Juventudes, Religião e Política, entrevista com Áurea Carolina

Juventudes, Religião e Política, entrevista com Áurea Carolina
1 de novembro de 2017 Jonathan Felix

Juventudes, Religião e Política

Entrevista com Áurea Carolina

Por Jonathan Félix

Nesta edição, a Senso entrevistou a Áurea Carolina, Cientista Social e mestra em Ciência Política pela UFMG. Também é especialista em gênero e igualdade pela Universidade Autônoma de Barcelona, educadora popular e ativista de movimentos feministas, negros, juvenis e da cidade. É uma das fundadoras do Fórum das Juventudes da Grande BH.

Atualmente vereadora em Belo Horizonte pelo PSOL MG/MUITAS e foi a mais votada no último pleito eleitoral. Para ela, o acesso à educação e cultura são mecanismos importantes na construção de juventudes ativas e na superação de preconceitos. Outro ponto abordado foi o crescente desrespeito às diversidades e a luta para combatê-lo. A seguir, você confere a íntegra da entrevista:

Áurea Carolina © Beto Staino

Áurea Carolina © Beto Staino

Senso: As juventudes, são muitas, como você percebe a importância delas na sociedade atual?

Áurea: As juventudes conseguem, com a sua diversidade e singularidade projetar mudanças de perspectiva na sociedade ou fazer permanecer valores e práticas na sociedade. Depende muito de como as juventudes acessam a educação, a cultura, os direitos sociais. Isso vai determinar a possibilidade delas terem uma atuação mais avançada de questionamento das desigualdades, do conservadorismo, ou reforço das estruturas. Por muito tempo se concebeu as juventudes no singular, uma juventude que seria revolucionária, a esperança do futuro que poderia contestar as normas da sociedade. Ou ao contrário, seria apática, seria massa de manobra, irresponsável, individualista… E nós sabemos que as juventudes podem ser tudo isso, e não cabe uma idealização, nem uma essencialização.

Por isso que a gente tem que falar no plural, pensando na complexidade das diferentes formas de pertencimento. E aí, são muitas juventudes, porque nós temos diferenças de classe, de gênero, de orientação sexual, étnico-racial, de território, de religiosidade…e isso que forma o mosaico das juventudes. A condição geracional das pessoas jovens é uma grande oportunidade para o debate, se a gente pensar nas transformações sociais com o envolvimento das juventudes. Se são jovens que têm sistematicamente seus direitos negados, sobretudo os jovens negros e pobres, isso pode representar a perpetuação de um ciclo histórico de opressão da população negra e periférica no Brasil.

Senso: O Estatuto da Juventude, no eixo quarto, garante às juventudes o direito à igualdade, oportunidades e diversidade, permitindo que os mesmos não sejam discriminados por motivo de orientação sexual, etnia ou religião. Quais políticas poderiam garantir a diversidade religiosa às juventudes?

Áurea: Primeiramente, um Estado realmente laico, que consiga abrigar as diversas manifestações religiosas e promover condições de convívio entre essas religiões, em um ambiente democrático, respeitoso e plural. E isso vale para todos os segmentos. Especificamente para a juventude, penso que é importante ter acesso a uma educação que aborde a laicidade do Estado, e há a necessidade de reconhecimento de todas as expressões religiosas e das pessoas que não têm religião também. E isso é básico pra uma sociedade minimamente inclusiva, uma sociedade em que ninguém vá sofrer violência em função do seu pertencimento religioso ou por não ter nenhuma religião. Para os jovens conversarem abertamente na escola, dentro de casa, na comunidade, ter acesso a mídias que abordem isso de maneira saudável, é muito importante pra formação político-cidadã. As políticas educacionais e de cultura, têm um papel fundamental nesse sentido. Não o de promover religiões específicas, mas de abordar as religiões mais em um sentido sociológico,  o que representa a diversidade religiosa existente na sociedade e uma perspectiva de diálogo inter-religioso para aquelas pessoas que tem religião. Seria muito importante que as próprias religiões valorizassem essa interação, que tivessem atividades com jovens, crianças, para conhecerem as outras manifestações religiosas e aprenderem com isso que todas são legítimas, que todas têm um valor em si.

Senso: Ser religioso/a e ser político/a são opções contraditórias?

