Diversidade: aqui na terra como no céu

Diversidade: aqui na terra como no céu
29 de maio de 2017 Marcelo Barros

Bem Viver

Diversidade: aqui na terra como no céu

(Para uma Teologia da Hierodiversidade)

Por Marcelo Barros

© Fernanda Scherer

Em uma entrevista, a jornalista perguntou a Mãe Stella de Oxossi: “Na sua concepção, Deus é um só ou há muitos deuses?”

Ela respondeu: “Depende”.

Ele retrucou: “Depende de que? Como?”

A mãe de Santo provocou: “A água é uma só ou há muitas águas?”

O jornalista pensou: “De fato, quimicamente a água em sua origem é uma só – H2O, mas na realidade a água da torneira é uma,  a água do mar é outra. A água da chuva tem uma composição química, a água do rio tem outra…”. Depois de pensar, ele respondeu: “Depende”.

Mãe Stella riu e compreendeu que ele havia compreendido a sua comparação: Deus também. É um só e, ao mesmo tempo, são muitos e muitas em suas manifestações diversas.

Na América Latina, marcada pela diversidade cultural, para estabelecer alguns princípios ecumênicos e trabalhar de forma justa a diversidade, temos de distinguir: existem dois tipos de diversidade, uma baseada nas desigualdades sociais, raciais, de gênero e orientação sexual. Muitas vezes, essa diversidade é ressaltada para discriminar, justificar injustiças e marginalização de pessoas. Esse tipo de diversidade não podemos aceitar nem entre pessoas, nem entre grupos culturais ou entre religiões. Outro modo de viver a diversidade é positiva e necessária. É a aceitação da pluralidade cultural e religiosa como enriquecimento e complementação na convivência comum e mesmo do caminho espiritual de todos/as.

Em uma sociedade pluralista e complexa, não é justo classificar as pessoas de forma simplista. Ninguém mais tem uma identidade única e uniforme. Ninguém é só umbandista ou é só carnavalesco ou se identifica apenas como negro ou como comunista ou como gay. Cada um/uma de nós tem diversas identidades que se conjugam e se completam. Uma pessoa se identifica com o lugar em que nasceu (é mineiro ou paulista), com a religião a qual pertence, a um grupo cultural que frequenta, a um time pelo qual torce e ainda tem a profissão que exerce ou a sensibilidade sexual que sente nas veias e na mente. Antigamente, a sabedoria espiritual consistia em unificar interiormente a pessoa. Para isso, ensinava a renunciar. Atualmente, a sabedoria espiritual consiste em harmonizar essa diversidade cultural e religiosa em nós mesmos, nas religiões e no mundo. Para realizar esse trabalho, é bom vermos essa diversidade não somente em nós, mas no próprio Mistério Divino em que cremos e ao qual adoramos.

1 – Imagens e metáforas de Deus

Ninguém pode negar que, quando falamos de Deus, construímos imagens com as quais identificamos a divindade. Mais ainda: essas imagens ou metáforas são principalmente do tipo adverbiais, isto é, mostram a forma como nos relacionamos com Deus, mais do que como uma pretensão de definir sua natureza. Desta forma, nenhum modelo pode ser cristalizado, coisificado, a ponto de excluir outros. E aqui devemos fazer uma diferenciação entre modelo e metáfora.

A metáfora é uma imagem transferida para outro contexto, de forma inapropriada: por ex. dizemos os pés da mesa, os braços da poltrona, o corpo do texto, mesmo se sabemos que a mesa não tem propriamente pés, nem a poltrona tem braços reais, nem o texto, um corpo como o nosso. E quando essa metáfora adquire uma força estável, ela se torna um modelo. A metáfora se transforma em modelo quando adquire estabilidade e amplo alcance, de forma a explicar com abrangência e coerência uma ideia anteriormente inapropriada1.

A respeito de Deus, existem imagens, metáforas e as teologias criam modelos. Na Idade Média, Tomás de Aquino afirmava: “De Deo scire non possumus quid sit” (De Deus não podemos saber o que seja)2. O Mestre Eckhart, outro teólogo e místico medieval, dizia: “Tudo o que você faz e pensa sobre Deus, é mais você do que ele. Se absolutiza isso, você blasfema porque o que realmente ele é, nem todos os mestres de Paris conseguem dizer. Se eu tivesse um Deus que pudesse ser compreendido por mim, não gostaria nunca de reconhecê-lo como meu Deus. Por isso, cale-se e não especule sobre ele. Não lhe ponha roupas de atributos e propriedades, mas aceite-o “sem ser propriedade sua”, como um ser superior a tudo e como um Não Ser superior a tudo”3. O mesmo espiritual chegava a orar: “Peço a Deus que me livre de Deus”.

