O protagonismo das mulheres na Reforma Protestante

O protagonismo das mulheres na Reforma Protestante
7 de junho de 2017 Débora Ludwig e Priscila Kikuchi

Entrevista

O protagonismo das mulheres na Reforma Protestante

Entrevista com Elaine Neuenfeldt

Por Débora Ludwig e Priscila Kikuchi Campanaro

© Débora Ludwig

Elaine Neuenfeldt
Pastora da IECLB. Sou feminista. Aprendi a usar os instrumentais da teologia feminista, a crítica, a suspeita, a desconstrução e reconstrução, a partir de meu trabalho pastoral em paróquias, especialmente no Mato Grosso e Rondônia, com o aprendizado em grupos de leitura popular da bíblia, que o CEBI me proporcionou, e com estudos de doutorado em hermenêutica bíblica feminista com ênfase no Primeiro Testamento, na Pós-graduação das Faculdades EST, em São Leopoldo. Trabalho como secretária executiva do programa Mulheres na Igreja e na sociedade da FLM, com sede em Genebra, na Suíça, onde além do programa de implementação da Política de Justiça de Gênero, desenvolvo programas de empoderamento de mulheres nas igrejas membro da Comunhão.
Sou mãe da Julia, com quem aprendo a desaprender as teorias – de gênero e da vida – a cada dia, e sou muito grata e feliz com esse aprendizado.


Senso: Houve participação das mulheres na Reforma Protestante em 1517? Quem são elas?

Elaine: Sim, havia mulheres que ativamente participaram do movimento da Reforma. Embora não soubéssemos disso, esta comemoração de 500 anos tornou visível a participação das mulheres nas discussões teológicas, e em geral, na construção das concepções e fundamentos da reforma. Alguns exemplos de mulheres reformadoras, são:

Catarina von Bora: talvez seja uma das mais conhecidas. Foi esposa do reformador Martin Lutero e seu papel foi muito além de ser apenas esposa e mãe abnegada. Ela foi a administradora da casa, no mosteiro negro de Wittenberg, onde o reformador recebia até 40 pessoas por dia, na maioria estudantes ou adeptos do movimento, e ela participava ativamente das discussões e conversações sobre a reforma, que aconteciam em torno da mesa, nas refeições.

Argula von Grumbach: mulher nobre da Baviera, escreveu panfletos promovendo a liberdade acadêmica e princípios reformatórios. Se correspondia com Lutero e com outros reformadores e disse em uma de suas cartas: “Não escrevo somente sobre assuntos de mulheres, mas sobre a Palavra de Deus, como servidora da igreja cristã, diante da qual as portas do inferno desvanecem”.

Katharina Schütz-Zell: foi pregadora na igreja de Strassburg, onde foi defensora do direito do casamento dos clérigos e promoveu ativamente pessoas leigas como pregadas do Evangelho.

Marie Dentière: a reformadora que estudou junto com Calvino, em Genebra. Dedicou-se aos estudos da sagrada escritura e traduziu parte dos textos bíblicos; escreveu sobre as mulheres testemunhas da ressurreição: “Se Deus deu então a graça a algumas boas mulheres, revelando-lhes, pelas Santas Escrituras, algo santo e bom, não ousariam elas escrever, falar e declará-lo uma à outra? Ah! Seria uma audácia pretender impedi-las de fazê-lo. Quanto a nós, seria muita tolice esconder o talento que Deus nos deu”.

Ver mais informações aqui:

www.luteranos.com.br

– O Movimento da Reforma e a Participação das Mulheres

– Mulheres reformadoras

O recente livro lançado pela editora Sinodal, São Leopoldo:  As mulheres na Reforma, escrito pelas pastoras e doutoras Heloísa Gralow Dalferth e Claudete Beise Ulrich.

Senso: De que maneira se deu a participação das mulheres no processo da Reforma?

Elaine:  As mulheres escutaram, aprenderam, fizeram teologia, falaram, anunciaram, pregaram e correram riscos devido ao envolvimento com o movimento da Reforma. Muitas eram monjas, que tinham tido acesso a estudos e leituras; deixaram a vida do convento para seguir a suas novas convicções teológicas e eclesiológicas. Muitas vezes temos noção limitada da atuação das mulheres na Reforma, como meras coadjuvantes que ajudaram aos grandes reformadores, e ainda falta muito para descobrir e tornar conhecidos os escritos e as contribuições destas pensadoras e ativistas. Elas ajudaram a dar forma à reforma e todo o processo de renovação da teologia e do modelo de ser da igreja foi influenciado pelas práticas e pelos escritos delas. Ainda há um vasto campo a ser explorado!

Senso: Quando se fala em Reforma Protestante, é valorizada a participação das mulheres?