Áurea: Não. Inclusive eu acho que a política é uma dimensão da vida social, impossível de ser dissociada de qualquer outra. Para aquelas pessoas religiosas, a política necessariamente é também uma maneira de organizar a vida, de compreensão de mundo. Agora, é importante ter um discernimento, sobre como esses valores religiosos vão orientar a vida de uma pessoa e como que, politicamente, em uma reflexão sobre o Estado, sobre políticas públicas, essas pessoas devem atuar. E aí, novamente a laicidade do Estado deve ser um princípio.  Não significa que a pessoa vai se desvincular dos seus valores. Isso é impossível, pois ela organiza a sua visão de mundo pela sua religiosidade. Mas, a partir do momento que ela atua no espaço público, na diversidade, não é possível que esses valores religiosos sejam colocados como o parâmetro para determinar o que vai servir para todo mundo. Então, uma questão muito comum, a percepção sobre o aborto, que é um tema que gera muitas divergências, muitas complicações no debate religioso em geral. Uma pessoa religiosa, pode perfeitamente, compreendendo que nem todas têm os mesmos valores morais e espirituais que ela, considerar que o direito ao aborto é valido, é legitimo e uma questão de saúde pública importante. Ainda que aquela pessoa não aceite para si realizar um aborto, por diferentes razões, ela não pode querer impor essa percepção como válida para todo mundo. Aí é que está o limite entre a afetação da religião e a política. A política, pra ser democrática, precisa sempre ser mais abrangente, mais inclusiva.. Esse é um exercício difícil, porque nós ainda vivemos sobre um domínio das religiões querendo controlar a política.

Créditos Patrick Arley

Áurea Carolina © Patrick Arley

Senso: Há uma crescente onda de violência e ataques às religiões que não são de matrizes judaico-cristãs, em outras cidades e Estados do Brasil. Como você percebe esse movimento? Como ele pode ser pensado no âmbito político?

Áurea: Essa violência está pautada em um racismo religioso, uma feição de um racismo estrutural que organiza a sociedade brasileira, desde a invasão desse território que depois se tornaria o Estado Brasileiro. Eu percebo que algumas religiões utilizam do seu poder político e econômico pra tentar impor visões de mundo e valores sobre toda a sociedade, e direcionam essa tentativa de controle para alguns grupos específicos, e isso tem haver com as escolhas que essas religiões fazem sobre os temas que consideram que são mais caros pra sua manutenção. Isso tem haver com o controle da sexualidade, controle de o que se seria legítimo ou não na vida religiosa, dentre outras coisas. Nesse contexto, as religiões de matriz africana, por terem uma outra referência de cosmologia, de relação com o sagrado, com as criaturas e outras formas de vivencia em comunidade, são perseguidas e criminalizadas pelo viés doutrinário e controlador, que determinadas religiões querem impor. Também há uma relação diferente nas religiões de matriz africana com relação à sexualidade e com os corpos. Não é aquela relação compreendida a partir da chave da culpa, do pecado, que é tão central pra algumas religiões de matriz judaico-cristã. Como isso é estruturante do pensamento e da teologia dessas religiões judaico-cristãs, há o controle sobre a sexualidade e sobre os corpos. Uma maneira de ampliar o poder das religiões judaico-cristãs é querer desqualificar ou demonizar a maneira como as religiões de matriz africana abordam esse tema, da sexualidade e dos corpos. E mais, tem haver com o racismo, porque, no Brasil, nós estamos longe de superar problemas históricos de exclusão da população negra e da população indígena também. Ao contrário, há um acirramento da violência contra essa população. A perseguição aos terreiros, é uma das formas encontradas para reprodução do racismo, mesmo que não seja consciente, que não seja declarado, mas a gente sabe que é assim. Da mesma forma como o samba, a capoeira e outras expressões culturais da população negra, que foram criminalizadas, os terreiros também sofreram essa perseguição, e continua sendo assim. A gente vive tempos difíceis, porque se tenta criar um imaginário que são religiões nocivas que não deveriam existir, e logo se crê que essas comunidades não deveriam existir e isso tem haver com tentativa de controle e dominação.

Senso: Quais garantias temos de um Estado verdadeiramente laico no contexto de crescente conservadorismo e da existência da bancada dita cristã na política?

Áurea: Assim como é muito difícil ver a efetivação dos direitos humanos e de outros princípios da constituição de respeito à diversidade, dignidade a todas as pessoas a laicidade está pra acontecer um dia ainda. Eu acho que a única forma que nós temos para chegar lá, são as lutas democráticas e pressionando todos os espaços, para que sejam cada vez mais inclusivos. Representatividade é um eixo importante para nós. Quanto mais tivermos mulheres, pessoas negras, de diferentes religiões, indígenas, jovens, idosos, pessoas com deficiências, de as origens, ocupando os espaços de poder, mais poderão ser equilibradas essas forças sociais. E a gente precisa também atuar para reduzir o poder econômico sobre as instituições, porque essas religiões que estão entrando no Estado para fazerem valer as suas posições, estão interessadas nos ganhos econômicos que elas podem ter como negócios. Negócios esses que controlam meios de comunicação, organizações sociais e outras instituições rentáveis. Então, existe o uso da fé pra servir interesses capitalistas. Dessa forma, destruir a laicidade do Estado é condição para essas religiões que estão nessa pegada, buscarem ter mais poderio.