Tal afirmação corresponderia ao conhecido provérbio do Budismo: “Se encontrares o Buda em teu caminho, agarra-o e o mata”.

A lei judaica nos diz: “Não farás para ti imagem nenhuma do que existe no céu, na terra e  nas águas que estão debaixo da terra..”(Ex 20, 4; Dt 5, 8).

O que essas palavras nos ensinam é que mesmo se não podemos nos livrar de fabricarmos sempre na mente e no coração imagens do Mistério Divino (e todas as religiões, de certa forma, elaboram imagens assim), o importante é não confundir o Mistério com nossas imagens e adorar a imagem que criamos pensando estar adorando o Mistério que está por trás da imagem. Antigamente, na teologia cristã, se dizia que tudo o que dizemos de Deus é por analogia. Atribuímos a Deus as qualidades e valores que admiramos e apreciamos em nós e nas pessoas que amamos. Assim Deus é Pai e Mãe, é bom, é justo, etc. Nesse sentido, dizemos “é um”. E as religiões abraâmicas, o Judaísmo, o Cristianismo e o Islã insistem: “Deus é Um”. No entanto, atualmente, a experiência de um mundo pluralista e diversificado nos faz descobrir que no próprio mistério da Divindade a Unidade admite e assume a diversidade.

2 – O Mistério Uno na diversidade e Diverso na unidade

Tradicionalmente, a Ciência das Religiões dividia as crenças em monoteístas e politeístas. Essa classificação rígida já foi superada como visão preconceituosa e artificial, como Mãe Stella mostrou ao jornalista no incidente com o qual comecei esse texto. No entanto, é frequente as pessoas estabelecerem analogias inapropriadas como, a partir do modelo da Trindade cristã, verem uma Trindade Divina em Brahma, Vishnu e Shiva das tradições hindus ou em Orixás do Candomblé ou em outras tradições. Cada tradição tem sua riqueza própria e sua originalidade que não pode e não deve ser referenciado como padrão a outra tradição. Não existe uma espécie de medida comum, como se fosse o sistema métrico decimal, para medir as religiões e, a partir de um modelo prévio, avaliar ou mesmo tentar compreender culturalmente as outras. Isso seria etnocêntrico e desrespeitoso.

O que podemos dizer, sempre como parábola e aproximação é que, de um modo ou de outro, todas as tradições espirituais intuem uma espécie de imanência ou encarnação do Mistério em nós e no universo. Nas religiões indígenas, o Mistério se manifesta nos espíritos das montanhas, na mãe do rio, nos encantados da floresta, assim como nos arquétipos dos animais e das árvores. Nas tradições afrodescendentes, os Orixás ou Inquices ou Espíritos da Umbanda são manifestações da Divindade nas águas, na mata, no metal, nas atividades humanas e nos antepassados. Essa diversidade do multiuniverso  como chamava Edgar Morin, no seu conjunto parece como um ser vivo. Expande-se e tem uma orientação precisa na sua evolução. Essa energia viva que faz o universo se mover e se renovar corresponde a conceitos como o Shalom hebraico, o Axé iorubá ou mesmo a Pacha-mama andina. Na Bíblia, corresponde à “ruah” divina, ou Espírito Santo que, em geral, aparece sendo um Espírito com sete dons. No entanto, o Apocalipse prefere falar em “os sete Espíritos de Deus” (Cf Ap 1, 4; 3, 1; 4, 5; 5,6). É um modo de dizer que Deus é um e são muitos. Assim, podemos identificar a diversidade múltipla do universo e do mundo com a própria diversidade de Deus que a anima e a sustenta. É isso que chamamos de Hierodiversidade, uma diversidade sagrada e que faz parte da natureza do próprio mistério divino. Então, se somos fieis a receber o Mistério Divino em nós ou em nos incorporar a esse Amor Terno e Eterno, somos chamados a viver também assim a diversidade, diversidade que existe em cada um/uma de nós e em toda a realidade da vida e do mundo.