Elaine: Ainda há um longo trajeto para afirmar que, ao falar da Reforma atualmente, a participação das mulheres seja verdadeiramente valorizada. Há ainda uma imagem, digamos, distorcida, como se todas as mulheres participantes fossem aquelas que ficaram atrás das cortinas, nas cozinhas, como benfeitoras, ou como apoiadoras. Esta ainda é uma visão determinada pelas construções de gênero da atualidade; ou seja, lê-se a história com as lentes carregadas, embaçadas pelos estereótipos de gênero que temos culturalmente. Recordar as mulheres do passado, implica, necessariamente, num movimento de deslocamento do lugar atribuído a elas no presente.

Senso: É possível pensar uma proposta de abordagem da Reforma a partir de um movimento, e não somente a partir de expoentes como Catarina Von Bora e Martinho Lutero?

Elaine: A Reforma não foi um ato isolado de um personagem, embora há de se reconhecer o crucial papel do reformador, Lutero. A Reforma foi um movimento, e como tal, construído a muitas mãos. É preciso lembra que Lutero teve o engajamento de príncipes e de pessoas que o apoiavam financeiramente, ou ainda, abrigaram-no em suas casas ou protegeram-no em tempos de perseguição. Muitos teólogos e teólogas discutiam os escritos de Lutero, desenvolviam seus próprios pensamentos e difundiam assim o espírito da Reforma. Há que se pensar a Reforma em seu contexto histórico, social e político, que permitiu que as ideias de um monge fossem disseminadas, discutidas e desenvolvidas.

Senso: Depois de 500 anos, como você vê o protagonismo das mulheres na igreja luterana?

Elaine: O movimento da reforma inspirou e motivou o mundo das igrejas protestantes em geral, não só a Luterana. As igrejas herdeiras da reforma movimentam atualmente as águas e os ventos que disseminam este espírito reformador, também em relação à participação das mulheres na vida da igreja. É claro que não dá para dizer que tudo está resolvido quanto à participação das mulheres na igreja, pelo mero fato de ser alguma igreja da Reforma. Há de se reconhecer desafios evidentes em relação a uma prática verdadeiramente inclusiva de mulheres em todas as esferas de liderança nas igrejas luteranas. Como por exemplo, o que mulheres têm chamado de “teto de cristal/vidro” (do inglês, glass ceiling), que impede por vias, muitas vezes não escritas, baseadas em tradições e práticas culturais, a ascensão de mulheres a posições de liderança como presidentes, bispas, secretárias gerais, etc.

Falarei sobre a realidade das igrejas que pertencem à comunhão luterana, a Federação Luterana Mundial (FLM), onde trabalho. Há ainda um desafio a ser superado quanto à integração das mulheres no ministério ordenado: de 145 igrejas membro da FLM, 82% delas (a maioria) ordena mulheres ‒ isso é motivo de comemoração e indica a direção que caminhamos como comunhão, e não há espaço para caminhar para trás. Quanto às igrejas restantes (18%), mesmo que seja um número bastante reduzido e que a maioria delas já esteja em movimento para discutir como superar barreiras, que muitas vezes são mais culturais e práticas do que teológicas, ainda existem casos de exclusão de mulheres em igrejas herdeiras da Reforma. A FLM tem uma posição clara e bem definida sobre o assunto de mulheres no ministério ordenado: 6 assembleias gerais, desde 1984 (em Budapeste) até a recente, em 2017, em Namíbia, afirmaram o compromisso da comunhão de avançar para que igrejas sejam inclusivas dos dons das mulheres no sacerdócio. Há inúmeras recomendações sobre como a comunhão vê o processo de participação integral de mulheres e homens nos diferentes ministérios das igrejas. Há bases teológicas na confessionalidade luterana que dão suporte para esta afirmação e participação de mulheres – sendo que a noção do sacerdócio universal de toda pessoa crente, é uma destas bases.

Senso: De acordo com Política de Justiça de Gênero da FLM, “a comunhão é conclamada a viver e trabalhar em Cristo para enfrentar injustiças e opressão e criar realidades transformadas e comunidades do bom viver, em que se estabeleçam relações justas entre mulheres e homens e que promovam e conduzam ao crescimento de todos os seres humanos”. Quais são os princípios base de construção dessa política?

Elaine: Um princípio chave, fundamental, é a justiça. A política de Justiça de Gênero da FLM tem como base a noção bíblica e teológica de justiça. Justiça, que é profética e evangélica, que proclama as boas novas de vida digna dos Evangelhos na prática de Jesus. Esta política de Justiça de Gênero marca uma trajetória ‒ é um caminho que aponta para práticas de inclusão. É uma resposta ao chamado de Deus para relações permeadas de justiça entre os gêneros, além de disseminar a esperança de construir sinais tangíveis que tornem as relações no dia a dia de pessoas, fiéis, nas comunidades, cada vez mais justas.