Senso: Para alguém que está no legislativo como se articula direito à diversidade religiosa e Estado laico?  

Áurea : Nosso mandato tem defendido que todas as religiões possam realmente ser valorizadas nessa sociedade, que inclusive, aquelas que são mais ameaçadas, as religiões de matriz africana, sejam afirmadas com políticas públicas de reconhecimento, de preservação de patrimônio. Mas a gente encontra muita resistência, por conta da ofensiva de parlamentares fundamentalistas que estão abrigadas nessa banca dita cristã, que existe aqui hoje, que tem mais da metade das cadeiras da Câmara Municipal de Belo Horizonte. Portanto, é um grupo que controla muito a relação com a Prefeitura em função de ser base de apoio do governo. A gente percebe essa influência em uma decisão recente tomada pelo Prefeito Alexandre Kalil, que foi a retirada do termo gênero e da restrição da noção de diversidade nas atribuições da Secretaria Municipal de Educação, que, inclusive, não terá mais a competência de análise de material didático que tratem das questões de gênero, diversidade sexual e mesmo de literatura afro-brasileira para serem distribuídos nas escolas.

Essa decisão, tomada por decreto, é fruto de uma pressão desses parlamentares fundamentalistas que estão aqui na câmara e isso é muito evidente, isso é declarado. Esses são grupos que manipulam culturalmente o imaginário e os símbolos para conseguirem fazer prevalecer as suas posições. Não é atoa que estão preocupados com a educação e com a cultura, porque eles sabem que por ali eles podem perder muito terreno. Imagina se todo mundo descobrisse a potência da democracia e da convivência das diferenças? Isso é devastador para os interesses econômicos desses grupos. A laicidade é uma moeda também, eles não desconhecem o sentido da laicidade, mas eles corrompem essa ideia para se perpetuar no poder.

Senso: Costumamos dizer que em tempos de intolerância, dialogar é revolucionário. Quais as contribuições as juventudes religiosas (candomblecistas, cristãos, budistas, espiritas e outras) podem trazer para o movimento de transformação das cidades? 

Áurea: Se essas juventudes se encontrassem e pensassem juntas como terem ações compartilhadas, pra além das questões religiosas, ações culturais, de ocupação da cidade, discussão de direitos, isso seria uma demonstração de maturidade e engajamento real com a democracia. Acho que aqueles grupos que estão mais atentos com a importância desse diálogo, têm um papel fundamental de fazerem esse primeiro esforço de aproximação e, com isso, tentarem mobilizar outros jovens. E na cidade principalmente, a cidade depende de uma atuação das pessoas no cotidiano, a política da proximidade, que faz sentido nas comunidades. Quando as juventudes se organizam por aí, a gente tem muito mais força, muito mais condições de envolver outros setores. Eu sou sempre esperançosa de ver isso acontecer, e acho que isso seria uma mensagem revolucionária, para trazer pessoas adultas, mais endurecidas nesse debate, para repensarem suas posições.

Senso: O Ensino Religioso Laico pode dar uma contribuição para a construção de uma cultura de paz?

Áurea: Eu acho importante desde que em uma perspectiva antropológica, diversa e não como uma formação de uma doutrina específica. Deveria ser um Ensino Religioso no sentido amplo e público. Para existir, deveria ser um conteúdo de compreensão sobre as diversas religiões, como ao longo do tempo a sociedade se organizou a partir das religiões.  Como eu não acredito que atualmente a gente vá conseguir fazer o debate com tanta generosidade, publicamente nas escolas, eu acho que não deveria Ensino Religioso nas escolas de nenhuma maneira. Ainda que se preveja uma lei que o Ensino Religioso deverá tratar das diversas religiões, na prática, lá na ponta, as religiões dominantes vão capturar esse processo.

Estamos vivendo tempos muito sombrios, e qualquer brecha que a gente abrir nesse momento pode se voltar contra nós. Estamos vivendo uma ameaça permanente de asfixia do debate público sobre todas essas diversidades.

Áurea Carolina e Jonathan Félix © Gabinetona

Áurea Carolina e Jonathan Félix © Gabinetona

Senso: Muito se discute a necessidade da representatividade na política (mulheres, negros, lgbts). Sendo você alguém eleita para um cargo público, por quais motivos acredita que a representatividade religiosa é tão questionada?

Áurea: Porque a religiosidade não deve ser a primeira chave de ativação da política. A política atravessa tudo, inclusive as religiões, mas a religião não deve pautar a política no sentido de não interferir com seus valores e posições sobre vida pública. Então, representatividade religiosa é uma coisa questionada.

