O rock como nova possibilidade para expressão religiosa juvenil em Belo Horizonte

O rock como nova possibilidade para expressão religiosa juvenil em Belo Horizonte
7 de novembro de 2017 Flávio Lages Rodrigues

O rock como nova possibilidade para expressão religiosa juvenil em Belo Horizonte

Por Flávio Lages Rodrigues

Desde os anos 80 participo do cenário do rock pesado no Brasil, no primeiro momento como quem curte e faz consumo desse estilo musical. Já na segunda fase participei não apenas como quem curte, mas também como produtor desse estilo musical como baterista em duas bandas de Death Metal que se iniciou no final da década de 80 e perdura até hoje. Já no aspecto religioso participei da cena alternativa e underground nas tribos urbanas em duas fases: na secular e na cristã. Ambas me chamam bastante a atenção devido a paixão e devoção que os jovens e adolescentes que estão inseridos nessas tribos tem pelo rock.

© Caverna de Adulão

© Caverna de Adulão

Ao iniciar a pesquisa acadêmica[1] no curso de Teologia em 2000, percebi o quanto em Belo Horizonte a década de 80 foi fértil para várias bandas de rock pesado que se instalavam na cidade vindo de várias partes do Brasil para assinar contratos com a Gravadora Cogumelo. Bandas que de outra forma não teriam seus trabalhos gravados em disco de vinil e posteriormente em CD’s entre elas: Overdose, Chacal, Sarcófago e a mais conhecida no mundo, o Sepultura.

Belo Horizonte nessa época foi considerada a “Capital do Rock” com bandas de vários estilos e subgêneros do rock. O ápice desse reconhecimento ocorreu em 1994 com o BHRIF (Festival Internacional de Rock de Belo Horizonte). Este festival trouxe a cidade várias bandas nacionais e internacionais com shows na Praça da Estação e na Serraria Souza Pinto com entrada gratuita.

Na época da pesquisa teológica percebi que Belo Horizonte estava marcada quanto ao rock correndo por fora do eixo Rio/São Paulo não apenas com a cena alternativa e underground secular tão forte, mas também com as bandas alternativas e underground’s cristãs e com o início das comunidades e igrejas que trabalhavam com jovens envolvidos com o rock e as tribos urbanas. Muitas dessas comunidades e igrejas não eram bem vistas pelas igrejas evangélicas tradicionais e por vários pastores e líderes eclesiásticos. Somando-se a isso havia o radicalismo por parte dos próprios membros das tribos urbanas seculares e que não aceitavam qualquer ligação entre o rock e a religião. A ideologia dessas tribos permeava um grande radicalismo e eram contrárias as instituições sociais entre elas: a família, religião e o estado.

A Comunidade Caverna de Adulão[2] em Belo Horizonte é uma dentre outras na cidade e também no Brasil que trabalham com jovens e adolescentes que estão nas tribos urbanas headbangers na atualidade, sua gênese ocorre em 1992 mesma época que a cidade se consolidava como celeiro de bandas e capital do rock. Igrejas e comunidades cristãs que não aceitavam este tipo de trabalho com jovens que estavam inseridos nessa cultura juvenil posteriormente começaram também a desenvolver trabalhos específicos para essa faixa etária bem como para várias tribos urbanas.

© Caverna de Adulão

© Caverna de Adulão

Podemos ver que tanto a religião como a cultura, usam roupagens e elementos utilizados por outros grupos sociais e juvenis de décadas passadas para dar um novo sentido ou significado as suas práticas religiosas. Ideologias são resgatas, posturas e elementos estéticos de alguns grupos são relançados como algo a ser seguido, ou seja, viram moda para toda a sociedade. Essas releituras abrem possibilidades para novas expressões religiosas que seriam impensadas no âmbito religioso há alguns anos atrás. Portanto a pós-modernidade traz elementos totalmente novos e perspectivas não pensadas antes, com novas práticas religiosas e culturais nos grandes centros urbanos.

