Tolerância? RESPEITO!

Tolerância? RESPEITO!
20 de abril de 2017 Sandson Rotterdan

Tolerância? RESPEITO!

por Sandson Rotterdan

© Fernanda Scherer

© Fernanda Scherer

O dia 21 de janeiro traz uma marca dolorosa para a história brasileira, mas também anima as pessoas de boa vontade a construir um outro mundo possível. Ele recorda o falecimento da Yalorixá Gildásia dos Santos e Santos, a mãe Gilda, mãe de santo engajada em lutas políticas e extremamente dedicada em favor do povo. A Igreja Universal do Reino de Deus usou indevidamente uma imagem de Mãe Gilda em seu jornal “Folha Universal” e isso causou inúmeros problemas à Yalorixá, desde a depredação de seu terreiro até a sua morte.

Infelizmente, ainda precisamos de fatos trágicos para tomar uma postura diante da violação de direitos humanos fundamentais, consagrados em nossa Constituição. Para isso, por meio da lei 11.635/2007, foi criado o dia de combate à intolerância religiosa. É importante refletir sobre a importância de um dia como esses em um país como o nosso.

Somos acostumados a ser reconhecidos como um povo plural, hospitaleiro e isso, de alguma forma, encobre a intolerância religiosa presente em nossa sociedade. Segundo dados do IBGE, no Censo de 2010, 87% da população brasileira é cristã e não podemos nos esquecer que o cristianismo aqui chegou, de alguma forma, arrombando as portas, explorando o território e confundindo evangelização com colonização. Nós cristãos nos acostumamos com esse lugar. Arrombamos a porta e achamos que a casa é nossa. Fomos nós cristãos também que trouxemos para a “Terra de Santa Cruz” os negros escravizados. Segundo dados CensoIBGE 2010, 0,31% da atual população brasileira se reconhece pertencente a uma religião de matriz africana. No entanto, de abril de 2012 a agosto de 2015, 71% das denuncias de intolerância religiosa as vítimas eram de religiões afro-brasileiras no Rio de janeiro, segundo o Centro de Promoção da Liberdade Religiosa & Direitos Humanos (CEPLIR). Segundo dados da Secretaria de Direitos Humanos, vinculada ao Ministério da Justiça e Cidadania, as denúncias de intolerância religiosa cresceram 3.076%em cinco anos.

Esses dados são muito sérios pois demonstram o quanto nossa sociedade é violenta, racista e segregacionista, sobretudo porque são as pessoas de religiões de matriz africana as que mais sofrem a violência da intolerância religiosa. A liberdade de consciência e de religião, consagrados em nossa Constituição é ainda letra morta no papel.

Temos, nós cristãos, dificuldade em reconhecer nossas intolerâncias e nosso racismo. Eles, no entanto, escapam em nossas nada inocentes brincadeiras e piadinhas, em nossas microintolerâncias, como o famoso (infelizmente) “chuta que é macumba”, que são aparentemente inofensivas, mas, na verdade, externalizam nosso preconceito que não pode ser compreendido como natural.

Axé é uma palavra muito significativa e profunda nas tradições religiosas de matriz africana, significando a energia vital presente nos orixás e também nas pessoas. O axé é força que vitaliza e revitaliza as pessoas.

A vivência ética impõe o imperativo de respeitar o axé do outro. O imperativo de respeitar o axé é exortação a respeitar a pessoa em todo o seu ser, com toda a sua cultura e sua ancestralidade. Respeitar o axé do outro é reconhecer-lhe como sagrado e reverenciar sua história.

Vencer o nosso preconceito exige de nós uma atitude de coragem, de criar relações de alteridade, reconhecendo o direito de o outro viver sua identidade e agir de maneira ética.

Todas as vezes que minimamente desrespeitamos o outro e tentamos matar seu axé estamos desrespeitando e matando a humanidade inteira. Não é uma questão de ser politicamente correto ou não, mas é uma questão de vivência ética.

O que nos alenta e anima a esperança é a resistência de negras e negros de nossa história, que, com suas lutas, testemunham que o axé resiste ao racismo e à intolerância. Que um dia axé, shalom, paz, justiça se abracem e que nos reconheçamos todos humanos. Que nossos sagrados nos fortaleçam na construção de uma casa comum onde não precisemos mais de campanhas e nos reconheçamos humanidade.