Religiosos sim, “fiéis” nem sempre: ou, porque surgem os sem-religião?

Religiosos sim, “fiéis” nem sempre: ou, porque surgem os sem-religião?
9 de outubro de 2017 Victor Breno

Religiosos sim, “fiéis” nem sempre: ou, porque surgem os sem-religião?

por Victor Breno

© Emanuele Scherer

© Emanuele Scherer

O surgimento dos sem-religião não se dá fora do conjunto complexo da trama social e religiosa do nosso tempo. Pelo contrário, é um dos produtos resultantes de uma série de transformações no cenário atual à que se designa pelo conceito de modernidade religiosa. Diferentemente do que prognosticou algumas das correntes sociológicas a respeito do desaparecimento da religião, pelo efeito secularizante da racionalização técnico-científica das sociedades industriais, assiste-se à uma recomposição religiosa na contemporaneidade que faz surgir novas expressões – das fundamentalistas às mais “modernas”. Dentre essas expressões encontra-se o fenômeno do “crer sem pertencer”: ou seja, a afirmação da postura individual de vivência da dimensão “espiritual” em ruptura com quaisquer vínculos comunitários da religião institucionalizada.  

Dessa forma, cabe a questão: que condições socioreligiosas possibilitam e geram o surgimento dos sem-religião na sociedade? Primeiramente, é necessário compreender que a modernidade trouxe uma mutação e recomposição do religioso pelo menos em três aspectos:

1. a modernidade provocou uma desistitucionalização religiosa, ou seja, as instituições religiosas tradicionais não possuem mais, ou perderam em grande medida, sua capacidade normativa e coercitiva sobre a conduta de vida dos seus fiéis. Com isso, as religiões – em maior e menor proporção entre elas e a partir de cada realidade em particular – enfraquecem seu papel de fornecer sentido para o conjunto da sociedade e indivíduos, entrando numa crise de plausibilidade e credibilidade; 

2. a secularização desencadeou uma situação de pluralismo e mercado religioso, onde estas instituições religiosas passam a disputar e competir seus bens de serviço religioso numa realidade marcada por uma diversidade enorme de igrejas, templos, terreiros (etc.) em que necessitam aprimorar suas competências e tornar suas estruturas mais eficientes para que possam atrair o consumo da oferta religiosa demandada dos “clientes-fiéis”;

3. da fragmentação e pluralização religiosa da modernidade secular, se acentua o individualismo religioso moderno onde os sujeitos tornam-se cada vez mais autônomos na construção pessoal dos conteúdos e das formas de composição da sua identidades religiosa. Não possuindo essa identidade mais herdada das grandes tradições e diante de uma realidade plural, os indivíduos criam trajetórias de identificação (ou de não-identificação) cada vez mais associadas à escolha subjetiva e dos repertórios simbólicos a sua disposição, gerando uma religiosidade “à la carte”.

© Emanuele Scherer

Diante desse quadro, um novo personagem religioso emerge no cenário contemporâneo: o sem-religião. Os sem-religião são um resultado a suigeneris da modernidade religiosa e refletem o “espírito” de uma época onde a afirmação da escolha individual do sujeito religioso lhe possibilita diante do mercado plural das religiões à sua disposição optar por aquilo que preferencialmente lhe interessa ou não em cada uma delas, sem gerar laços comunitários com nenhuma instituição religiosa. Com isso, há uma afirmação no sentido de “religião não; espiritualidade sim”, que demarca justamente uma forma de crescente de indivíduo resultante dessa modernidade religiosa.  

Das várias problemáticas que os sem-religião colocam à reflexão dos estudos da religião e da sociedade como um todo, pontuo um deles. Os sem-religião expressam, no plano religioso, a expansão de um sentimento de desafeição e de perda de confiança pelas instituições sociais no mundo contemporâneo. Com o senso de esgotamento na capacidade contributiva dos setores como política, economia e também a religião, um número considerável de pessoas deixaram de depositar sobre estas suas expectativas de um progresso ou desenvolvimento humano e de condições de vida, partindo para criação de novas formas de organizações sociais e religiosas. Sendo assim, seriam os sem-religião uma forma de protesto contra o esvaziamento das formas tradicionais de agenciamento do sagrado? Seriam uma subversão crítica, na dimensão da religiosidade, a evocar utopicamente alternativas contra uma anomia da solidariedade social e religiosa atual?