O culto de candomblé de Caboclo

O culto de candomblé de Caboclo
20 de abril de 2017 Renata Cassini

O culto de candomblé de Caboclo

Por Renata Cassini

Quando o povo “banto”¹ chegava em terras alheias tinha por prática religiosa identificar os espíritos que “chegaram primeiro” naquela terra. Para tal recorriam aos sacerdotes locais a fim de aprender os métodos de culto a tais espíritos os reconhecendo como “os donos da terra”.

Desta forma, após a diáspora, os bantos perceberam que havia uma ancestralidade própria pertencente ao solo brasileiro que agora habitavam e assimilaram ao seu culto o ancestral brasileiro, o índio, dono primordial desta terra, dando início assim ao culto de caboclo.

O termo candomblé de caboclo teria surgido na Bahia, entre o “povo de santo” ligado ao candomblé de nação Kétu, originalmente pouco afeito ao culto de caboclo, justamente para marcar sua distinção em relação aos terreiros de caboclos.

© Cleiton Ferreira

Nos anos 30, a antropóloga americana Ruth Landes esteve na Bahia e, numa visita que fez ao terreiro de Mãe Sabina, famosa sacerdotisa cabocla, Ruth Landes registrou um diálogo significativo.

Uma das mulheres, referindo-se à americana, pergunta a Mãe Sabina:

“Ela sabe qual é a nossa seita? Sabe que somos caboclos e os outros são africanos?”

Ao que responde Sabina:

“A senhora deve saber essas coisas. Este templo é protegido por Jesus e Oxalá e pertence ao Bom Jesus da Lapa. É uma casa de espíritos caboclos, os antigos índios brasileiros, e não vem dos africanos Yorubás ou do Congo. Os antigos índios da mata mandam os espíritos deles nos guiar, e alguns são espíritos de índios mortos há centenas de anos. Louvamos primeiro os deuses africanos nas nossas festas porque não podemos deixá-los de lado; mas depois salvamos os caboclos porque foram os primeiros donos da terra em que vivemos. Foram os donos e, portanto, são agora nossos guias, vagando no ar e na terra. Eles nos protegem.”


¹ os bantus constituem um grupo etnolinguístico localizado principalmente na África subsariana e que engloba cerca de 400 subgrupos étnicos diferentes. A palavra “bantu” é derivada da palavra ba-ntu, formado por ba (prefixo nominal de classe 2) e nto, que significa “pessoa” ou “humanos”. O candomblé bantu é uma das maiores “nações” do candomblé. Desenvolveu-se entre negras e negros escravizados que falavam KimbunduUmbundu e kikongo.


Referências

LANDES, Ruth. Cidade das Mulheres. Rio de Janeiro: Ed. UFRJ, 1974.