a liberdade que Cristo nos libertou. Permanecei firmes, portanto, e não vos deixeis prender de novo ao jugo da escravidão.” (Gl 5,1)

Na época de Jesus, dentre tantas representações de conservadorismo e fundamentalismo religioso, como é o caso dos discursos de ódio às prostitutas, aos bandidos, aos que vivem em situação de miséria, aos samaritanos e a outros que não pertencem à religião judaica, eis que aparece no Tempo e na História um Homem,    proveniente da religião judaica e que peregrinava pelas terras da Galileia, acolhia e sentava-se à mesa com os pecadores, perdoava os pecados que eles tinham cometido, prometendo que o Reino de Deus era deles.

O grupo de seguidores d’Ele espalharam Seu nome e sua fama adiante, ensinando a amar como Ele os ensinou. Deus se faz ser humano para ensinar ao ser humano a SER humano numa prática de caridade.

Husserl, filósofo contemporâneo propõe uma epoché, isto é, suspender os juízos, “ir ao encontro das coisas em si mesmas” (HUSSERL, 2008, p.17), ou seja, é preciso redescobrir a essência do Cristianismo, viver a perspectiva ecumênica como saída para a construção de um Reino de amor, entendendo as primeiras comunidades cristãs como proposta para uma vivência nos dias de hoje, com partilha e fraternidade, ensinadas por Jesus como solução para uma harmonia social. Nesse sentido, o CEBI Jovem (Centro de Estudos Bíblicos) busca trilhar um caminho diferente da “onda conservadora”, voltando às coisas mesmas, isto é, à Palavra de Deus, à prática do Evangelho, à vivência em comunidade e sobretudo à acolhida de todas e todos em meio à comunidade Cristã. As Juventudes são convidadas a viver essa dinâmica que Jesus propõe.

Em suma, existe um sério risco em usar a Bíblia para levantar discursos de ódio e é importante ressaltar ainda que Jesus foi assassinado pelo Império Romano por influência dos sacerdotes do templo de Jerusalém com base em textos bíblicos do Primeiro Testamento e que o próprio Jesus também defendia suas ideias como o projeto do Reino de Seu Pai utilizando de textos do Primeiro Testamento. A pergunta norteadora deve ser: O uso da Bíblia é para promover a vida ou a destruição e a morte? É necessário optar entre os textos que Jesus utilizava para defender a vida ou os textos que levaram Jesus à morte. Queridos/as jovens, “Escolham, pois, a vida…” (Dt 30,19).

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

Bíblia de Jesuralém. São Paulo: Paulus, 2002.

HUSSERL, E. A crise da humanidade europeia e a filosofia. Porto Alegre; EDIPUCRS, 2008