Mãe Xagui – 80 anos de paz e exemplo de vida

Mãe Xagui – 80 anos de paz e exemplo de vida
11 de maio de 2017 Taata Nkisi Katuvanjesi – Walmir Damasceno

Mãe Xagui – 80 anos de paz e exemplo de vida

Por Taata Nkisi Katuvanjesi – Walmir Damasceno

Mãe Xagui

O espaço, na Rodovia Armando Salles, 5205, bairro Recreio Campestre, Itapecerica da Serra, Grade São Paulo, sede do ILABANTU/Nzo Tumbansi, está ultimando os preparativos para também celebrar os 80 anos de iniciação de Nengua Xagui, filha do Oxoguiã mais antigo de Salvador (que se tenha registro), que desembarca em São Paulo dia 12, sexta-feira, pela manhã.

Carmelita Luciana Souza, a primogênita dentre 6 irmãos, filha da senhora Arcanja das Virgens – Nengwa Kwa Nkisi Kassutu e de Apolinário Luciano de Souza, nasceu em 17 de março de 1929 na cidade de Salvador – Bahia.

Sua mãe, Arcanja – Nengwa Kassutu, foi iniciada em 5 de junho de 1932 por Maria Genoveva do Bonfim, a saudosa Maria Neném – Mame’tu Tuenda dia Nzambi – matriarca do Terreiro Tumbenci (até hoje localizado no antigo bairro do Beirú), uma das matrizes da Nação Kongo Angola no Brasil; segundo Nengwa Xagui, anteriormente chamado de Terreiro de Santa Luzia, Fé e Razão, Tumbenci (Cá te espero).

Inicia-se desta maneira, o enredo da menina Carmelita com o Candomblé, pois constantemente acompanhava sua mãe Arcanja na “roça” de sua avó Maria (como Mãe Xagui se refere à matriarca do Tumbensi até os dias de hoje). Por conseguinte, numa das visitas ao Tumbensi tendo completado 7 anos de idade, precisamente, ao final de julho de 1936, Mãe Xagui afirma: “Eu não me lembro direito. Não sei se era uma festa pro Kavungu dela ou se era outra coisa, eu só sei que eu e meus irmãos fomos com minha mãe lá pra roça de minha avó Maria, e naquele tempo menino ficava solto, andando pela roça. Não tinha direito de perguntar nada, de se meter em conversa de mais velho, então o “pau comia”! Mas a gente podia ficar livre pela roça porque minha avó gostava muito de criança e queria que a gente ficasse solta, brincando… Foi quando eu soube que numa roça ali perto ia ter uma missa e uma procissão pra São Roque, e eu, muito “abelhuda” quis ir ver como era.

“Me piquei” sozinha pra essa roça… Cheguei lá vi umas pessoas sentadas na dicisa aí peguei e sentei também. Tudo o que elas faziam eu fazia também. E fui indo escondida pra lá todos os dias da missa, até que eu já me vi recolhida… Mas eu até hoje não me lembro como foi que eu passei da sala pro Barracão, juro a você, eu não me lembro como é que eu fui parar lá dentro.”

O Terreiro que reverenciava São Roque era o Tumba Junsara fundado por Manoel Rodrigues do Nascimento – Kambambe e Manuel Ciríaco Nascimento de Jesus – Nlundyamungongo – iniciados em 13 de junho de 1910 também pela Matriarca Maria Neném.

