Desafeição Religiosa: um desafio para a Igreja Católica

Desafeição Religiosa: um desafio para a Igreja Católica
23 de agosto de 2017 Pedro Assis Ribeiro de Oliveira

Desafeição Religiosa: um desafio para a Igreja Católica

Por Pedro Assis Ribeiro de Oliveira

O conceito de desafeição foi utilizado pela sociologia em meados do século passado por ser facilmente aplicado em pesquisas estatísticas, mas depois caiu em desuso porque não permite fazer comparações entre diferentes sistemas religiosos. Por ser o objetivo deste artigo  apontar o afastamento de fiéis da Igreja católica no Brasil, cabe falar de desafeição.

Desafeição e pertença formam um par conceitual com três dimensões interligadas, mas teoricamente distintas:

• Dimensão psicossocial: denota o laço afetivo que une o fiel à instituição religiosa. Ela está ligada à mediação de grupos primários como a família e grupos de participação voluntária. Nesta dimensão, há desafeição quando diminui o sentimento de adesão afetiva à instituição religiosa, resultando em indiferença religiosa.

• Dimensão teologal: denota o laço de que une o fiel à instituição, de modo a sintonizar a crença pessoal à fé professada pela igreja. Nesta dimensão, a desafeição ocorre quando há divergência essencial na formulação das verdades de fé. Neste caso, a relação do fiel com a igreja torna-se meramente funcional: permanecerá nela enquanto sentir-se confortável, e não por ser ela necessária à vivência da sua fé.

• Dimensão prática, que denota a adesão às normas e orientações da Igreja, seja as de ordem ritual seja as de ordem moral. Nesta dimensão, existe desafeição na medida em que o fiel afasta-se das práticas rituais da Igreja ou contraria sua orientação moral; ou seja, quando o fiel não se sente afetado pela Igreja à qual está ligado.

No Brasil, como em qualquer sociedade religiosamente plural, a pertença a um sistema religioso é facultativa. Ou seja, diferentemente de sociedades que têm uma religião oficial, a prática religiosa não traz, por si mesma, qualquer vantagem social. O sistema religioso depende, então, da convicção e da adesão pessoal de seus membros. Tendo presente esse quadro conceitual, vejamos o que dizem pesquisas recentes.

O Censo de 2010 evidencia o declínio numérico da população católica nas faixas de idade abaixo de 30 anos. Pesquisa Datafolha publicada em 25 de dezembro 2017 indica que esse declínio será ainda mais forte no censo de 2020. O quadro é agravado pelo fato de haver maior desafeição entre as mulheres, que são as principais agentes de transmissão religiosa de uma geração à outra. Com efeito, é em casa – principalmente com as figuras femininas da mãe, tias e avós – que a criança aprende a religião juntamente com a língua materna, os usos e costumes e demais elementos da cultura de seu grupo. Por isso, quando a base familiar é frágil, toda catequese está fadada a desmoronar – como uma casa sem alicerces. É certo que outros grupos primários, como os formados pelas Pastorais da Juventude, pela Renovação Carismática e outros grupos de adolescentes e de jovens podem compensar essa falha, mas seu alcance sobre o conjunto da população abaixo de trinta anos é pequeno. Resultado: aumenta o modelo religioso de “crer sem pertencer”, ou de “espiritualidade não-religiosa”, que são frutos maduros da desafeição.

Assim, a Igreja católica que moldou clima moral – o ethos – do nosso povo, está perdendo a sua força histórica. Não se trata simplesmente do número de adeptos que se conquista ou se perde – como se a pertença religiosa equivalesse ao “consumo” de bens ou serviços equiparáveis à opção por certa marca de automóvel, sabonete ou tênis – mas sim do confinamento da religião ao foro íntimo, à esfera da vida privada, sem capacidade de influir nos rumos da sociedade.

Diante dessa realidade, pouco adianta encher a igreja por meio de missas-espetáculos ou que prometem a cura divina, nem apelar para as devoções marianas, aos santos e ao Santíssimo. A mídia católica presta-se bem a isso, dia e noite levando as rezas e pregações de padres que capricham na imagem midiática. Grandes santuários também se prestam a ser palco dessa religião-espetáculo capaz de atrair grande público, mas incapaz de fidelizá-lo de modo permanente: passadas as emoções provocadas pelo celebrante, cada qual retoma a vida cotidiana como se nada houvesse acontecido.

Se a Igreja católica quer voltar a influir no clima moral da sociedade brasileira, infundindo nela o respeito aos Direitos Humanos, a busca da Paz fundada na Justiça e o cuidado com a Terra – a Casa Comum – Ela precisa levar a sério as reformas iniciadas pelo concílio Vaticano II e adaptadas à América Latina pela conferência episcopal de Medellín. Ou seja, assumir a postura de uma Igreja em saída, como vem pedindo insistentemente o papa Francisco.

Este artigo resume e atualiza o texto publicado em Horizonte:

PERTENÇA/DESAFEIÇÃO RELIGIOSA: RECUPERANDO ANTIGO CONCEITO PARA ENTENDER O CATOLICISMO HOJE

O artigo recupera o par conceitual pertença/desafeição religiosa, usado nas pesquisas de “sociologia religiosa” nas décadas de 1950 e 1960, para analisar os fatores da perda de fiéis pela igreja católica, como demonstra o Censo IBGE de 2010. Toma como referência dados de uma pesquisa realizada na região metropolitana de Belo Horizonte em 2012. Com base nessa pesquisa, demonstra que a diminuição de fiéis não se deve a conversão mas a simples trânsito do catolicismo a outra religião. A raiz da desafeição religiosa está na perda de fé na necessidade da mediação sacramental da Igreja para a salvação eterna e no caráter sacrificial da missa. Ela pode ser contrabalançada pelos laços familiares de pertença, mas também estes apresentam sinais de enfraquecimento. O artigo conclui afirmando que, no caso do catolicismo, a pertença religiosa supõe laços afetivos, de fé e de compromisso pessoal do fiel com a igreja. Quando os três se enfraquecem, ocorre a desafeição religiosa propriamente dita.

Neste artigo você encontrará as principais referências bibliográficas.