O documento define Justiça de Gênero nos seguintes termos:

“Justiça de Gênero implica na proteção e promoção da dignidade das mulheres e dos homens que, sendo criados à imagem de Deus, são cuidadores corresponsáveis da criação. A Justiça de Gênero expressa-se por meio da igualdade e do equilíbrio nas relações de poder entre homens e mulheres e, na eliminação de sistemas institucionais, culturais e interpessoais de privilegio e opressão que sustentam discriminação.”

(Política de Justiça de Gênero – Federação Luterana Mundial, disponível em www.luteranos.com.br)

Para fins de trabalho nos programas da FLM, Justiça de Gênero é prioridade transversal a ser implementada em todas as atividades programáticas da comunhão. Cada processo, estrutura, plano de trabalho, programa, relações deve ser intermediada pelo critério da Justiça de Gênero.

Quando falamos em Justiça de Gênero, necessariamente devemos tocar nas espinhosas formas de poder que permeiam as relações entre as pessoas, homens e mulheres. Precisamos discutir as relações de poder, como elas organizam, estruturam, moldam as relações entre homens e mulheres. Aqui existe a imagem da “mesa redonda”, onde todas as pessoas têm um lugar, onde a palavra e as decisões são democraticamente distribuídas e tomadas. Uma mesa compartilhada, onde homens e mulheres estão presentes e participam em condições iguais, justas e dignas.

Senso: Por meio de quais ferramentas a WICAS (Women in Church and Society / Mulheres na Igreja e Sociedade) promove a Justiça de Gênero?

Elaine: Como comentado, uma forma é assegurar que todos os programas e planos desenvolvidos a partir da oficina da comunhão tenham a perspectiva da Justiça de Gênero como prioridade transversal.

Nas igrejas membro da comunhão há diferentes formas e ferramentas de implementação e contextualização. Uma primeira medida é tornar o conteúdo acessível nas diversas línguas vernaculares. Desde o lançamento da política de Justiça de Gênero, em 2013, o documento já foi traduzido para 23 línguas. Depois de ter o texto acessível, um segundo passo é a prática: apropriar-se dos conceitos, com workshops, seminários, reflexões, etc. Logo, surgem outros processos conforme a necessidade, contexto e realidade de cada local: há exemplos de igrejas na Alemanha que criaram passos de implementação para sua realidade, ou, outras como na Noruega, que adaptam os princípios da Justiça de Gênero ao seu plano estratégico, ou do Zimbábue e da Comunhão de igrejas Luteranas na Índia, que criaram a sua própria política de Justiça de Gênero adotando a da FLM como base. No Brasil, a Fundação Luterana de Diaconia (FLD) e as Faculdades EST criaram a política de Justiça de Gênero institucional, que igualmente se baseia na da FLM.

Senso: Durante muitos séculos, a participação das mulheres não foi visibilizada. A partir de muita luta, resistência e superação, a história foi se transformando e, atualmente, podemos tornar visíveis essas mulheres. Como você vê os próximos 500 anos e o protagonismo das mulheres feminino no âmbito da igreja e sociedade?

Elaine: Embora não dê para negar os avanços e conquistas, que a partir de muita luta, organização e criatividade, as mulheres forjaram nestes 500 anos de história de protestantismo, também não podemos ficar indiferentes diante dos enormes desafios que ainda estão em cena. Há evidentes retrocessos quanto à perda de direitos conquistados, na lei e na prática, em relação ao acesso à saúde, educação e espaços de poder e decisão para muitas mulheres. Diante desta realidade, creio que os próximos 500 anos ainda serão de muita resistência, luta e necessidade de apoio mútuo entre mulheres e para o estabelecimento de alianças com homens dispostos a rediscutir suas posições privilegiadas nas relações e estruturas de instituições que sustentam a sociedade, como família e igreja especialmente.

Minha experiência tem sido reafirmada de que as mudanças vêm quando há articulação e organização. As mudanças são forjadas e conquistadas ‒ não são presenteadas, simplesmente. Por isso, rever as relações entre mulheres, para que sejam permeadas e umedecidas por amizade, carinho e apoio, de modo que mulheres e homens possam florir, brotar em sementes nativas de justiça e vida digna. Celebrar cada novo broto, cada novo movimento de relações recriadas é viver o evangélico anúncio da boa Nova para todas as pessoas, já, hoje, com a esperança da plenitude no horizonte. Apenas assim seguiremos nos movendo, caminhando, buscando…