Experiência do Axé

Experiência do Axé
25 de maio de 2017 Washington Luís Santos Oliveira

Experiência do Axé

Por Washington Luís Santos Oliveira

© Emanuele Scherer

Quando tive o primeiro contato com religiões de matriz africana, ainda muito novo, me lembro que tudo parecia mágico,diferente do que até então eu tinha tido de experiência religiosa, mas algo que me atraía. Alguma coisa (que não tem nome) ocorria quando o tambor tocava como se acessasse algo, até então, adormecido em mim. Naquele momento, entretanto, havia o primeiro obstáculo: conseguir a aprovação dos pais (evangélicos) para continuar frequentando o terreiro, o que não aconteceu.

Diante de tal negativa, fiquei durante um bom tempo seguindo o repertório judaico-cristão e tive experiências interessantes no cristianismo, adquiri conhecimentos importantes, mas que, num dado momento, não representava mais a “minha verdade”. Não era o que ,de fato, pulsava em mim. Atingindo a maioridade, veio a experiência mais forte espiritualmente sentida por mim, até hoje.

Quando voltei ao terreiro como olheiro e não disfarçando o vislumbre que esse momento me causava, comecei a sentir os acessos do tambor, dos cantos, das danças como uma energia que me tomava de forma muito intensa e foi quando decidi começar minha caminhada espiritual como filho de um Nzo Atim (Casa de Axé). Depois de dois anos na casa, fui Iniciado para o Nkise Nsumbo, (Orixá dono da terra, da magia, da saúde) e passei a ser conhecido no meio do candomblé como Kamugenã, nome recebido após o batismo.

Assim começou meu caminho espiritual dentro de um terreiro e aprendendo a cada dia: os aspectos litúrgicos, o respeito à diversidade e a veneração à natureza, através de todas as divindades que se manifestam no terreiro. Fui percebendo a cada dia que o candomblé, apesar de reverenciar várias divindades, é uma religião que cultua apenas um Deus, o mesmo do repertório judaico-cristão mas que chamamos de (Nzambe ou Olorum).

A trajetória foi intensa e repleta de ensinamentos, alegrias, tristezas, frustrações como faz parte da dinâmica da vida. O que os espíritos e os Nkises sempre ensinavam me fez ter a ideia de que o candomblé exige de quem quer estar nele três coisas básicas: fé, humildade e aceitação.

Recentemente, fui consagrado sacerdote, pai de santo, o que ocorre após 7 anos de sua iniciação na religião cumpridos todos os preceitos e obrigações exigidas nessa caminhada, e é inevitável não fazer esse resgate de como tudo começou e também não elaborar uma segunda pergunta que é: O que vem daqui pra frente? O fato é que hoje, após nove anos de iniciado no culto e com a bagagem acumulada de ensinamentos, alegrias, tristezas e afins, novos compromissos surgiram com as forças da natureza, preservar a fé, resistir às intolerâncias e ter a responsabilidade de iniciar novas pessoas.

Pertencer a essa rica religião de matriz africana tem significados múltiplos. Talvez os mais importantes sejam a luta pela permanência de seus processos litúrgicos, pelo respeito à diversidade religiosa e  isso tudo regado à consciência de que trazer o peso de uma religião ancestral requer acima de tudo, responsabilidade na condução da casa, dos filhos de santo e, ainda, ampliar o debate ecumênico – ensinando e aprendendo com outras religiões e mostrá-las a importante contribuição social que o candomblé efetivamente dá.

Então sigamos na luta e felizes pois candomblé é fé, é respeito, é humildade.