A abertura da Comunidade Caverna de Adulão para os jovens adeptos da música rock que estão inseridos nas tribos urbanas, sinaliza para a riqueza das expressões religiosas e também para as novas formas de igreja na pós-modernidade. A cultura neste caso deixa de ser obstáculo para adesão de novos membros na igreja e passa a ser aliada pela sensibilidade de seus líderes religiosos. Estes utilizam elementos da cultura que ajudam os jovens a desenvolverem sua espiritualidade com significados e linguagens próprias.

Os padrões ideológicos, a postura e a estética desses pequenos grupos não eram difundidos e aceitos na sociedade. Isto fica evidente com alguns elementos estéticos que incorporaram a vida cotidiana das pessoas. As tatuagens, os cabelos longos e coloridos, os moicanos, os piercing’s, os alargadores, as roupas pretas, as camisas de bandas de rock, e outros elementos que eram discriminados na sociedade, posteriormente, além de virar moda, acabaram por se transformar em ideal de juventude perseguido por toda sociedade. O que era uma identidade de determinados grupos punk’s ou headbangers acabou por estabelecer como moda, assim, os ideais que constituíram esses grupos se diluíram com o passar dos anos, com sua difusão na mídia e na cultura de massas.

Para Michel Maffesoli (2010) a pós-modernidade é marcada pelo sentimento de estar juntos e de pertencimento, pela socialidade, afeto e tudo que leve o indivíduo a partilhar os mesmos ideais. Para Maffesoli as “tribos” são metáforas que apontam para uma sociabilidade que ocorre com o desinteresse institucional e político na atualidade que proporcionam a ritualização das tribos cada vez mais intensa.

Esses rituais são as práticas realizadas no grupo com repetições que acabam por torná-lo mais forte pela confiança mútua e também pelo sentimento de pertencimento investido a cada membro. O ritual dentro dos grupos religiosos pode oferecer pistas para a composição das estruturas sociais. O rock pode ser um ritual dentro da Comunidade Caverna de Adulão, não no sentido teológico em questão, mas no sentido sociológico e antropológico da repetição de práticas.

© Caverna de Adulão

© Caverna de Adulão

Assim tanto o rock quanto a religião estão carregados de paixão, devoção e uma prática diária aos que a eles se aderem. Ambos lotam lojas, galpões, cinemas, grandes estacionamentos, praças e estádios de futebol. A construção desses dois elementos culturais mostra que não há limites para expressões culturais juvenis na pós-modernidade. O rock abriu a inúmeras fusões de ritmos, de ideias, e a efervescência que ocorreram a partir dos anos 90, demonstram que a cultura alternativa acabou por quebrar o radicalismo que havia entre os jovens envolvidos na cena underground com o rock e as tribos urbanas. O movimento alternativo abre também possibilidades para a manifestação cultural mais ampla e dinâmica, o que dá mais força para as igrejas que se apropriam de elementos culturais como o rock em suas práticas religiosas. A Comunidade Caverna de Adulão faz isso de forma bem peculiar e as Ciências da Religião pode contribuir com seu caráter interdisciplinar no diálogo com outras áreas de conhecimento como a sociantropologia na compreensão da manifestação religiosa juvenil em nossos dias.

[1] Para ver mais detalhes sobre o cenário alternativo e underground em Belo Horizonte e no Brasil ver as obras “O rock na evangelização” e “A liberdade do Espírito na vida e no rock”.

[2] Esta comunidade é fruto de pesquisa de mestrado em Ciências da Religião no PPGCR da PUC Minas com o título “O FENÔMENO RELIGIOSO ENTRE OS JOVENS NAS TRIBOS URBANAS: uma análise da relação cultura e religião na Comunidade Caverna de Adulão em Belo Horizonte”. O que poderá contribuir na análise de como ocorre a construção sociológica nas práticas religiosas entre os jovens roqueiros que estão nas tribos urbanas.


Referências

MAFFESOLI, Michel. O tempo das tribos: o declínio do individualismo nas sociedades de massa. 4. ed. Rio de Janeiro. Forense Universitária, 2010.
RODRIGUES, Flávio Lages. A Liberdade do Espírito na vida e no rock. Rio de Janeiro: MK, 2007.
RODRIGUES, Flávio Lages. O rock na evangelização. Rio de Janeiro: MK, 2006.