A Reforma da Música / A Música da Reforma

A Reforma da Música / A Música da Reforma
23 de junho de 2017 Cleonir Geandro Zimmermann

A Reforma da Música / A Música da Reforma

O papel da música antes e depois da Reforma.

Por Cleonir Geandro Zimmermann

Em um mundo dividido entre pecado e virtude, sacro e profano, clero e povo, na música esta divisão se dava em música de rua e música de igreja. Enquanto os ritmos renascentistas embalavam cortes, tabernas e festas, o canto gregoriano recitava a ladainha eclesiástica. Neste contexto, o canto do povo estava do lado de fora da igreja. Os ouvidos do reformador Martinho Lutero (1483 – 1546) eram bastante sensíveis a essas diferenças. Mais que sensíveis, eram por elas incomodados. Incomodava lhe ouvir a vivacidade do canto reduzida à escuta. Lutero experimentou o que significa cantar, e cantar bem. Sabia a diferença que isso faz na vida de uma pessoa, de um grupo, de uma igreja.

Não foram os tratados teológicos, os escritos ou os debates acadêmicos que promoveram a adesão das pessoas e das comunidades do século 16 ao movimento da Reforma. Elas entenderam as ideias ali manifestas por meio da cantabilidade destas novas ideias. O canto foi a mídia do movimento. Lembremos que o acesso à alfabetização estava restrito a uma pequena camada da população neste então. Não sabendo ler, a capacidade de mentalização, de decorar histórias e canções era comum.

Para fazer da música um instrumento de propagação doutrinária, porém, havia o entrave de que o povo sabia cantar justamente o tipo de música que não se ouvia na igreja. Aí os ouvidos tiveram de se abrir ainda mais a este jeito do povo cantar. E isso foi trazido para dentro do templo. Não apenas como tática de alcance dos novos paradigmas, mas como consequência do entendimento que a distinção entre o sagrado e o mundano é uma condição provisória e simultânea de cada ser. O saber-se simultaneamente justo e pecador, justa e pecadora, significou no âmbito musical o surgimento da coexistência dos estilos musicais.

Lutero não ataca o canto gregoriano nem o despreza. Ele próprio era profundo conhecedor desta prática, uma vez que o mosteiro dos agostinianos, do qual ele fez parte em Erfurt, era famoso pela qualidade de sua música vocal. Porém, não se limita a ele, antes traz para dentro de suas composições aquela musicalidade que ouvia na rua, na cervejaria e nas festas por aí. A partir do momento que o povo reconhece que sua música também pode ser portadora de textos cristãos, e passa a cantar melodias mundanas com textos sagrados, então há a conversão do próprio ser, que passa de expectador de um drama místico para protagonista de seu próprio destino. A consciência humana se transformou com o novo entendimento ontológico que a Reforma proporcionou, o qual ela despertou através da palavra dita e pregada, mas, sobretudo, cantada.

Cantando e pensando no que cantou, a vida mudou. A música que não merecia espaço no ambiente sagrado torna-se sagrada e com isso se dá a reconciliação desta arte consigo própria. Assim, não pode mais haver música acusável de ruim. Toda música é reconhecida como parte da criação de Deus. Uma dádiva, por Ele criada e ao povo dada. Uma forma que Deus achou para se comunicar, para comunicar seu amor e declarar seu perdão. A reconciliação entre o ser humano e seu criador, por meio de Cristo Jesus, se refletiu na reconciliação da música da igreja com a música de rua.

A liberdade decorrente desta reforma da música proporcionou que, ao longo da história, se desenvolvesse na igreja uma enorme gama de estilos, tendo Johann Sebastian Bach (1685 – 1750) alcançado o cume do desenvolvimento desta arte. Ainda que em suas obras tenha havido a maior sofisticação possível, a participação do povo não foi colocada de lado. Cito como exemplo suas cantatas e paixões, nas quais sempre havia a introdução de estrofes de hinos conhecidos pelo povo e por ele em conjunto entoados.

Uma igreja herdeira da Reforma a explicita na sua prática musical. Onde o povo é mero ouvinte, ainda se vive no tempo da divisão. Não que tudo tenha que ser feito por todos, porém, todos devem entender o todo. O canto coral, por exemplo, se popularizou quando deixou de ser atribuição exclusiva dos religiosos. Ganhou novo formato. Incluiu as mulheres. Através da música se começou a experimentar o que hoje chamamos de democracia. O empoderamento da comunidade através do canto explicitou uma nova visão de mundo. Abrir mão deste legado, em prol de um modelo que cria astros e estrelas é, portanto, um retrocesso.

O canto comunitário vai além da tietagem, gera autoestima coletiva, cria o sentimento de pertencimento ao grupo, liga a pessoa do presente com a voz daqueles e daquelas que a antecedeu. Neste ponto entra a importância do hinário, do livro de canto. Uma invenção luterana. O primeiro hinário que foi publicado continha oito hinos. Temos estes hinos preservados até hoje, ao lado de centenas de outros que surgiram no decorrer da história da música na igreja. Ao cantar o que se cantou no passado, a igreja local se une à igreja una, ultrapassando seus muros e limites, testemunhando sua identidade e reafirmando sua fé.


Referências

SCHALK, Carl. Lutero e a Música: paradigmas de louvor. São Leopoldo: Sinodal, 2006.
LUTERO, Martinho. Obras Selecionadas. V. VII. São Leopoldo / Porto Alegre: Sinodal / Concórdia, 2000.
EWALD, Werner (org.). Música e Igreja: Reflexões contemporâneas para uma prática milenar. São Leopoldo: Sinodal, 2010.

Igreja de São Tomás (em alemão Thomaskirche) é uma igreja luterana em Leipzig, Alemanha. Lugar onde Johann Sebastian Bach trabalhou e está enterrado | © Débora Ludwig