Candomblé: Espiritualidade do Cuidado

Candomblé: Espiritualidade do Cuidado
26 de maio de 2017 Jonathan Felix

Candomblé: Espiritualidade do Cuidado

Por Jonathan Félix

© Fernanda Scherer

Falar de espiritualidade é um grande desafio, pois a palavra traz uma carga histórica com significados e predefinições, principalmente em uma sociedade predominantemente cristã.

Para iniciarmos o nosso diálogo, precisamos deixar claro a diferença entre religião e espiritualidade. A religião é um modelo, uma forma de acreditar e está relacionada à fé. Cada religião possui seus dogmas, rituais, orações (rezas) e outros. Já a espiritualidade nasce com o ser humano e não é institucionalizada. É algo que pode ser desenvolvido e cada pessoa encontra uma forma de exercitá-la e, por isso, temos uma diversidade imensa de espiritualidades.

Comumente, a relação entre religião e espiritualidade se dá porque ninguém consegue vivenciar uma profunda fé e espiritualidade de forma isolada e individual. A espiritualidade é interior e pessoal, mas precisa de alguma expressão comunitária. Por isso, as pessoas, mesmo percebendo que a religião não é tudo e nem é o mais importante, se sentem atraídas por uma comunidade religiosa. No entanto, atualmente, muitas pessoas fazem a experiência de viver a fé em grupo, sem pertença institucional a nenhuma tradição religiosa.

Hoje, a espiritualidade é considerada uma das nossas múltiplas inteligências. Essa inteligência proporciona ao ser humano formular perguntas e encontrar respostas sobre a sua existência, dando sentido à sua vida. É essa inteligência que nos ajuda a nos situar no universo,  dando significado à vida, por meio de experiências profundas de cuidado, amor ao próximo/a e  dedicação a uma causa.

A espiritualidade para ser entendida precisa ser vivenciada. Só a pessoa que experimentou pode falar de espiritualidade. É como indicar para um amigo um prato típico de uma região: só posso falar dos sabores com propriedade se tiver experimentado. E, mesmo assim, o prato pode ter processos diferentes, o que torna a experiência única a cada vez que como.

Como eterno curioso das espiritualidades, durante o 2016 vivenciei, em alguma medida, a espiritualidade das religiões de matriz africana.  Percebi uma riqueza imensurável, quebrando preconceitos e visões distorcidas que a sociedade nos apresenta sobre elas.

Aprendi que o Candomblé promove uma espiritualidade do cuidado,  de reencantamento com a natureza e todos os seus elementos.  No livro Iniciação do Candomblé, do autor Zeca Ligeiro, ele apresenta os onze orixás como forças inteligentes da natureza.  E no livro Candomblé e Umbanda: Caminhos da devoção brasileira, de Vagner Silva , o autor complementa apresentando os orixás como entidades espirituais regentes.  Para os autores¬, “na visão das religiões de matriz africana, os oxirás são forças inteligentes da natureza que regem o cosmo, vincula-se às pessoas, como arquétipos da personalidade humana”, dando característica a cada filho ou filha.

A espiritualidade do candomblé nos retira de uma espiritualidade individualista, cultivando o respeito pela pessoa humana e a reverencia pela natureza.

A relação com cada orixá constitui uma fonte intuitiva que nos ensina a cuidar da natureza. Dentro da tradição africana uma afirmação dita constantemente é “kosi ewé, kosi orisa” que significa: “sem folha não há vida”.  Esse saber ecológico contido na espiritualidade das religiões de matriz africana é um grande caminho para o cuidado com o planeta terra e garantia da sobrevivência humana.

Por fim, fica na memória uma das coisas mais profundas que encontrei nessa espiritualidade, uma Divindade que desce, dança e come com os/as filhos/as.  Um Sagrado que toca o corpo, o coração e nos deixa sensíveis. Ser do Axé, é ser livre nas mãos das forças que conduzem o universo, transcendendo a própria individualidade, ultrapassando um modelo de espiritualidade individualista.

Abrir-se a esse caminho espiritual não somente não é incompatível com quem sempre se sentiu ligado a outra tradição como por exemplo o Cristianismo, mas, ao contrário, pode mesmo enriquecer e ampliar o modo de viver a fé. A espiritualidade ecumênica nos faz abrir o coração para essas diversas estradas ou moradas onde habita a Divindade.