A era jovem da relação entre religião e magia

A era jovem da relação entre religião e magia
21 de outubro de 2017 Tatiane Aparecida de Almeida

A era jovem da relação entre religião e magia

Por Tatiane Aparecida de Almeida 

Religião e magia sempre se relacionaram, sendo ambas a face de um mesmo fenômeno. O que as diferencia é a natureza de suas funções.  Ou seja, é através dos ritos que se torna possível delinear o que cada um vem a ser.

Durante a pesquisa, que foi desenvolvida [1] no bairro Capelinha-Betim-MG, nos anos de 2013 e 2014, realizada através da assistência de quatro cultos religiosos por meio de observação participante, constatou-se a presença de elementos caracterizados tipologicamente como mágicos. Em síntese, identificou-se também que algumas igrejas utilizavam dias específicos para realizar cultos que atendiam a uma demanda específica. Havia campanhas para libertação, descarrego, cura, prosperidade e culto de casais.

Duas igrejas visitadas utilizavam em seus cultos elementos como óleos, rosas ou tecidos e atribuíam a esses elementos o poder de trazer soluções aos problemas dos fiéis, o que até aí caracterizaria o fazer religioso contemporâneo. Contudo, observamos também que, com a utilização desses elementos no culto, os mesmos eram assumidos como portadores de poder para solucionar determinados problemas individuais.

Diante desse quadro, vale ressaltar que a magia se caracteriza pelo uso de diversos elementos – objetos que, numa perspectiva mágica, são interpretados como portadores de poder na sua prática ritual. Ainda assim, os objetos são consagrados no sentido de empoderar o mago, a fim de atingir a eficácia do seu rito. Posteriormente, entende-se que são atribuídos a esses elementos o poder de trazer soluções às necessidades de seus clientes. Esses elementos são manuseados e coagidos pelo agente da magia, a saber, o mago, e, sobretudo, pela sociedade que os define como algo sagrado quando obedecem as condições para a apropriação do tempo e espaço. O que é comum a magia e a religião, se expressa na dimensão do sagrado, é revelada através da apropriação desses elementos, os quais indicam que o caráter mágico-sagrado-religioso adquire uma dimensão importante dentro da sociedade que crê nesse caráter. Uma vez que, os fenômenos da religião e da magia irradiam da crença.

Neste contexto, esses elementos indicam que o caráter mágico adquire dimensão importante na prática religiosa, o que bem se coaduna com a religiosidade contemporânea e que muito diz sobre o perfil religioso da juventude moderna, que reivindica para si o próprio espaço para que possa modelar a sua religiosidade. Para tanto, as instituições buscam atender tais demandas individuais e coletivas dos fiéis, oferecendo “soluções” que atendam às suas expectativas. Ou seja, a partir da necessidade do indivíduo instaurou-se a origem dos poderes mágicos. O indivíduo carrega consigo desde superstições até receitas de simpatias, e de forma casual dá vida a toda essa imaginação. Logo, o indivíduo exprime, a partir de tantas mutações e através da sua cultura, o seu novo modelo de sociedade. Uma sociedade liberta e disponível a novas experiências e que seja capaz de desempenhar controle sobre as diversas instituições se constituem no seu bojo. Mesmo em volta a tanta subjetividade, a religião ainda conserva uma série de ritos, símbolos e significados, que agem a partir da coletividade, mesmo sendo efetuados e alicerçados na individualidade do sujeito, ainda assim prevalecendo a ideia de comunidade.

A religião e a magia não apenas tem sua origem na sociedade, mas identifica-se com ela. Ou seja, a religião se caracteriza na contemporaneidade a partir dos anseios que a sociedade julga e expressa serem relevantes. Mesclam-se aos resquícios de uma religião os traços de um forte individualismo religioso, em que a magia se acentua por estar em seu habitat natural, uma vez que se resume na arte do  fazer.


[1]  Projeto Senso Religioso e contemporaneidade (FIP- Fundo de Incentivo a Pesquisa PUC Minas 2013/8408-2S).