O Fim da Religião e os Desafios Contemporâneos

O Fim da Religião e os Desafios Contemporâneos
13 de setembro de 2017 Thiago Teixeira

O Fim da Religião e os Desafios Contemporâneos

Por Thiago Teixeira

Somos frutos da morte de Deus anunciada como uma das bases fundamentais para compreender a contemporaneidade. Essa máxima teve e, ainda tem, impacto significativo sobre o nossa leitura de mundo, nossa forma de agir e, por fim, nossa forma de crer. Aliás, a relação entre a filosofia e a fé, da modernidade até aqui, apresenta uma linha bastante tênue que nos servirá de horizonte para refletir a seguinte questão: qual é o fim da religião? De forma despretensiosa, podemos brincar com a palavra “fim” e lhe dar dois sentidos: a) momento em que se interrompe algo; b) ao que as coisas se destinam.

É possível perceber que a Religião sofreu duras críticas no cenário da filosofia contemporânea. Foi lida e percebida como forma de alienação e como mecanismo de esvaziamento da vida. Logo, o fenômeno religioso foi preterido, por muitos pensadores, através de uma meta: afirmar a vida. A negação do Sagrado serviu ao homem contemporâneo, por muito tempo, como busca de autenticidade e de autonomia. À luz da crítica de Feuerbach acerca de Deus, por exemplo, lemos uma necessidade humana de criar um ser para que fossem projetadas suas angústias e fragilidades. No prisma do filósofo, a essência do homem, isto é, a sua consciência, faz com que esse mesmo homem compreenda a sua existência.

Sua consciência também o inclina a pensar em suas limitações. Logo, para Feuerbach, a Religião se interpõe entre essa realidade humana — que reconhece a si mesma como limitada e finita — e a tentativa de sanar esse mal-estar através de um sentimento que busca o infinito. Lemos aqui, claramente, que a crítica à religião se direciona ao desejo do absoluto que, em alto grau, retiraria do homem a força de sua própria vida.

Pensar a religião com fonte de alienação não é algo que se encerra nas perspectivas de Feuerbach. Marx também compreendeu que ela estava a serviço de uma operação bastante singular: a exploração do trabalho na manutenção da opressão da classe burguesa. Para o filósofo alemão, a experiência religiosa apoiaria-se numa força de abstenção da realidade e, mais, serviria à lógica de dominação que se arrasta ao logo dos tempos entre o opressor e o oprimido.

Vale dizer que, para Marx, a religião estaria, junto a outros elementos, no lugar de assujeitamento, uma vez que ela seria o sol ilusório que o homem gira em torno, enquanto não percebe a si mesmo. Segundo o filósofo, “a religião não cria o homem, mas o homem cria a religião.” (MARX, Crítica da filosofia do direito de Hegel).  Assim, compreendemos que, nesse lugar de verificação, a experiência religiosa estaria associada à renúncia de uma autencidade do homem que radicalmente afirmaria sua existência concreta e se proporia a constituir um mundo estritamente humano.

Nesse sentido, somos levados a considerar que o fim da religião estaria ligado, para aqueles pensadores, ao surgimento do homem e de sua dignidade. Ora, a religião não findou mesmo com os ataques dos filósofos. É difícil concluir o porque dessa persistência da experiência religiosa. Todavia, é possível compreender e analisar seus entornos em nossa realidade.

O cenário atual nos trouxe, com as críticas, inclusive à religiosidade, para um lugar de diferença e de múltiplas perspectivas. Aqui vale dizer que encontramos o outro significado para o termo fim: o lugar do diálogo. Pensar que os filósofos contemporâneos destruíram as narrativas absolutas nos permite adentrar num esforço de aceitar as diferenças, e mais, aprender com cada uma delas. Pensamos ser esse o fim da religião, na medida em que ela se propõe à restituição das alianças que, por algum motivo foram quebradas.

Acreditamos que a expressão da Religião denota, essencialmente, uma visão de leitura da realidade. Todos nós, o tempo todo, buscamos dar sentido à nossa existência, ao mundo e aos valores que elegemos e constituímos. Pensamos, contudo, que essa busca exige um desafio ético: a construção de um horizonte de dialógico e renúncia aos enquadramentos violentos.

Por fim, somos inclinados a agradecer os pensadores que são a base da filosofia contemporânea. Eles, cada um ao seu modo e crítica, destruíram nossas pretensões de supremacia e poder e abriam espaço para o real fim, segundo pensamos, da religião: o diálogo e o reconhecimento da dignidade humana expressa nas diferenças.

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