A diversidade é boa porque a vida, em si mesma, é diversificada. Conforme a Convenção sobre Diversidade Biológica, a biodiversidade não é somente a variedade de organismos vivos que existem na terra, nas águas e no ar, mas a complementariedade e relação entre eles. A vida se forma quando diversos micro-organismos interatuam e compõem uma tela complexa que forma o corpo vivo de uma planta ou animal. Para viver, o ser depende da sanidade do seu organismo, mas depende também e principalmente de uma rede de vida, o que se chama de “ecossistema”. Do mesmo modo que nenhum ser vivo pode biologicamente sobreviver sem uma rede que é o ecossistema, também as culturas não são isoladas. A biodiversidade é um conceito novo para a ciência. No entanto, desde antigamente, culturas ancestrais contemplam um principio unificador, presente na diversidade dos seres vivos. Os índios do Xingu dizem que o Espírito das águas repousa na floresta e o Espírito da floresta se refaz nas águas do rio. Comunidades afro falam do Axé como a energia divina, presente em manifestações muito diversas como fonte de amor e alegria. Todas as culturas humanas e dentro dela as religiões são interligadas por uma unidade na diversidade que vem do Espírito e por isso chamamos de Hierodiversidade.

Paul Tillich, um dos maiores teólogos evangélicos do século XX, dizia: “O nome da profundidade e do fundo infinito, inesgotável de todo ser, é Deus. Esta profundidade é o próprio sentido da palavra Deus. Se vocês virem o que há de mais importante e profundo na cultura e na vida de alguém ou de um povo, vocês estão tocando no mistério da presença de Deus”4.

3 – Consequências para nós e para o diálogo

Talvez quem ler essas páginas se pergunte que conclusão se pode tirar dessa visão de Deus, como Hierodiversidade. Sem dúvida, uma primeira conclusão é que devemos renunciar aos dogmas que pretendem dizer mais do que podem ou devem. As religiões que pretendem descrever ou definir a Deus acabam reduzindo-o a si mesmas. A cada dia, podemos descobrir que ainda nem roçamos o mistério. O urgente é nos engajarmos na continuidade da busca. Como dizia o místico hindu Radhakrishan: “As sendas que trilhamos, os nomes que damos, caem na insignificância quando estamos, face a face, na resplendente luz do Divino. Quando tocamos a flama do Divino, surge uma generosa hospitalidade para com os diferentes credos e formas”5.

Na busca permanente e humilde a qual somos sempre chamados(as), a primeira atitude é adorar, é respeitar o Mistério e mesmo “se espantar” como pede a mística judaica. Mais ainda, como recomendam místicos de todas as gerações, silenciar. Mas, tal atitude de silenciar ou de renunciar ao discurso é impossível para quem se sente comprometido(a) com a libertação e o respeito ao diferente. Não podemos nos omitir e aceitar impassíveis que o nome de Deus seja usado para discriminar pessoas ou para oprimir setores marginalizados pelo sistema ou para legitimar privilégios de grupos religiosos ou políticos, assim como para justificar guerras e violências contra o diferente.  A Hierodiversidade nada tem a ver com modos idolátricos e pervertidos de falar de Deus, vigentes em muitas instituições eclesiásticas que continuam legitimando guerras, destruição da natureza, miséria e fome de mais de dois terços da humanidade. Mesmo se sabemos que o nosso discurso é aproximativo e analógico, descobrimos também que ele precisa do modo de falar do outro para ser mais profundo e propositivo. O caminho da diversidade pode assumir luz e sombras, mas não pode conviver com preconceitos, ódio, intolerância e opressão. Deus é diversidade, mas não contradição e ambiguidade.

Essa visão deve abrir-nos ao diálogo para escutarmos as histórias sagradas uns dos outros. Descobrir como as outras comunidades e grupos vivem sua experiência de intimidade com Deus ajuda-nos a renovar e aprofundar nosso aprendizado do amor. Um elemento da Hierodiversidade é que mesmo se Deus se apresenta em nós e no mais íntimo de nós é sempre para o outro, de tal modo que, por mais íntimo que se revele, é permanentemente estrangeiro. Manifesta-se sempre através do diferente. Levar isso às últimas consequências significa não apenas respeitar e acolher a experiência espiritual do outro, mas mesmo permanecer aberto a integrar em sua própria espiritualidade algo aprendido da experiência do outro que sempre pode nos revelar algo de novo sobre o Mistério Divino.

Ao afirmar isso, estou aceitando que o pluralismo cultural e religioso, verdadeiramente aberto à Hierodiversidade, sempre contém certo sincretismo. Nenhum sistema religioso é isolado. Um sempre acaba influindo sobre o outro. Não se trata do que, nos anos 80, Leonardo Boff e outros chamavam de “sincretismo de confusão”6. Na mesma época, um documento do 3o Encontro Internacional de Tradições Afrodescendentes na Bahia, condenava esse tipo de sincretismo que confunde Orixás com santos católicos e que não beneficia o diálogo, nem o aprendizado mútuo.

