A Jurema Sagrada – Resiliente religião de matriz indígena do Nordeste do Brasil

A Jurema Sagrada – Resiliente religião de matriz indígena do Nordeste do Brasil
23 de outubro de 2017 Alexandre L’Omi L’Odò

A Jurema Sagrada – Resiliente religião de matriz indígena do Nordeste do Brasil

Por Alexandre L’Omi L’Odò

Classificar a Jurema não é tarefa fácil. Para explica-la de forma detalhada, seria necessário um texto de muitas laudas. Aqui, de forma muito resumida, introduzirei este tema. A Jurema Sagrada é uma religião de matriz indígena do Nordeste do Brasil. Sua prática já existia em nossas terras antes da chegada dos colonizadores portugueses e dos escravizados africanos no século XVI, pois os indígenas aqui já estavam.

A pouca documentação histórica que relate as práticas religiosas destes índios nos séculos XVI a XX nos deixaram uma lacuna difícil de ser preenchida por completo no campo comum da história.

Por outro lado, a permanência da forma de ser indígena na nossa língua, comida, imaginário e religiosidade, comprova o que os documentos não registraram — afinal eram escritos pelos colonizadores opressores brancos. Os terreiros de Jurema, maior livro oral acerca da cultura indígena e, de certo modo, africana, demonstram a tradição em seus traços culturais e filosóficos, nos limites da antropologia, sociologia e da história.

Os cânticos sagrados dos terreiros são um dos elementos mais fortes de preservação do “ser da matriz indígena”, na Religião da Jurema. Neles podemos ver a história desse povo cantada sistematicamente, em linhas melódicas que revelam a sua filosofia e imaginário.

Conhecida nas décadas de 1930 a 1970 pelos antropólogos também como Catimbó, esta prática religiosa se manteve viva, mesmo após todo o holocausto indígena que dizimou quase por completo as diversas etnias/civilizações deste país. Contudo, sua presença e força no mundo urbano das cidades do Nordeste, sobretudo, em Recife e Região Metropolitana, é muito forte.

Essa potência nos revela a sua presença resiliente e que resiste aos séculos, se ressignificando e se imbricando em outras religiões. Tudo isso, para desenvolver a complexa dinâmica de sobrevivência de suas práticas neste ocidental, capitalista, judaico-cristão, racista e embranquecido.

A religiosidade da Jurema tem como tronco central juremológico uma árvore sagrada: a Jurema Preta (mimosa hostiles ou mimosa tenuiflora). Esta árvore, que ao mesmo tempo é elemento essencial para o preparo da bebida sagrada de feitos transcendentais psicoativos de mesmo nome, também é elemento mitológico que compõe o centro do mundo encantado das Cidades da Jurema (que seriam sete, quatorze ou vinte e um reinos e cidades encantadas/espirituais).

Composta de um largo cabedal de saber medicinal, a Jurema tem em seus sacerdotes (juremeiros e juremeiras) o hospital dos pobres, afinal, onde o Estado não chega com políticas públicas de saúde, lá esta a Jurema para curar nas comunidades marginalizadas onde ela resiste até hoje. O cachimbo e o maracá são os elementos identitários mais visíveis materialmente da presença indígena nesta religião.

Com forma e metodologia própria, os juremeiros e juremeiras se utilizam destes elementos de poder e “ciência” para manipular magicamente o seu mundo. A fumaça é teologicamente uma das forças mais importantes desta tradição. Ela é a responsável pelo contato com o mundo espiritual e por ser a forma de poder mais eficaz da tradição, utilizada para todos os fins e desejos.

A Jurema não é Umbanda. Muitas pessoas as confundem, mas elas não podem ser confundidas. A Umbanda tem 109 anos de existência no Brasil, a Jurema já estava aqui séculos antes. Esta é a primeira diferença. As demais são que a Jurema se utiliza de elementos próprios que não são ligados às práticas umbandistas, como o cachimbo, o tronco da jurema, os mestres e encantados etc. Portanto, não devemos confundi-las. Creio que o que os pesquisadores queiram dizer sobre a Umbanda no Nordeste, careça de maior observação. Cabendo, talvez, a possibilidade de que não haja uma umbanda nesta região, mas sim uma Jurema umbandizada, a partir provavelmente da década de 1950.

A Jurema tem forte presença hoje em PE, PB, e RN. Sendo encontrada também em AL, SE e CE. Em Pernambuco, segundo os dados do último mapeamento dos terreiros (2010), a Jurema é mais de 70% dos 1.261 terreiros entrevistados. A partir daí podemos perceber que ela embora “desconhecida”, é pujante e predominantemente forte em Recife e RM, ocupando seu espaço e dialogando com o mundo contemporâneo como qualquer outra religião, de forma dinâmica e não estática. Muito temos para falar sobre a Jurema, em minha dissertação de mestrado intitulada Juremologia: uma busca etnográfica para sistematização de princípios da cosmovisão da Jurema Sagrada, pude escrever mais sobre o tema em 300 páginas de estudos no campo da história e ciências da religião.

“Jurema Preta senhora rainha, és dona da Cidade, mas a chave é minha. É tupereneguê, é tuperenaguá, salve o povo da Jurema, deixa os mestres trabalhar”.

Cântico sagrado de abertura dos rituais de Jurema.

Salve a Jurema Sagrada!

Sobô Nirê Mafá Reis Malunguinho!

Saramunanga Cipopá!

Trunfa Riá!