Cabeça-cabaça-Òrìsà

Cabeça-cabaça-Òrìsà
2 de junho de 2017 Sidnei Barreto Nogueira

Cabeça-cabaça-Òrìsà

Por Sidnei Barreto Nogueira

© Nana Kofi Acquah

Por meio da visão de mundo nagô/iorubá, crê-se que, antes de uma pessoa nascer no Ayé – mundo dos corpos transitórios, ela escolhe sua cabeça-destino (Orí-inú). A partir desta escolha feita no Orun – mundo das divindades/ da ancestralidade e das origens – a pessoa é parte da massa cósmica, da massa primordial, da massa ancestral, da massa-Orun, da massa natureza, da massa-raiz, da massa gênese de tudo o que há no mundo, aqui e lá.

Essas substâncias primordiais, das quais as nossas várias cabeças são feitas, podem ser vivenciadas em suas manifestações naturais, intrinsecamente, relacionadas à essência e existência de todo ser vivo: água, vento, fogo, ar, terra, plantas, árvores, rios, tempestades, raios entre outros elementos naturais.

Essas forças que nos habitam e das quais somos feitos não são adoradas, simplesmente, como o são, mas, por meio de sua “antropomorfização” mítica passam a serem adoradas, devido a importância da natureza e da força primordial que nos habita, como manifestações de seres “superiores” denominados Òrìsà – guardião das cabeças, cabaças, cabeças-cabaças.

As cabaças-frutos que crescem em árvores em lugares cujo clima é tropical são recipientes para água, alimentos, pós, líquidos e para qualquer coisa que elas possam conduzir e guardar dentro delas, substâncias mágicas e também elementos comuns.

A metáfora nagô é uma das mais lindas para a existência da natureza que há em nós e que somos: uma cabaça guardando a vida em suas mais diversas manifestações, a natureza guardando a própria natureza, um fruto guardando seus frutos: os Òrìsà.

Os Òrìsà são recipientes de vida, alegria, felicidade, saúde, naturezas, paixões, lágrimas, gargalhadas, cólera; recipientes de tudo o que há de mais humano e a esses recipientes que rendemos culto no Candomblé.

A riqueza do Candomblé e sua liturgia residem na adoração da natureza-humanidade ou humanização-natureza.

Nossas cabeças “internas”, como as cabaças, contêm pequenas quantidades de substâncias sagradas que, a um só tempo, nos diferenciam e nos unem. Ajalá – o oleiro universal – foi quem manipulou esses elementos e nos fez quem somos. Por isso, o Candomblé é um grande culto à cabeça e a tudo que ela abarca.

Não se trata de adorar o que os olhos podem ver, mas de adorar o que a mente pode produzir, sentir, tocar, fazer, perceber, ouvir e, sobretudo, realizar.

Hoje, muita gente pensa que faz “Candomblé” e pensa que o faz honrando o que está dentro do recipiente, mas muitos têm trocado o conteúdo pelo continente. O Candomblé não é capitalista, não é comercial, não é vaidoso, não é “espetacular” – no mal sentido da palavra, não é cárcere, não é ruptura, porque a cabaça está sempre aberta para que a água-natureza possa entrar e sair: fluir livremente, escorregar, vazar para que, de forma cíclica, a cabaça-Orí possa sempre ser preenchida novamente. O Candomblé é continuidade.