A Origem dos Yorubá

A Origem dos Yorubá
1 de junho de 2017 Gill Sampaio Ominirò

A Origem dos Yorubá

Por Gill Sampaio Ominirò

Muitas são as teorias sobre a origem dos yorubá. Neste breve artigo, sem pretensões de dimensionar ou definir a origem de uma etnia de tamanha importância no contexto mundial, disserto sobre uma destas teorias, trazendo para este artigo algumas informações de outros pesquisadores que fomentam a teoria apresentada.

É importante lembrar que os yorubá, até o final da primeira metade do Século XIX tinha todo o compêndio de sua História registrada em mentes humanas e transmitida às novas gerações através da tradição oral, o que, além de dificultar a exatidão de datas, locais e pessoas, ameaça a seguridade das informações originais sobre os fatos ocorridos. Numa história transmitida pela tradição oral, poucos são os documentos existentes e os que existem provem de outras culturas de tradição escrita que tiveram contato com esta civilização rica em história, em organização social, religiosa e financeira, mas carente de historiografia.

Ọba Adéyẹyè Ẹniìtàn Ògúnwùsì Ooni Ojaja II (Rei de Ilé-Ifẹ̀) (ao centro) © Obatala Religião e Cultura Yoruba

Pois bem, temos então a teoria do marinheiro e explorados britânico Hugh Clapperton e do soldado e também explorador inglês Dixon Denham. Esta é a que nos mune com mais informações para uma possível definição sobre a origem do povo yorubá. Segundo suas pesquisas em terras africanas, Odùdúwà, fundador do Império Yorubano, é Nimrod, personagem bíblico descrito como o primeiro poderoso na Terra (Gênesis 10:8; Crônicas 1:10). Nimrod seria Filho de Cusi e neto de Noé.

Nesta perspectiva, Clapperton e Denham no livro “Narrative of Travels and Discoveries in Northern and Central Africa, in the Years 1822, 1823, and 1824”, informam que os habitantes da província de Yarba são supostamente descendentes dos filhos de Canaã que pertenciam à tribo de Nimrod. Avançaram desta origem até o centro da África, até Yarba, onde se fixaram. Temos aqui, então, a origem do termo yorubá que se originou da cidade chamada Yarba. Bom exemplo disto é o termo “Yarriba”, o qual é utilizado pelos Haúsá para identificar o povo yorubá.

Outro dado importante é de cunho arqueológico. Trata-se do Ọ̀pá Ọ̀ranmiyàn, um monólito localizado em Ilé-Ifẹ̀ tido como o túmulo de Ọ̀ranmiyàn. Nele, encontram-se palavras inscritas pertencentes à Kaballah Hebraica. Estas palavras ou signos são YOD, RESH, VÔ, BETH e ALEPH, que por sua vez representam a definição em hebraico da palavra “yorubá”, cuja tradução é:

YOD – a divindade por ordem da…
RESH – unidade psíquica do ser…
VÔ – deu origem…
BETH – ao movimento de luz, objeto central…
ALEPH – da estabilidade coletiva do homem.

Fica evidente que os símbolos Yod e Resh compõem as letras Y, O e R. Já o símbolo  dá origem à letra U, o símbolo Beth à letra B e, por fim, o símbolo Aleph, à letra A. Temos então a formação e origem semântica do vocábulo “yorubá”:

YOD – YO
RESH – R
VÔ – U
BETH – B
ALEPH – A

Mas então, o que significaria esta elocução: “A divindade, por ordem da unidade psíquica do ser, deu origem ao movimento de luz, objeto central da estabilidade coletiva do homem”?

Analisando os componentes da mensagem, pode-se aferir que a “divindade” em questão é o próprio Odùdúwà, a “unidade psíquica do ser”, seria Olódùmarè; o “movimento de luz” seria a migração do povo por motivos religiosos e, por fim, o “objeto central da estabilidade coletiva do homem”, seria a finalidade da fundação da cidade de Ilé-Ifẹ̀, considerada pelos yorubá como o berço da humanidade.

Relato semelhante é a o do historiador nigeriano Samuel Johnson, o qual também disserta que o herói fenício Nimrod comandou os yorubá em guerras até a Península Arábica. Mas, ao contrário da teoria de Clapperton/Denham, Odùdúwàseria filho de Lamurudu, um dos reis de Meca, cidade sagrada da Arábia Saudita.

É fato que Odùdúwà não é o fundador da etnia yorubá. No entanto, é certo que ele é o estruturador político deles e responsável pela importância da cidade de Ilé-Ifẹ̀ à época. Há, por sinal, um mito que diz que Odùdúwà é sobrevivente de uma inundação global e quando ele e seus seguidores encontraram terra seca, estavam próximos de Ilé-Ifẹ̀ e lá se fixaram.

