“Muitas vezes sofri preconceito em comentários e observações que me identificavam como uma pessoa ignorante…”

“Muitas vezes sofri preconceito em comentários e observações que me identificavam como uma pessoa ignorante…”
16 de maio de 2017 Priscila Kikuchi

“Muitas vezes sofri preconceito em comentários e observações que me identificavam como uma pessoa ignorante…”

Entrevista com Nilza Menezes

Por Priscila Kikuchi Campanaro

Nesta entrevista, Niza Menezes fala sobre sua trajetória no Candomblé e como Yalorixá, além de apresentar relatos de suas experiências com intolerância religiosa e preconceito. Discute também sobre o quanto o fato de ser uma mulher faz com que estes atos apresentem características que em muitos casos não são levadas em conta nas discussões e reflexões sobre a intolerância religiosa. Nilza é graduada em História pela Universidade Federal de Rondônia, é especialista em História do Brasil pela PUC/MG e em Ciências da Religião pela Universidade Metodista de São Paulo (UMESP), é mestre e doutora em Ciências das Religiões pelo programa de pós-graduação em Ciências da Religião da Universidade Metodista de São Paulo (UMESP), é pesquisadora do Grupo de Estudos de Gênero e Religião: Mandrágora/Netmal e pós-doutoranda da Universidade Pablo de Olavide de Sevilha -Espanha.

Senso: Você pode nos contar como foi a sua trajetória na religião até se tornar uma Yalorixá, e a quanto tempo você é sacerdotisa do Candomblé? 

Nilza: Nunca pensei nisso como um projeto ou meta. Na verdade, nem busquei isso. As coisas foram acontecendo de acordo com as necessidades e curiosidades. Nasci católica, mas sempre tive fascínio pelo mundo, digamos sobrenatural, ou pelo desconhecido, e nesse sentido a forma de catolicismo vivenciada cheia de pecados e com medo do inferno me tornava uma pessoa muito angustiada. Até os meus 18 anos tive apenas algumas experiências com o espiritismo na busca de cura para a depressão. Aos 20 anos (em 1976) conheci de maneira mais próxima um terreiro de Umbanda em Curitiba por meio de uma amiga, a atriz Gilda Elisa, e de seu pai, Francisco Shimanski, que era cambono no centro de um pai de santo de nome Benedito. Foi minha primeira experiência como adepta e desde então, entre aproximações e distanciamentos, se foram 40 anos.  Com as vivências, foram acontecendo as iniciações e diversas buscas e experiências com a Umbanda, Kardecismo, Jurema/Catimbó, Candomblé, Nagô e por último com o Ifá, por meio da professora Ronilda Iyakemi da USP, que me apresentou o Babá King do templo Ododuwa localizado em Mongaguá, onde estou nos últimos 10 anos. Tenho algumas angústias em relação à denominação de mãe de santo, ou sacerdotisa, tendo em vista que possuo diversas outras atividades como funcionária pública, pesquisadora e poeta e viajo muito. Não tenho dedicação exclusiva para o atendimento a que estão acostumados os frequentadores de terreiros que buscam um feiticeiro(a) ao seu dispor, vinte e quatro horas por dia, que depois reclamam que são explorados. Não vivo da religião, tenho ela como prática e disponibilizo o que posso.

Senso: De acordo com a sua trajetória na religião, como você analisa a questão da intolerância religiosa especialmente em relação às religiões de matriz africana? 

Nilza: A questão da intolerância não tem como ser negada. Ela existe e é violenta e nem sempre percebida por ser manifestada na maior parte das vezes de maneira simbólica. Vale salientar que existe também dentro da diversidade das práticas de matriz africana, uma tensão entre a diversidade da própria religião no discurso de pureza e de fundamentos religiosos.

Senso: Desde o seu início na religião, é possível para pontuar mudanças positivas e negativas em relação ao combate à intolerância religiosa em terreiros de Umbanda e Candomblé?

Nilza: Como se diz nas religiões de matriz africana, os mais velhos contam que antigamente eram muito perseguidos e existem diversos trabalhos acadêmicos sobre isso. Porém, talvez pela visibilidade dos meios de comunicação, percebemos todos os dias a intolerância com as práticas afro-brasileiras, sendo perceptível nas ironias em conversas, nas piadas, no humor comercial, etc.