Esse tipo de sincretismo pode ocorrer na experiência de certos grupos que se identificam como abertos e até transrreligiosos, mas que de modo superficial e sem nenhum compromisso, assumem uma dança sagrada hindu, colocada junto de uma invocação a um encantado da floresta e concluindo com um Pai Nosso cristão. Sem aprofundar nada nem compreender que cada um desses elementos das religiões têm o seu contexto cultural e espiritual. Não adianta querer construir uma camisa de fios arrancados aqui e ali de outras roupas. Uma abertura ecumênica marcada pela indiferença, ou pelo individualismo ou incapacidade das pessoas de se definirem por qualquer coisa que seja não tem nada a ver com essa busca que estamos aqui procurando aprofundar. Seria remendo novo em roupa velha. Zigmunt Bauman chama isso de “cacofonia de vozes, confusão e até mesmo uma ideologia que destrói o mais profundo de qualquer ideologia”7.

O pluralismo cultural e religioso, baseado na diversidade não é assim. É síntese de amor e busca de comunhão e não um caminho de indiferença ou superficialidade. Ao contrário, esse sincretismo de síntese incorpora elementos culturais e religiosos, mas os toma de forma criativa para uma síntese espiritual que provoca uma realidade nova.   

4 – No nosso caminho

macroecumênico

No mercado, existe um ecumenismo de subtração que, no fundo manifesta que as pessoas não são tão ecumênicas assim. Em um encontro intereclesial de Cebs, o bispo local afirmou que o encontro era ecumênico para cristãos, mas não deveria reconhecer a presença e valorizar outras religiões. Isso provocou dor e sofrimento em todas as pessoas que trabalham pela unidade maior. Também frequentemente, ouvimos comentários do tipo: “Nesse encontro, não podemos cantar um ponto de Umbanda ou uma invocação a Orixá, porque há pentecostais que não aceitam religiões afrodescendentes”.

Esse tipo de atitude preconceituosa e discriminatória acaba gerando ressentimentos e atitudes também no sentido contrário. A Bíblia tem sido tão usada para oprimir e discriminar que se torna símbolo de colonialismo, preconceitos. É totalmente compreensível que, em 1968, na visita que o papa Paulo VI fez a Bogotá, ao receber  um grupo de índios, um chefe indígena, com uma Bíblia na mão, lhe tenha dito:

– Quando vocês, cristãos, chegaram aqui nos deram a Bíblia e tomaram de nós a nossa terra. Agora, nós queremos lhe devolver a Bíblia e queremos que nos devolvam a terra.

Nosso caminho ecumênico (intercultural e inter-religioso) não pode ignorar essa assimetria que existe na América Latina (e para nós no Brasil) entre uma religião que sempre foi dominadora (o Cristianismo) e as outras, as tradições indígenas e negras que foram pela primeira discriminadas e, muitas vezes, perseguidas. Isso justifica sim que as pessoas que preparam encontros macroecumênicos tenham de tomar cuidado e cheguem a afirmar: “Nesse encontro, não dá para orar um Pai nosso porque tem pessoas budistas ou do Candomblé. Não se deve citar Bíblia porque há pessoas que não gostam”.

Assumimos sim essas chagas e feridas provocadas pela história. Mas é bom ver com clareza qual é o modelo do nosso ecumenismo e em que direção devemos caminhar. Enquanto nos identificarmos de forma tão absoluta e corporativista com nossa a ponto de termos dificuldade de valorizar a outra, não estaremos preparados para esse caminho. E podemos estar confundindo a lua com o dedo que aponta para a lua. Ficamos com o dedo e deixamos de olhar para a lua. É claro que devo me enraizar na minha cultura e me identificar com minha fé e religião, mas de um modo que essa identificação não seja instrumento de separação e sim de comunhão. Ernesto Balducci era um filósofo e espiritual italiano. Ele escreveu: “Sem negar nunca o que eu sou em termos religiosos, devo, como crente, intuir uma nova identidade.  Para ser verdadeiramente um ser humano planetário, devo ir além de uma identidade fechada, seja de cristão, seja de budista ou de outra religião qualquer. Diversas vezes, na Bíblia, diante de pessoas que queriam se ajoelhar diante deles, um ou outro apóstolo afirmava: “Eu sou apenas um ser humano”. Eu descubro que nós todos deveríamos sempre poder afirmar isso. (…) Essa é a minha fé. Quem ainda se professa ateu, ou laical e tem necessidade de um crente para complementar a série de representações sobre o palco da cultura, não me procure. Embora eu seja cristão, essa não é a minha identidade fundamental. Eu sou apenas um simples ser humano”8.