Oduduwa, estátua que fica enfrente do Palácio do Ooni. © Obatala – Religião e Cultura Yoruba de Ile Ife

Após se fixar e legitimar a relevância de Ilé-Ifẹ̀, Odùdúwà se casa com Olókun (Senhora dos Oceanos) e com ela gera três filhos, a saber: OkanbiÒgún e Iṣedale.

Okanbi dá continuidade à verve política e guerreira de Odùdúwà, é pai de Ọ̀ranmiyàn, o qual funda da cidade de Ọ̀yọ́ que se torna a capital política do reino yorubá e a mais disputada localidade da região. Após a morte de Ọ̀ranmiyàn, Ọ̀yọ́ foi comandada por Àjàká e Ṣàngó, seus filhos, na seguinte sequência de governos:

Okanbi – 1º Aláàfin, entre 1700 e 1600 a.C. (título póstumo ao primeiro guerreiro)
Ọ̀ranmiyàn 2º Aláàfin, entre 1600 e 1500 a.C. (filho de Okanbi)
Àjàká – 3º Aláàfin, entre 1500 e 1450 a.C. (filho de Ọ̀ranmiyàn)
Ṣàngó – 4º Aláàfin, entre 1450 e 1403 a.C. (filho de Ọ̀ranmiyàn)
Àjàká – 5º Aláàfin, entre 1403 e 1370 a.C.

Ọ̀yọ́ foi o mais poderoso reino yorubá e sua autoridade se estendia às cidades de ẸgbáBeninPopoṢàbẹ́KétouAbẹ́òkútaÒndóIlorinTógò e Nupe. O tráfico de escravos era a grande fonte de renda e, para tal, eram forjadas as guerras regionais, intertribais, para a consecução de escravos, como espólio, para posterior venda destes aos traficantes que os levariam para as Américas.

Ọ̀yọ́ veio a ser a mais conhecida das cidades Yorubá em virtude de seu domínio político-militar sobre grande parte do sudoeste da Nigéria e da área que é hoje a República de Benin. Esta estrutura política e militar tem sido muitas vezes citada como modelo de organização. Estrutura na qual figurava, e figura, o Aláàfin, o rei de Ọ̀yọ́ cuja posição na Terra era comparável a do Ser Supremo. O Aláàfin governava com a ajuda de seus conselheiros, os Ọ̀yọ́ Mesi, que eram sete e que tinham a seu cargo a escolha do novo Aláàfin dentre os filhos do anterior.

O chefe dos Ọ̀yọ́ Mesi, o Baṣorun, tinha como funções as de chefe de Estado e de conselheiro principal do Aláàfin, enquanto o exército de Ọ̀yọ́ era chefiado por um grupo de nobres conhecidos por Eso, cujo chefe era o Onakakanfo.

Yorubá e árabe

Vale ressaltar que muitas são as semelhanças entre a cultura yorubá e a árabe. Por exemplo, o termo “àláfíà”, o qual é de origem árabe e quer dizer “prosperidade”. O mesmo termo faz parte do vocabulário yorubá e quer dizer “paz” ou equivale a expressões positivas como “tudo foi aceito”.

Dilúvio?

Outro dado relevante é o fato de que em vários mitos yorubá sobre a criação da Terra, esta era, antes da chegada dos homens, coberta por água, fato que coincide com o descrito no mito mencionado mais acima, o qual diz que Odùdúwà foi sobrevivente de uma enchente de proporções mundiais. É possível que esta catástrofe tenha alguma relação com o dilúvio relatado no Velho Testamento da Bíblia hebraica.

Portanto, o texto acima não dá conta de remontar toda a origem de um povo cuja tradição remonta a um período anterior à Era Crista, mas, de certo modo, aponta uma direção para futuras pesquisas mais densas que procurem trazer à tona mais informações importantes sobre este povo que ajudou a construir de maneira efetiva a cultura brasileira que conhecemos hoje.

Festival Mundial de Ọbàtálá - 2017, em Ilé Ifẹ̀, Ọ̀ṣun State - Nigéria

 


Bibliografia

ADÉKÒYÀ, Olúmúyiwá Anthony. Yorubá: Tradição Oral e História, São Paulo, Terceira Margem. 1999.
DENHAM, Dixon; CLAPPERTON, Hugh. Narrative of travels and discoveries in Northern and Central Africa in the years 1822, 1823, and 1824. 2ª. Edição, Londres,  Cambridge-USA, 1826/2011.
JOHNSON, Samuel. The Histtory of the Yorubá. Lagos, CSS, 1921.


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