Um respeitoso discordar

Um respeitoso discordar
29 de agosto de 2017 Otávio Xavier

Um respeitoso discordar

Por Otávio Xavier

“[…] Mas se Deus é as flores e as árvores e os montes e sol e o luar, então acredito nele, então acredito nele a toda a hora, e a minha vida é toda uma oração e uma missa, e uma comunhão com os olhos e pelos ouvidos. […] E chamo-lhe luar e sol e flores e árvores e montes, e amo-o sem pensar nele, e penso-o vendo e ouvindo, e ando com ele a toda a hora.”
Alberto Caeiro

Basta olhar ao redor para perceber como poucos de nós, hoje, carregam a força da fé dos próprios avós. Ouso, inclusive, generalizar que sequer eles professaram suas crenças como em tempos imemoriais, quando cada membro da tribo compartilhava as mesmas explicações e, mesmo sem perceberem, todos tornavam o mundo ao redor algo ainda mais maravilhoso. Para este pequeno grupo aqui, os espíritos achavam o éter muito chato e, por isso, vinham tanto nos ver. Para aquela comunidade, a festa eterna ao lado dos deuses aguardava após cada morte heroica. Para outrem, os deuses – todos eles – moravam no alto daquela montanha, logo ali. Infiéis à parte, havia pouco ou nenhum contato com o diferente.

Como Faustos da contemporaneidade, porém, há alguns séculos que, mais e mais, estamos ousando saber. Nem a Terra e nem o homem estão mais no centro, quanto mais uma religião em específico. Aprendemos a coexistir melhor, mas passamos a conviver com as crenças – e, por vezes, descrenças – do próximo. Eis um terreno fértil para a dúvida, aquele no qual há o contato com o diverso do que a confiante mente infantil um dia abraçou e que não mais parece fornecer todas as respostas.

Vivemos, desde então, em um tempo no qual há ampla comunhão da crise de fé. Muitas muralhas vieram abaixo e alguns, incomodadíssimos, recusam-se a descartar o “única” da verdade que lhes foi ensinada, seja ela qual for. Debilmente, quando tais Davis pensam encontrar seus Golias, não costumam perceber que suas cruzadas tendem a ocorrer contra moinhos de vento. Ainda assim, frente a tanta infelicidade de um reacionarismo amplo, que joga irmão contra irmão, das mais variadas terras e crenças, cada vez mais vão surgindo aqueles que passam a tatear por si próprios, sem intermediários. O diferente, mas que ao outro parece funcionar, está, afinal, ao alcance de alguns cliques, bem como alguns de seus mistérios e, talvez, as bênçãos prometidas.

A aura misteriosa do oriente, nesse cenário, encanta a muitos, que já não rezam, mas repetem seus mantras antes da aula de yoga; a Bíblia por vezes é aberta e, na mesma estante, há uma edição do Bhagavad Ghita; o Tao-Te-King já foi lido e põe-se em prática a filosofia do judô. Outros se voltam à África e às raízes nos orixás, alguns procuram os ritos amazônicos do ayahuasca, o peyote dos índios norte-americanos e assim em diante. Cada um a seu modo, religiosos ou não, penso que todos buscamos. Por vezes, apenas para eventualmente retornar ao lar, como um filho que conheceu do mundo.

Uma espiritualidade que não seja mediada pela religiosidade pode parecer estranha, a princípio, mas é seguro presumir que majoritariamente foi assim. Ora, muitos séculos antes do primeiro sacerdote, a Terra já conhecia os pajés, os xamãs e toda sorte de pessoa comum, capaz de contemplar o céu e se questionar. Somente muito tempo após os coletores e caçadores que jejuavam, em busca dos ensinamentos seus animais guias, é que as primeiras religiões foram estruturadas. Com elas, houve mais organização, respeito e todos os alicerces para que se pudesse viver em grandes comunidades, em relativa partilha. Por outro lado, agora era preciso se enquadrar, e ter a experiência que todo o coletivo havia preparado para você. Essas características, as quais em si não são melhores nem piores, parecem ecoar menos em nossa psique agora, quando vivemos tempos excessivamente individuais, nos quais cada um parece ter que lidar sozinho com seu próprio desespero. Assim, quando alguém em crise se lança no escuro, em um verdadeiro salto de fé, lá está sua espiritualidade, por vezes desastrada, mas sempre corajosa. Eis um deserto no qual não cabe um povo, e só há o indivíduo. Ele tem uma bússola quebrada, com os dizeres “volte com Deus” e, à sua frente, o mysterium tremendum et fascinans. Torço por quem tenta.

Em meio a tamanho turbilhão, algumas certezas ainda restam. Primeiro, de que questionar é realmente importante. Não podemos e nem conseguiríamos retornar a quando não havíamos provado o fruto do conhecimento científico. Em segundo lugar, porém, é preciso notar como a negação completa às sabedorias dos antigos nos impede de beber em certos tesouros. Cabe a nós, frente a tantas dietas possíveis, deleitar-nos em busca da verdade que no fundo é uma só, mas ainda assim é chamada de nomes diversos por cada sábio, como já afirmavam os Vedas. Devemos caminhar lado a lado com o que nos ensina o Cristo tanto quanto com o que nos trazem o Buda e vários outros mestres, por vezes concordando de coração, e em outras – afinal nosso destino é o livre arbítrio – em respeitoso discordar.