Tanto por imaturidade humana e psicológica, quanto por corporativismo religioso, ainda presente nos encontros ecumênicos, continua existindo sim um Ecumenismo de subtração que parece se guiar por uma espécie de “mínimo denominador comum”. Seria ecumênico o que não caracteriza nenhuma religião específica. É o “ecumenismo” dos impérios. Em vários países da Europa não se permitem que mulheres muçulmanas usem o véu nas ruas. Prefeituras de algumas cidades da Itália não permitem a construção de uma mesquita ou de um templo hinduísta em algum bairro da cidade. Compreende-se a laicidade (um país que é laico), como a proibição de que qualquer religião seja expressada publicamente. O religioso fica restrito ao âmbito privado das consciências. Essa visão acaba sempre sendo opressiva porque, por tradição, mantém privilégios da religião dominante que toma aspectos de religião civil e discrimina as outras. Os países são laicais, mas nem tanto.

A proposta mais libertadora é a de um Ecumenismo, não de subtração, mas de soma, de adição, de unir e não de proibir. É o que propõe a Agenda Latinoamericana: “Este livro-agenda se rege por um “ecumenismo de soma” e não de resto”9.

No encontro, não existe ecumenismo quando cada um quer aparecer, ter sua vez. O ecumenismo acontece quando a proposta é justamente, ao contrário, valorizar o outro. Não se trata só de respeitar o diferente, mas de testemunhar que precisamos do outro para sermos nós mesmos e assim precisamos aprender com ele. Evidentemente, o encontro com a outra tradição sempre deve levar a nos rever e a nos renovar. Buscamos elementos da fé que nos sejam mais comuns e não aqueles que nos dividem. Fazemos isso não porque ali tenhamos de encontrar irmãos e irmãs de outras tradições. Se fosse assim, nosso encontro seria fingido ou superficial. Procuramos elementos da fé que nos unam porque os que nos dividem nunca deveriam ser nossos, nem mesmo quando estamos sozinhos. A nossa fé não pode ser para dividir e sim para unir. Se divide, alguma coisa está errada. Não no outro, mas em nós. Se queremos caminhar na direção da Hierodiversidade, temos de nos tornar capazes de afirmar como na Idade Média, dizia Ibn Arabi, um místico muçulmano:

“Meu coração tornou-se capaz de qualquer forma. Torna todo o meu ser um pasto para gazela e um convento para monges cristãos. Uma Cabala (judaica) para os peregrinos e, ao mesmo tempo, um templo para os ídolos. Meu coração se tornou como as tábuas da lei judaica e o livro do Corão (islâmico). Sigo a religião do Amor, para onde quer que sigam seus camelos. O Amor é minha religião e minha fé”10.


Referências

1 Sallie McFAGUE. Modelos de Deus: teologia para uma era ecológica e nuclear. S. Paulo: Paulus, 1996.59.
2 – TOMÁS DE AQUINO, Introdução à terceira questão da Suma Teológica consagrada à simplicidade de Deus.
3 Cf. F. PFEIFFER, Meister Eckhart, Aalen, 1962, p. 183.
4 Paul TILLICH, The Shaking of Foundations, p. 63, citado por Dieudonné DUFRASNE, “Célébrer les événements salutaires d’autrefois ou d’aujourd’hui? », in Paroisse et Liturgie 1969/ 3, p. 221.
5 S. RADHAKRISHNAN, Occasional Speeches and Writings, maio de 1962 a maio de 1964, p. 178. citado por Ignace PUTHIADAM, “Fé e vida cristãs num mundo de pluralismo religioso”, in Concilium / 155 – 1980/ 5, p. 103.
6 – Ver BOFF, L, Igreja, Carisma e Poder, Petrópolis, Vozes, 1982. Ver especialmente o terceiro capítulo.
7 – ZIGMUNT BAUMAN, Comunidade: a Busca por segurança no mundo atual, Rio de Janeiro, Jorge Zahar Editor, 2003, p. 112.
8 – ERNESTO BALDUCCI, L´Uomo Planetario, Brescia, Ed. Camunia, 1985, 1° ed., p. 189 (a história do navio), p.
9 – AGENDA LATINO-AMERICANA 2017, p. 9.
10 – Cf. IBN’ ARABI, The Tarjumán al-Ashwaq, citado por TEIXEIRA, FAUSTINO, Religiões e Espiritualidades, São Paulo, Fonte Editorial Ltda, 2014, p. 196.