Carmelita foi iniciada então aos 7 anos de idade pelo Taata Nkisi Nlundyamungongo e Bada Olufã Deiy (Ialorixá do Ilê Axé Opô Afonjá) no Tumba Junsara. Mãe Bada foi mãe pequena do Taata Nlundyamungongo que ao notar no barco dos azenza, a presença de um Orixá entre os Bankisi – Oxoguiã – imediatamente reivindicou a presença de Bada Olufã Deiy para a iniciação da menina Carmelita. O Barco dos azenza foi composto por 12 pessoas: 2 pessoas de Kayala, 1 de Dandalunda, 2 de Nkosi, 1 de Gangazumba, 2 de Lemba, 2 de Bamburucema, 1 de Kavungo, 1 pessoa de Mutalambô, com a ressalva de que a filha de Gangazumba estava grávida de um menino que era de Nzazi, logo seu barco foi de 13 pessoas. Xagui foi a dijina trazida por Oxoguiã dia 29 de dezembro de 1936.

Desde então, a muzenza Xagui sempre que visitava o Tumba Junsara, Taata Nlundyamungo estendia sua estadia na roça por quase um mês; não permitia que a mesma ficasse junto às outras filhas-de-santo; sempre que alguma delas exigia algo da menina o Taata aparecia e não permitia; também demonstrava ter um carinho especial por seu “menino”, modo pelo qual Taata Nlundyamungongo se referia a Oxoguiã. E a assim, a menina sob os cuidados de seu pai participava das atividades da roça carregando água na fonte, passando roupas quando o ferro ainda era a vapor, colocando as saias na goma, fazendo acarajé na pedra, ralando milho e feijão etc. Acostumada em acompanhar as obrigações, normalmente três dias de festa, tanto no Tumba Junsara, quanto no Terreiro Tumbancé, fundado por sua Mãe Arcanja em 1943 no bairro da Pero Vaz. Mãe Xagui lembra que “gostava muito de cantar e dançar, era a dona do pedaço”, mas não lhe passava, até então, pela cabeça a hipótese de vir a se tornar uma Nengwa dia Nkisi.

Precisamente em junho de 1945 em uma festa no Tumbansé, Tat’etu Nzazi de Nengua Kassutu traz ao barracão a gamela que contém todos os elementos utilizados no processo de iniciação e diante de todos, Nzazi entrega a gamela para Kota Xagui (na altura, ainda Kota com 12 anos de iniciação). Ajoelhada diante de Nzazi, surpresa por sua atitude, ela implorou para que ele não fizesse aquilo, pois temia que esta entrega representasse a morte de sua mãe Arcanja: “Na hora eu chorava e ele lá me entregando a gamela, e eu dizendo: – Não senhor, o senhor não pode fazer isso comigo, eu não posso tomar a espada da mão do jogador”.

Muitos anos se passaram, precisamente após 30 anos, em 10 de agosto de 1976 Nengua Kassutu cumpriu um ciclo, Mãe Xagui prontamente recorreu a Taata Esmeraldo Emetério de Santana (Kondiandembu) e Taata Macofá para realizarem o Mukondu/Ntambi. No ano seguinte (1977), a determinação de Tat’etu Nzazi foi confirmada, pois o Nkisi exigiu que a sucessora do Tumbancé fosse uma filha de Oxalá. Desde então Nengua Xagui assume o Terreiro Tumbancé com amor, retidão e resignação. A Nengua recolheu seu primeiro barco composto por três filhas-de-santo em 1979 e atualmente registra-se aproximadamente 80 filhos-de-santo.

Celebrar os 80 anos de Nengua Xagui, filha do Oxoguiã mais antigo em Salvador (que se tenha registro) é rememorar e homenagear todas (os) aqueles que salvaguardaram nossa religião. De modo que narrar a história de Nengua Xagui significa narrar parte da história do Candomblé Kongo Angola na Bahia.

Nengwa Xagui, matriarca do Terreiro Tumbansé, sediado no bairro de Pero Vaz, Liberdade, Salvador Bahia, desembarca em São Paulo dia 12 de maio, sexta-feira, logo pela manhã, acompanhada da Makota Maiangansi – Veridiana Machado, mestra em psicologia pela USP, a noite, participará do Seminário Enfrentamento do Racismo Institucional e Religioso que será realizado na Câmara Municipal de Itapecerica da Serra, onde será homenageada.