Senso: Você possui uma incidência significativa no mundo acadêmico, através de palestras e publicações. Sua tese de doutorado foi premiada pela CAPES por sua relevância nos estudos das Ciências da Religião. Na sua opinião a inserção de pessoas do Candomblé e da Umbanda na academia é positiva ou negativa? Por quê?

Nilza: Do meu ponto de vista a inserção é muito positiva, apesar da dificuldade de lidar com isso. Já sofri muitas críticas de sacerdotes, sacerdotisas, adeptos e adeptas que possuem o discurso do saber oral tradicional estabelecido no Brasil, que entendem o sacerdócio como um dom sobrenatural e aprendido pela tradição oral.

Senso: A sua tese de doutorado foi sobre a Violência de Gênero em Terreiros de Candomblé. Neste sentido, e em perspectiva de gênero, gostaria de lhe perguntar se, na sua opinião, as mulheres candomblecistas, e também umbandistas, sofrem mais com a intolerância religiosa do que os homens e por quê?

Nilza: Todas as desigualdades de gênero presentes na sociedade de maneira geral também se estabelecem dentro dos espaços de práticas afro-brasileiras. Não há um isolamento, as pessoas transitam, trocam, vivenciam as relações cotidianas. Dessa forma, não há como dissociar as relações no espaço religioso do espaço social das pessoas. Com algumas distinções em decorrência de construções simbólicas, as desigualdades de gênero estarão presentes, ocorrendo às vezes em condições muito ambíguas.

Senso: Na sua opinião, a maneira como os grupos intolerantes atacam as pessoas que frequentam terreiros de Candomblé ou/e Umbanda, difere se ela é homem ou mulher? E se a resposta for positiva, você poderia citar que tipos de diferenças na abordagem são realizadas? 

Nilza: Na medida em que há desigualdade de gênero, dentro da própria religião, as mulheres serão atingidas de forma mais violenta, inclusive na “desimportância” dada à elas no exercício das funções religiosas. Podemos dizer que o lugar dado a elas na sociedade de auxiliar do homem se reflete dentro da estrutura religiosa. O diferencial só ocorre de maneira pontual e pessoal. Na minha pesquisa de doutorado, a violentada fui eu, pois eu tinha uma visão romântica e essencialista, e enfrentar fenômenos internos a partir de teorias é cortar a própria carne. A violência de gênero nas práticas afro-brasileiras acaba se estabelecendo pelo viés da divisão sexual do trabalho e agrega raça, sexualidade, classe social, etc.

Senso: Você já sofreu algum tipo de ataque de grupos intolerantes quando se assumiu candomblecista? 

Nilza: Muitas vezes sofri preconceito em comentários e observações que me identificavam como uma pessoa ignorante. Quando fui fazer o mestrado, e depois o doutorado, cheguei a ouvir comentários do tipo “agora você vai abandonar essa prática primitiva”. Algumas vezes, durante rituais, crianças do bairro, possivelmente incitadas por adultos, atiraram pedras no telhado. Uma vez tive imagens e objetos danificados, porém não foram identificados os agressores e não se soube os motivos da atitude, se realmente foi uma atitude de intolerância ou apenas vandalismo.

Senso: Na sua opinião, as Yalorixás ou/e Mães de Santo, sofrem algum tipo de discriminação por outras lideranças religiosas, que em boa parte dos casos são masculinas, pelo simples fato de serem lideranças religiosas femininas?

Nilza: É sempre mais fácil atingir uma mulher do que um homem. São nessas condições que se estabelecem as assimetrias de gênero.

Senso: Para encerrar, quais são os possíveis caminhos para o combate à intolerância religiosa?

Nilza: O combate com punição. O esclarecimento que entendo, deve ocorrer também internamente na postura dos adeptos e adeptas para que se coloquem como religiosos realmente pertencentes.  Que não tenham vergonha de dizer a sua religião, que a concebam como religião e não como um recurso mágico opcional. Que não se coloquem como feiticeiros(as), como portadores de poderes sobrenaturais, geralmente para o mal, que não sintam vergonha da sua prática religiosa.

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