Seria bom que nos espaços de poder a gente tivesse uma diversidade de pertencimento religioso, sempre com outras marcações identitárias, para que as várias perspectivas pudessem comparecer no debate público. Se a gente tivesse aqui na câmara pessoas de inúmeras religiões, talvez tivéssemos um ambiente mais propício para defender a laicidade.  Mas hoje, como temos um predomínio de mais da metade de pessoas que utilizam a religião pra atuarem politicamente aqui dentro, temos uma situação periclitante.

Senso: É preciso compreender a pluralidade religiosa, principalmente em um país multicultural como o Brasil. Contudo, um dos atuais desafios do país tem sido o de conseguir promover o diálogo, sobretudo em temáticas biopolíticas (políticas do corpo, gênero, sexualidade, reprodução humana, manipulação genética de organismos vivos, uso de recursos naturais). Consciente dessa dificuldade atual, como o político tem de conciliar esse tipo debate, de modo a buscar o equilíbrio de ideias e crenças?  

Áurea: Essa, talvez, seja a questão mais difícil porque a democracia idealmente deveria ser o encontro das diferenças para solucionar conflitos da coletividade. Conhecendo as necessidades e os anseios das outras pessoas e os meus, eu poderia me posicionar ou mudar de posição para que ninguém sofresse violência e que as pessoas pudessem participar das decisões que afetam sua vida. Diante disso, esses temas sensíveis de biopolítica, geralmente esbarram em uma questão ética e também nas diferenças morais que existe entre esses grupos religiosos. A política deveria ser sobre ética e não sobre moral. O que é convicção é de foro íntimo, no sentido religioso, místico e espiritual. Já a ética existe para criar decisões que possam ser respaldas publicamente, sem gerar danos e sofrimento para ninguém, com justiça. Tudo isso é muito difícil. Qual o parâmetro da justiça? Eu acho que a democracia é o que nos ajuda: essa decisão é justa por não excluir uma pessoa ou uma coletividade? Então, tudo que tem haver com corpo e a sexualidade, deve considerar aquelas pessoas que são mais atingidas pelas normas dominantes que são as sexualidades tidas como desviantes: a homossexualidade, a transexualidade, a bissexualidade, a lesbianidade. Esses são aqueles corpos que não cabem nas classificações, são comportamentos que não se encaixam nas expectativas morais de determinados grupos religiosos. Assim, as comunidades deveriam pensar muito mais em como preservar a integridade e a dignidade de todas nós, do que tentar cercear a liberdade das pessoas. E o limite disso é ético mesmo. Não é possível aceitar uma prática que gere dano e sofrimento para outra pessoa e/ou grupo. A gente precisaria quebrar essas noções muito estereotipadas de gênero, sexualidade, relações econômicas. Porque são políticas econômicas também, pois existe um mercado para lidar com as nossas experiências afetivas e sexuais. Eu vejo que a gente está num momento de fronteira, em que esses debates estão acontecendo com muita profundidade em muitos espaços e com muita superficialidade em outros. As redes sociais, de repente, viraram uma plataforma muito perigosa, de manipulação das preferências do público, inclusive com influência econômica, de patrocínio de publicação, de programação de algoritmos, para favorecer algum setor, algum negócio.

E temas que causam muita comoção e polarização, são rifados. E a polarização é também alimentada por essa manipulação nas redes. E agora, a bola da vez é questão da educação sobre essas temáticas, por esses grupos ultraconservadores, fundamentalistas, que querem emplacar de qualquer jeito uma escola sem partido, que querem impedir que se discuta gênero e sexualidade nas escolas, e por ai vai. Quando a gente tenta politizar essas questões, nós somos taxadas com mil desqualificações. Eu vejo com muita preocupação esse momento que nós estamos vivendo, porque as pessoas estão sendo enganadas. Existe todo um movimento armado, intencionalmente, pra criar essas situações, e as pessoas que mais sofrem são aquelas que, desde sempre, são tidas como perigosas, indesejadas, perversas: somos as mulheres, a população LGBT, as negras, as indígenas.

Senso: Qual o recado você deixa para as juventudes que, sendo religiosas, são muitas?

Áurea: A gente precisa cuidar da convivência, precisamos fazer o movimento em direção às outras pessoas. Tentar restabelecer as chances de diálogo nesses tempos de interdição do diálogo, na contramão dessa tendência de polarização das redes sociais, porque isso é fabricado, é proposital. Que a gente possa caminhar ao encontro das pessoas, para conversar. Essa é a nossa grande contribuição democrática.

 

Áurea e Cida © Gabinetona