Juventudes e religiosidade em tempo de mídias sociais digitais

Juventudes e religiosidade em tempo de mídias sociais digitais
9 de novembro de 2017 Ricardo Alvarenga

Juventudes e religiosidade em tempo de mídias sociais digitais

Por Ricardo Alvarenga

Desde os primórdios da civilização humana, mulheres e homens sentiram a necessidade de se comunicar. Assim, ao longo do tempo foram criadas ferramentas, técnicas e suportes que pudessem potencializar a comunicação entre as pessoas. Evoluímos das representações na parede das cavernas até as diversas modalidades de expressão das mídias sociais digitais (blogs, microblogs, sites de rede social e de compartilhamento de vídeos e imagens).

O desenvolvimento das tecnologias de comunicação, particularmente da rede mundial de computadores (internet), sem sombra de dúvidas, influenciou o processo de constituição de um novo cenário de convivência humana. Essas tecnologias possibilitaram a criação de um ambiente digital, compreendido pelos principais pensadores contemporâneos da comunicação como ciberespaço.

Durante o 36º Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação, que aconteceu em Manaus, na Universidade Federal do Amazonas em setembro de 2013, Lucia Santaella, importante pesquisadora e teórica da comunicação ministrou uma conferência sobre o DNA das redes sociais digitais, na qual afirmou que o ciberespaço, deve ser entendido como “uma extensão do espaço público, ou melhor, um espaço público complementar. Assim como nas praças e nas ruas, as pessoas identificam-se, apropriam-se e usam esses espaços complementares para expressar-se e conviver”.

Portanto, o ambiente digital não deve ser entendido como um mundo paralelo ou meramente virtual, ele constitui-se como parte integrante da realidade cotidiana de grande parcela da população mundial, especialmente dos mais jovens. Essa é uma compreensão importante para nossa reflexão sobre a influência das novas tecnologias de comunicação sobre a religiosidade das juventudes.

Refletir sobre a relação dos jovens com as religiões na sociedade contemporânea configura-se como uma tarefa árdua dada a complexidade e as múltiplas possibilidades de compreender as culturas juvenis. Mais do que nunca é preciso olhar para o fenômeno juvenil contemporâneo a partir da sua diversidade e pluralidade.

É possível observar que, diante dos recursos tecnológicos e digitais que possibilitam maneiras de ser visto na internet, no ciberespaço os jovens compartilham novas maneiras de ser e conviver na sociedade contemporânea. Isso tem reflexo direto na identificação por parte dos jovens, para com as comunidades de pertencimento religioso.

A Internet como extensão do espaço público favoreceu uma nova compreensão do conceito de comunidade que até então podia ser entendido em dois sentidos, o primeiro que corresponde ao lugar físico, relacionado a proximidade em que as pessoas vivem; o segundo tem relação com os grupos sociais, com interesses comuns.

Essa nova compreensão de comunidade que emerge no contexto atual, é o de comunidade virtual, que se constituem a partir de interesses próprios que geram engajamento, do qual resulta o sentimento de pertencimento. Especialmente os jovens se apropriam dessa possibilidade de constituição de comunidades no ciberespaço, especialmente porque na maioria das plataformas de redes sociais digitais, como o Facebook, por exemplo, já existe a possibilidade de se criar grupos de interesse públicos ou com certo nível de privacidade.

Grande parte dos jovens de hoje estão com os pés fincados nessa realidade das comunidades digitais, da comunicação em rede. Comunicar-se por meio das mídias sociais digitais, configura-se não apenas como uma questão instrumental para as juventudes, mas como elemento constituinte do novo jeito do jovem ser e interagir.

Essa presença quase que constante dos jovens no ciberespaço proporciona a interação e a relação com outras realidades, bem como outras visões de mundo. Consequentemente os jovens acabam conhecendo e se identificando com outras expressões religiosas, isso é possível devido às relações estabelecidas através da internet. Desse modo, os jovens acabam superando e afastando-se das tradições religiosas familiares, em busca de outras experiências.

No Mundo Virtual, em que os jovens são os protagonistas por excelência, onde se proliferam as comunidades virtuais, em que é possível estar em diálogo com outras expressões religiosas, onde se constitui um novo modelo de relação com o sagrado, concretiza-se a ciber-religião e a virtualização das práticas religiosas, que claramente alcançam grande parcela dos jovens, nativos desse espaço público complementar.

Vivemos tempos de profundas ressignificações nos modos de ser e estar no mundo por meio das modernas tecnologias de comunicação, o campo das experiências religiosas também passa por essas transformações. Jorge Miklos, importante pesquisador e teórico da interfase comunicação e religião, afirma que “se o ícone dos nossos tempos, a internet, tornou-se também sinônimo de fé, a conexão virtual substitui o religare”.

Referências Bibliográficas

BARBOSA, Marialva; MORAIS, Osvando J. de (Orgs.) Comunicação, cultura e juventude. São Paulo: Intercom, 2010. 536 p.

MIKLOS, Jorge. O sagrado nas redes virtuais: a experiência religiosa na era das conexões – entre o midiático e o religioso. In: BELLOTTI, Karina Kosicki; CUNHA, Magali do Nascimento (Orgs.) Mídia, Religião e Cultura: percepções e tendências em perspectiva global. Curitiba: Editora Prisma, 2016. p. 63 – 78.

SANTAELLA, Lucia. O DNA das redes sociais digitais. In: BARBOSA, Marialva; MORAIS, Osvando J. de (Orgs.) Comunicação em tempo de redes sociais: afetos, emoções, subjetividades. São Paulo: Intercom, 2013. p. 23 – 43.